Álbuns Clássicos - DAS BARRANCAS DO RIO GAVIÃO (Elomar)

Por Marcelo Mendez
Eu tenho uma amiga socióloga, americana de Nova York! Daí ela decidiu estudar música brasileira, literatura brasileira e suportar o amigo brasileiro aqui. Aí, Lauren Smith, um doce de amiga, veio para o Brasil, comprou um vinil e ficou completamente abestalhada com o que ouviu me perguntando... “Marcelo... se ele fosse americano ele pareceria quem??” – Ri muito.

O amigo em questão não tem a menor condição de ser americano e o porque disso, a coluna Álbuns Clássicos aqui no Pastilhas Coloridas tem a honra de tentar explicar. Senhoras e senhores, bêbados e caretas, mocinhas virgens e mundanas passa-rodo, com vocês... ELOMAR!

Elomar Figueira De Melo é baiano, nascido em 1937 na cidade de Vitória da Conquista. Foi para Salvador e por lá terminou de cursar seus estudos formando-se arquiteto em 1964. Usou essa profissão para manter-se minimamente no começo de sua carreira musical e esta, se deu de uma maneira totalmente sui generis. Primeiro pela formação musical. Aos sete anos de idade, teve contato com a música dos menestréis do nordeste e nas poucas entrevistas que deu sempre citava os “Três Zés”; Zé Krau, Zé Guelê e Zé Serrado. Adorava em particular, Zé Krau, pela forma épica, amarga, triste, lírica com que esse, narrava a dura realidade do sertanejo brasileiro. Já formado, na casa de um tio, ouvindo um programa da Rádio Nacional, percebeu uma música estranha a seus ouvidos, sem violão, viola ou rabeca. Uma música que acabava sem ao menos começar direito. Descobriu depois que aquilo era a protofonia de O GUARANI e desta forma descobriu as partituras. Ficou maravilhado com as milhares de formas e músicas compostas por autores que haviam morrido a cem, duzentos anos.

Rapidamente aprende a ler e escrever bem partituras e em 1969 lança sua primeira ópera; “AUTO DA CATINGUEIRA”. Chamava atenção por ser apenas parcialmente partiturada, já que foi composta com as primeiras informações que detinha e também, pelo forte apelo popular e os temas abordados, jamais vistos ou ouvidos em nenhuma outra obra de nenhum outro compositor. Elomar falava da seca, da fome, da falta de perspectiva do descaso que se tinha com o povo sertanejo do Brasil, de uma forma extremante simples e direta. É mais ou menos dessa época seu primeiro registro musical gravado; Um compacto com duas músicas. “O VIOLEIRO” e “CANÇÃO CATINGUEIRA”. Algo que ficou restrito apenas à região onde residia Elomar naquela época.

Iniciou a partir de então a sua carreira de peregrino Menestrel, de Viola na mão, de palco em palco pelo sertão do Brasil levando sua música aos desvalidos, aos poetas, aos músicos e aos intelectuais de linhagem pura, sem aquelas boiolagens academicistas que infestavam o eixão Rio-São Paulo. Seguiu assim até 1971, quando nesse ano da graça, chegou aos ouvidos do grande Vinicius de Moraes o tal compacto gravado em 1968/69. Eufórico, o poeta foi atrás do compositor daquilo que havia o levado as lágrimas e chegou na Fazenda de Elomar, enquanto esse, de carabina em punho dizia ao poeta que estava a caçar uma onça que insistia em atacar os seus garrotes de Bode. Vinicius achou melhor não se meter na peleja...

Apenas impressionou-se com a formação literária do compositor. Uma formação clássica e regionalista que incluía todos os poetas, escritores e profetas hebreus; leu os mélicos e os clássicos gregos; os latinos, incluindo Esopo e o Fedro; os italianos, franceses, ingleses, espanhóis, russos e, por último, os alemães, tendo, é claro, antes disto passado pelos essenciais patrícios. Vinicus descobriu então um homem extremamente culto e muito bem preparado. Pediu a Elomar que lhe mostrasse algumas de suas canções e o músico, dizendo-se honrado, pediu apenas licença ao poeta “A modo de pegar a viola véia”.

Quando voltou tocou um bocado de canções que levaram o grande poeta ao êxtase. Sugeriu a Elomar que mostrasse esse material para alguma gravadora e se prontificou a ajudá-lo com isso caso fosse de interesse. Mesmo ressabiado com a história de trabalhar com gravadoras do Rio De Janeiro, realidade que a ele parecia distante demais, confiou no novo amigo e autorizou Vinicius a cuidar do assunto. Dessa forma, sai em 1972 “DAS BARRANCAS DO RIO GAVIÃO”. Um disco lindo.

Músicas como O VIOLEIRO, INCELENÇA PRO AMOR RETIRANTE, ACALANTO E CANÇÃO DA CATINGUEIRA... Ta aí. Agora é só vocês ouvirem para saberem o que embasbacou a Lauren.

Segue um pedacinho da obra do homi...
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