Álbuns Clássicos - O CANTOR DAS MULTIDÕES (Orlando Silva)


Como sempre, um presentinho em cada capa...

Por Marcelo Mendez

A coisa toda começa de maneira intrigante em 1992. Era um ano peculiar na minha vida e não apenas porque eu tava vivendo na desgraceira, mas enfim... Naquela manhã de domingo eu tava lá fritando no meu quarto em meio a uma ressaca monstruosa ao som de um discaço do ótimo Chicken Shack quando fui interrompido por altos falantes cavalares vindos da rua. Como sempre, era o Anísio-Braço-Só, vendedor de cândida que há 20 anos abastecia o Parque Novo Oratório. O homem que perdera o braço levando uma machadada no mesmo em sua mocidade quando comeu a "muié" de quem não devia, sempre passava pelo bairro oferecendo seus produtos de limpeza com um som antigo rolando no fundo. Aquele dia fiquei puto. Meti a bermuda e saí no quintal...

- Caralho Anísio... Hoje ta foda... 

Nisso veio meu Pai:

- Mas já ta brigando com o homem...

- Porra pai... Preciso dormir um pouco...

- Sei... Mas isso que ele ta tocando te desagrada?

Prestei atenção. Ouvi uma voz incrivelmente linda, grave, barítona, forte, cantando um samba... “Aos Pés Da Santa Cruz”. Letra inteligente, bem sacada. Não consegui falar que era ruim porque não sou burro:

- Mas caralho "véio"... nesse volume nem o Iggy Pop é bom!

Meu velho riu, virou para mim e me disse:

- Perto desse homem que ta cantando, o Iggy Pop é coroinha... Monge Beneditino virgem!  
Deu as costas e saiu andando, rindo:

- Quem é esse cara? – Perguntei:

- Orlando Silva. Vá à biblioteca. Tem alguma coisa dele pra ler...

- Ta depois eu vejo...

E vi!

Para falar desse nosso primeiro grande outsider convido a todos, senhoras e senhores, moças sérias e outras do sereno, cabras de bem e outros da orgia, comedores de picanha e apreciadores de brócolis, NOBRES PALMEIRENSES como eu ou a sobra mesmo... Com vocês, ORLANDO SILVA.

Pois bem... Fiquei intrigado com o que meu pai disse e fui lá saber do cara. A voz, o talento eu já tinha manjado, mas a vida que teve o sujeito, cara...

Começa a coisa quando no ano da graça de 1915 no distante Engenho De Dentro, Rio De Janeiro nasce o mancebinho no dia 03 de outubro daquele ano. Em 1933 chega a Radio Nacional e começa a batalhar por uma chance que chega e em 1935, estréia no ar, ao vivo e ali, começa o período de ouro em sua carreira. Entre esse 1935 e 1942, Orlando Silva sem a menor dúvida foi o maior cantor do mundo. Foram sete anos de uma popularidade absurda, muita, mas muita grana, carros, mulheres, tudo de um legítimo pop star. E o que poderia parar essa carreira brilhante? Bem...

Em 1932, Orlando sofreu um acidente de bonde que o fez passar meses no Souza Aguiar. Naquele período sentiu dores terríveis que eram abreviadas com o uso de uma substancia que ele veio a se lembrar em 1942, quando uma inflamação nas gengivas e um tratamento dentário desastroso vieram acometer-lhe. A desgraçada era a tal da morfina...

Além de todo o mal que a porra fazia, com as doses cavalares consumidas pelo convidado, isso também veio a afetar-lhe os nervos periféricos, entre eles, suas cordas vocais. Para acabar de fuder com tudo, o problema com as gengivas o faz perder a arcada dentária superior, ou seja; A sua voz começa ali a ir pro caralho. Deprimido, revoltado, puto, mergulhado no álcool, na putaria e nas drogas, cada vez menos Orlando se preocupa com sua carreira. Passa a se drogar cada vez mais, ser cada vez menos freqüente em seus shows, a voz some a cada dia e seu desespero aumenta. As doses de bebida e a grana começam a rarear...

Entre 1948 e 1964 grava apenas um LP. Cai na cachaçada, vai à vala. Perde o resto dos dentes, a voz, o orgulho próprio. Ninguém dava nada pelo "homi". Mas aí quem não é da várzea não se acomoda nela... Num esforço sobre humano conseguiu dar um tempo com as drogas. Passa a ter ajuda de amigos como Nelson Gonçalves e em junho de 1973, consegue marcar com Fernando Faro, uma gravação para o programa Ensaio da TV Cultura de São Paulo. É comovente o esforço que ele faz, não para voltar a cantar, o que seria já uma glória, mas sim, para voltar a cantar com excelência, com a categoria de um dos grandes cantores do mundo e com certeza, o maior da musica popular brasileira.

Orlando Silva tinha tudo para fazer da sua vida um drama mexicano. Mas nunca reclamou, não botou culpa de nada nele, nem em ninguém, viveu sua vida da maneira que pode porque talvez já sentia dentro dele que seu lugar, seu posto na história da musica brasileira estava garantido. Muitos anos depois, chovem as homenagens em seu nome. Todo mundo reconhece a enorme riqueza de sua obra e sua importância. Anísio-Braço-Só segue vendendo sua cândida e pelo menos quando rola o Orlandão, ele não me incomoda mais...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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