Álbuns Clássicos - OUT TO LUNCH (Erich Dolphy)

Por Marcelo Mendes e Luiz Galvão
Em 1994, eu namorava a Giane e as coisas não iam muito bem. Sabe como é, naquela fase da minha vida eu num era lá muito cristão e as coisas que eu fazia, passavam bem longe de ser... tomar hóstias. Enfim... Num sábado que tava tudo uma merda, sem beijo na boca, nem safadezas mútuas, mandei a “muié” à merda, sentei no sofá da sala e escolhi um disco nosso. OUT TO LUNCH foi o premiado. A ligação que esse momento todo pode ter a ver com a coisa do disco, não sei. Fato é que depois de começar ouvi-lo, nem se a Charlize Theron aparecesse me chamando pra tomar umas, eu deixaria aquela poltrona! Para falar desse discaço histórico eis que trago aqui o dono da coisa...

Portanto, senhoras e senhores, moças sérias ou desavergonhadas, carolas ou de comportamento duvidoso, cachaceiros ou do time do muppy, felizes palmeirenses ou o que sobrar além disso... Com vocês ERIC DOLPHY.

Para falar da bolacha, chamei o amigo Luiz “Titcha” Galvão e é ele quem começa aqui dizendo do porque, ouvir essa obra ainda hoje:

É uma obra atemporal. Principalmente por ter elementos do free jazz na sua estrutura. os chorus de improviso não são tratados de maneira convencional como vinham sendo tratados no mundo do jazz há época.

Nascido em 20 de julho de 1928 na proeminente Los Angeles de então, Dolphy, empurrado pelo pai, reverendo, líder religioso de mão de ferro, foi para as aulas de clarinete aos 7 anos de idade. A partir de então, mergulhou no mundo da música para ser fulminado de vez por Charlie Parker e o bebop dos anos 40. Estava decidido, Dolphy seguiria esse tortuoso caminho da música e do showbizz. De mala e cuia descambou para Nova York atrás de algum trabalho e descolou de cara, um muito bom, na banda do espetacular sax alto Roy Porter em 1948. Ficou lá por três anos até o grande passo dado, quando entra para o Chico Hamilton Quintet. Aí vem um aparte...

Chico Hamilton é o mais pobre desgraçado, injustiçado da história do jazz em todas as épocas! Deve-se a ele toda a estrutura dada ao que seria a tal Avant Garde dos anos 60 e 70. Todo mundo bebeu ali feio. Chico, foi o primeiro cara que se ateve à necessidade de uma criação sonora mais livre dos padrões vigentes de então e se ligou que naquele instante, o lance era a busca incessante do som. Eric Dolphy aprendeu direitinho...

Tanto que saiu dali em 1959 para formar a genial fase do Mingus Quartet com Charles Mingus. Tava tudo lindo mas o momento de Dolphy era para outras cousas. Então, ele nem pensou duas vezes; Ao receber o convite  do selo Prestige para gravar um disco, deu uma bica no gênio instável e chumbado de heroína de Mingus e lançou o ótimo “Outward Bound” em 1960 despertando os louros da critica. Mas levaria 4 anos para sair sua obra prima...

Em 1964, o "homi" tava virado no satanás! Mas jazia um saco cheio de ser o “melhor acompanhador” de Coltrane, o “Preferido de Ornette Coleman”. O “mais elogiado pelo Gil Evans...” Tava na hora de ser “do mal” também... Já começou com ele gastando os tubos pra contratar a banda. Tirou uma pá de nego fodão de suas respectivas bandas e formou a Dolphy Express:

Freddie Hubbard, Bobby Hutcherson, Richard Davis, Tony willians... Só nego bobo... Tava formada a seleça... Esse time se internou nos estúdios em dezembro de 1963 e praticamente só saiu em 25 de fevereiro de 1964 com OUT TO LUNCH prontinho. Foi uma catarse...

A primeira audição era difícil na época do lançamento (1964) e é difícil até hoje. Mas apesar de ser um disco 'complicado', Out to Lunch mantém forte ali, todas as as células da tradição, do bop do universo jazzístico. - Afirma Luiz Galvão. Eu ainda insisti com o amigo, querendo saber do ótimo guitarrista, se uma obra tão impactante, seria possível nos dias de hoje. Diz Galvão:

São outros tempos. acho que hoje em dia é mais coerente dizer que acontecem movimentos que são impactantes. correntes de vanguarda principalmente de Chicago (berço dessas tendencias desde os anos 60) e da Europa.

Seja como for, OUT TO LUNCH é um êxtase total, percorrido em faixas como HAT AND THE BEARD. GAZZEOLINI e quetais. No jazz, os anos 60 e todas as décadas jamais seriam os mesmos a partir de então. Afinal falamos de um disco além décadas.

Vale a audição!

Eric Dolphy - Gazzeolini
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