Ettore Scola, Palmeiras, Cruzeiro e a valsa dos tristes no Pacaembu...

O diretor Ettore Scola em ação.
Por Marcelo Mendez

Em mais uma rodada do Campeonato Brasileiro, tivemos novamente a comprovação daquilo que venho falando sistematicamente. Na miséria ludopédica do nosso futebol, comandado por palestrantes de auto-ajuda e tecnocratas pífios, nossos times se igualaram no que há de pior e na ponta de cima da tabela, todo mundo perdeu:

O Vasco tomou um 4x1 do America Mineiro, o Corinthians do Tite perdeu para o Coritiba por 1x0 e o Flamengo conseguiu a proeza de perder em casa para o Bahia por 3x1. Com tudo isso o São Paulo que venceu o Figueirense por 2x1 teve muito dessa rodada a seu favor, mas meus caros leitores... A crônica, que por vezes precisa ter torcida e vida própria, vai perambular por outro estádio, no caso o Pacaembu, para contar a história do clássico mais italiano do Brasil; Palmeiras x Cruzeiro.

E para tal, vamos trazer aqui um grande italiano que muito me apetece, só per avere tutti i nostri soggetti, ou seja, "pra ficar tudo assunto nosso..."

Ettore Scola, grande mestre do cinema da bota, dono de coisas lindas na arte da telona, tais como Splendor, O Terraço e Feios, Sujos e Malvados entre tantos outros, vinha lá com um sonho recorrente em 1981, queria muito falar dos encantos e nuancias da dança, e para isso foi a França e viu uma adaptação maravilhosa de Le Bal, montada pelo Théatre du Campagnol. De lá saiu convicto e então em 1983 estreia nas telas do mundo o sensacional O Baile. Que coisa linda....

Filmado todo em apenas um cenário, sem nenhum dialogo, num plano só, longo, denso, camera estourando na cara dos atores, escancarando fisionomias plenas, expressões carregadas de dramaticidade, de dura verdade, o filme deixa o espectador a vontade para ver todos os tipos de personagens, tais como o rapaz tímido, arqueado no meio do salão, se roendo de vontade de bailar mas afogado em sua omissão e medo... Passa pelo caboclo abusado, cheio de marra que corre de parceira em parceira tudo para fugir dele mesmo e mais outros tantos como o convencido, o intriguista, o bajulador, os bandidos, isso tudo sem falar das maravilhosas personagens femininas, das alusões feitas ao março de 1968 e todo o cenário que o filme conta; Através de uma cena em um baile, toda a sociedade é ali representada. Oras...

Sendo assim, esse cronista ludopédico que vos escreve vai tentar tal e qual o grande Ettore, fazer desse pobre 1x1 entre Palmeiras x Cruzeiro, um baile. Que os senhores então me concedam a contradança...

Amigo leitor os preparativos para o baile, no caso do Palmeiras não eram lá dos mais auspiciosos...

Tivemos ao longo da semana mais um novo problema entre o dono da companhia e seu diretor principal. O ótimo técnico Luiz Felipe Scolari que faz um trabalho hercúleo para conseguir resultados no péssimo time do Palmeiras (Que é péssimo também por responsabilidade dele e de suas contratações...) se encheu com os últimos acontecimentos e reclamou mais uma vez de diretoria, presidente, da organização do time, do jardineiro, do roupeiro e das velhinhas fuxiquentas do Bom Retiro... Aí depois disso tudo quer que o time “Se concentre e faça a sua parte em campo...”

E para enfrentar o Cruzeiro mandou a campo então um meio campo formado pelo tímido bailarino Marcio Araujo, pelo galante Marcos Assunção, e pelos omissos Tinga e João Vitor. E se passasse mais um volante perto ali de Higienópolis, Felipão meteria no meio campo! Dessa forma, o baile não tinha como ir bem.

Não vou mais dizer que daí não sai um passe certo, que a bola não passa pelo meio campo, que é chutão toda hora, que desse jeito não da pra jogar futebol e blá-blá-blá... Vou poupá-los da critica da coisa para dizer que o primeiro tempo foi ridículo e que o segundo que não prometia lá essas coisas, também não foi muito diferente.

Com o Cruzeiro tentando jogar, mas sem saber como, o virginal placar de 0x0 parecia que se arrastaria de maneira modorrenta até o fim. E quando nosso baile parecia fadado ao tédio, eis que o bufão Luan, tal e qual um malandro rompedor de gafieira, conseguiu finalizar uma bola pras redes marcando 1x0 para o Verde de Parque Antártica. Um alento para o baile? Não... Falsa impressão.

Era à hora de todo mundo tirar suas damas, dançar e se divertir, mas, o diretor da companhia Palmeiras de Danças, o senhor Felipão, foi à beira do campo e tal e qual o pai da menina mais bonita do salão, berrou a plenos pulmões para que seus bailarinos não fossem mais ao baile. Pediu a todos que se retirassem do ataque, para tentar guardar sabe lá o diabo o que... Três pontos na tabela de maneira covarde eram tudo que ele queria. Mas que bom que tanto no Baile, quanto no futebol, os covardes são sempre punidos.

Numa bolinha espirrada da linha de fundo, o ótimo Montillo empatou o jogo para o Cruzeiro. Desespero! O bravo Felipão então muda bruscamente de ideia; Coloca para bailar o mais fino tango, os mais duros de cintura do escrete verde; Fernandão, Patrick... A coisa que parecia não ir bem teve então o canto dos cisnes, uma pênalti para o Palmeiras bater aos 44 do segundo tempo. O escolhido foi o mais belo dos bailarinos; Marcos Assunção. Então ele pegou a bola, com um carinho enorme, o mesmo que se tem ao entrelaçar o braço na cintura da dama. Parou, olhou, respirou e bateu:

Defesa do goleiro!

Pênalti perdido, resultado de 1x1 final, mais dois pontos que se vão e o Palmeiras segue seu calvário. Continuará com suas brigas de vizinhas mureiras, com sua diretoria incompetente com seu técnico descontente e nem mesmo Ettore Scola conseguirá mudar esse panorama. O Palmeiras vai mal. Se apequena a cada rodada, a cada bate-boca público, a cada dia que passa o Palmeiras caminha para deixar de ser um gigante ludopédico e virar de vez, um reles clube de bacanas da Pompéia. E nem se animem:

Quando isso acontecer por lá, Astor Piazolla embalará tudo com seu Libertango fatal... 

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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