Por Ana Mesquita |
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| Saguão do Cine Livraria Cultura |
Pra mim o “É tudo verdade” integra a tríade de melhores festivais de cinema de São Paulo, junto com o Cinema Latino Americano e o de Curtas Metragens, por dois motivos bem simples: primeiro porque todas as sessões são gratuitas, afinal tem muito dinheiro público financiando esses festivais, então nada mais justo do que as sessões serem todas gratuitas.
Segundo, a possibilidade de ver, na tela grande, filmes que não vão entrar em cartaz. A produção cinematográfica é composta, grosso modo, de três etapas: produção, distribuição e exibição. Aqui no Brasil sofremos com a falta de distribuidores brasileiros. Até pouco tempo atrás não tínhamos nenhuma distribuidora brasileira atuando em nosso território. Ou seja, a gringolandia é quem decide o que vai entrar em cartaz no cinema brasileiro, e o critério é sempre o lucro. Uma das poucas iniciativas públicas de empresa distribuidora no país – a Embrafilmes – foi dizimada pelo querido e amado Fernando Collor de Mello. Por isso a trincheira dos festivais como divulgadores de produtos e experiências cinematográficas (vai dizer que assistir filme baixado pela internet ou comprado na banquinha é igual à sala escura e tela grande?) tem importância vital para o fomento cultural do país.
É quase comovedor presenciar o interesse do público por documentários. A cada ano que passa aumenta o espaço de filmes desse gênero nas salas de cinema. Evidente que isso se deve à construção do olhar pelo próprio “É Tudo Verdade” ao longo desses 16 anos, e que esse crescimento ocorre no eixo Rio-São Paulo. Mesmo assim é uma pequena vitória para o gênero que iniciou essa arte, afinal o cinema começou com a captura de cenas do cotidiano, só depois virou ficção, e documentário de novo, como linguagem e gênero cinematográfico (mas essa história dá outro post).
O bacana de assistir a um documentário está no fato de imergir durante uma hora, às vezes duas horas, em um universo totalmente alheio a sua realidade. Apesar do mundo não ter mais mistérios pra gente - a internet e mesmo antes, a televisão, trazerem para dentro de nossas casas as imagens e fatos sobre todos os cantos do globo - a curiosidade humana não tem limites. Por isso passamos 2 horas assistindo, por exemplo, a Posição entre as Estrelas, filme que narra a saga de uma família que mora numa favela em Jacarta, capital da Indonésia e a sua luta para fazer com que a única garota adolescente – a terceira geração da família – faça faculdade, pois só assim a história de fracasso e condicionamento à pobreza da família irá mudar. Por mais imagens e informações que nos chegam da Indonésia, nenhuma delas foca o cotidiano e sofrimentos dessas pessoas reais.
Quer saber como está o Laos, Camboja e Vietnã (antiga Indochina) hoje? Tem um filme sobre. Quer descer o Rio Mississipi e ver como que estão as coisas por lá pós Katrina? Tem também. Quer saber o que foram os Colégios Vocacionais aqui em SP nos anos 60 (e que foram fechados e sua idealizadora presa pela ditadura militar) opa!
A produção do gênero no Brasil tem crescido, assim, aos poucos alguns episódios da dessa mal contada história brasileira vai aparecendo. Como vem contar o filme Vale dos Esquecidos de Maria Raduan, que conta um – entre tantos que já aconteceram e acontece – episódio da luta pela terra no Mato Grosso nos anos 70 na fazenda Suia-Missu, o maior latifúndio brasileiro.
“Poesia é Verdade” é o nome dado a retrospectiva de 15 documentários brasileiros dedicados a vida e obra de poetas brasileiros. Dentre os filmes destaque para o curta Castro Alves, do gênio Humberto Mauro. Já a retrospectiva internacional trará a obra da russa Marina Goldovskaya. Seus filmes trazem um retrato agudo e preciso da queda do regime socialista na antiga União Soviética e o surgimento da Rússia moderna. Destaque para seu mais novo documentário O gosto amargo da liberdade, que retrata a vida de Ana Politkovskaya jornalista que investigava casos de corrupção no governo russo e que foi assassinada em 2006.
A primeira vez que fui ao festival foi há exatos 10 anos. Lembro de ir assistir à sessão de Gimme Shelter, filme sobre o fatídico show gratuito dos Rolling Stones nos Estados Unidos, em que um jovem negro foi assassinado por um dos Hell’s Angels, contratados para fazer a segurança do show (?!). A sessão era no Cinesesc e a fila dobrava o quarteirão e não ia caber todo mundo lá dentro. Lembro de alguém passando do meu lado e falando “libera o pessoal porque pode ser perigoso”. Só tinha figuras de calças rasgadas e jaqueta de couro na fila! As pessoas sentaram pelos corredores da sala, e na época podia fumar no bar do cinema. Cinesesc era vida para os cinéfilos fumantes!
Ah, se conseguir vá assistir a pelo menos uma sessão de curtas. Geralmente entre os curtas você acha algo realmente novo em termos de linguagem cinematográfica. O próprio formato permite essa liberdade estética e o amante de cinema pode ter boas surpresas. Dois que estou curiosa pra ver integram a Sessão BR 2. O primeiro Coutinho Repórter fala sobre os anos que Eduardo Coutinho (um dos melhores documentaristas brasileiros) passou no Globo Repórter, nos anos 80. O outro o filme que fiz para não esquecer é uma viagem individual do realizador para tentar entender uma relação amorosa mal sucedida e seus próprios sentimentos em relação à vida e o amor.
Chega a ser engraçado um Festival com o nome “É tudo verdade” começar as sessões públicas bem no dia 1º de abril. Pois no Cine Olido começou dia 1º a mostra “É Tudo Mentira” que conta em sua programação com filmes de temáticas como trapaça e enganação. Destaque para O Discreto Charme de Burguesia do espanhol surreal Luis Buñuel. Nada como rever na tela grande a impagável cena da mesa de jantar com privadas no lugar das cadeiras. Os ingressos custam 1 real (aceita carteira de estudante!)
Confira as programações:
Ana Mesquita é colaboradora do Pastilhas Coloridas e jornalista freelancer amante de cinema. Twitter: @anamesquitafoto
