Por Marcelo Mendez
Eu já falei aqui que vários motivos tornam um álbum clássico. Uma lembrança, um dia, um fato, uma situação, um amor, uma desilusão, tudo sempre ligado ao que de mais sentimental, mais emocionante. Nessa coluna, pouco importa “quantas notas o caboclo tocou”, os “tons”, “semitons” essas babaquices aí que nêgo inventa pra tomar dinheiro de otário... Claro que a qualidade é fundamental, óbvio. Mas aqui, para essa coluna, o que importa é a emoção e não as edificações das rodinhas de cerveja do boteco-transado-da-sua-rua-das-figueiras.
Portanto hoje, Álbuns Clássicos falará dessa coisa, dessa emoção toda, trazendo para cá um grande homem e uma grande obra sua, um cara que por sua trajetória de vida, é merecedor de todo e qualquer destaque que se queira na área musical pop, ou não-pop, que se dane. Até porque, diante da vida, tudo isso é nada...
Que vida teve o homem!
John Ray Cash nasceu em Kingsland, no fim do mundo de Nashville em 26 de fevereiro de 1926 e tinha tudo... absolutamente tudo para dar errado!
Filho de um pobre e fudido fazendeiro, um louco, bêbado e violento, Cash cresceu se arrebentando de trampar em um campo de algodão, isso com cinco anos de idade. Ali começa a cantar enquanto a lida do serviço lhe estourava as costas. Com algumas moedas que juntou escondido do pai cachaceiro, compra seu primeiro violão, descola um radio com o Padre da igreja de sua cidade e então começa a dar seus primeiros passos no mundo da composição.
Aos 17 anos, cansado de se lascar, entra para a Força Aérea Americana, serve na 2ª guerra, compõe um mooooonteee inspirado na musica gospel e volta para casa em 1946. Em 1959 casa-se com Vivan Liberato, arranja quatro filhas, um bocado de problemas e quando tudo parecia perdido, finalmente o grande produtor do estúdio Sun Records, Cowboy Jack Clement da-lhe uma chance e o indica para Sam Phillips que ao ouvir suas composições gospels recomenda a Cash:
“Filho, eu to cansado dessa baboseira que vocês fazem e colocam na conta de Deus. Volta pra casa e peca...”
E Cash pecou lindamente, como ninguém jamais o fez!!
Emplacou sucessos como Cry, Cry, Cry, I Got Stripes, Busted... centenas!! Cash passou os anos entre 1953 e 1961 no topo da musica country americana, como seu frenético estilo que ia do bluegrass, ao rock, ao folk e ao diabo! Era um pop star capiria, como manda a boa tradição yankee. E como tal, passou pelo turbilhão de infernos pra lá de conhecidos...
No auge de sua carreira em 1961 Cash começa a flertar com anfetaminas e barbitúricos. Passa a beber horrores e tudo começa a desabar. Em 1965, na cidade de El Paso os canas de lá o pegam em flagrante com toda a anfeta do mundo. Se livra quando os caras descobrem que ele não tinha heroína, paga um trocado e espera pra se lascar novamente em 1966 no Mississipi, quando trava de anfetaminas e invade uma propriedade privada pra roubar umas flores... Canaaa de novo!
Pra acabar de lascar, sua mulher cai fora com as filhas, June Carter não o aceita e segue sua sina. Cash decide mudar; Toma juízo, se limpa com ajuda da família de June, se converte ao cristianismo e quando retoma sua carreira, vem o nosso at Folson Prison...
Em um tempo em que Cash fica em casa maior parte do dia, se limpando das drogas, ele se liga que bem... por motivos óbvios, milhares de seus fãs eram homens presos. Lendo suas cartas tem um inside:
Gravar um disco ao vivo, la na “casa” de seus apreciadores. Para isso, Cash convence seus novos patrões da Columbia Records, chama os músicos do Tenesse Three, Carl Perkins, June Carter, mete sua roupa preta e no dia 16 de maio de 1968, entra na prisão de Folson para gravar a bolacha.
A coisa toda foi feita num sentada só, tipo; “Liga tudo e grava”. Sem muita frescura, Cash arrebenta com tudo em clássicos como Folson Prison Blues, Busted, 25 minutes to Go e tudo com um ritmo alucinante, trincando de bom, uma baita pegada rocker sem abandonar sua essência caipira. A coisa foi um sucesso...
O disco fica pronto e é lançado quatro meses depois, chegando ao 15º lugar da Billboard, um lugar jamais imaginado para um artista Country em 1968. Vende um absurdo, resgata a carreira de Cash, o traz de volta a vida e claro, entra pra historia da musica dos EUA, em um 1968 onde tudo acontecia no mundo. Mas em um mundo bem distante da prisão de Folson.
Sendo assim, para os senhores se certificarem do que vos digo, deixaremos aqui esse sacolejante álbum pra ouvirem on line.
Só dar o play ae embaixo...
Johnny - Cocaine Blues (At Folsom Prison)
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.




