Por Marcelo Mendez
Eis que chegamos naquela época de popularização do bingo em família, do Eparema, do peru comprado no cartão, da sidra Cereser e do pudim depois do rango: O Natal. E antes da gente aqui do Pastilhas sair pra esticar as pernas por aí, ÁLBUNS CLÁSSICOS de despedida de 2011 trará hoje um disco que não foi lançado e que nem por isso, deixa de ser um dos momentos mais importantes da história do Brasil, de um baita musico e de uma família de Brasileiros ilustres.
Eis que chegamos naquela época de popularização do bingo em família, do Eparema, do peru comprado no cartão, da sidra Cereser e do pudim depois do rango: O Natal. E antes da gente aqui do Pastilhas sair pra esticar as pernas por aí, ÁLBUNS CLÁSSICOS de despedida de 2011 trará hoje um disco que não foi lançado e que nem por isso, deixa de ser um dos momentos mais importantes da história do Brasil, de um baita musico e de uma família de Brasileiros ilustres.
Tudo isso se encontrou na noite de 26 de Maio de 1973, quando Gilberto Gil, recém-chegado do exílio em Londres, aceitou o convite de fazer um show para alunos da USP e assim, nasce à parada cuja história, tenho grande honra de vir aqui contar.
Senhoras e senhores, com vocês, GILBERTO GIL AO VIVO NA POLITÉCNICA, 1973.
Em Março desse mesmo ano, Alexandre Vannuci, estudante de geologia da USP é brutalmente torturado e morto nos porões da repressão. Não dava mais pra suportar... Em protesto, 5 mil pessoas vão a uma missa na Catedral da Sé e esse é o primeiro ato contra os abusos dos assassinos da ditadura Militar.
Depois dele, entra aqui a história de uma grande família de Brasileiros... Quando comecei a querer brincar de ser jornalista me caiu nas mãos o livro A REGRA DO JOGO e o seu autor era Claudio Abramo. Isso foi em 1989, eu tinha 19 anos, e na época larguei de mão os meus Gay Talese, Hunter Thompson, Norman Mailler, Mino Carta, Francis. Eu já sabia como eu queria conduzir essa coisa toda. Uma moça dessa família participou diretamente do disco aqui comentando. Laís Abramo... A primeira vez que vi a Laís de perto fiquei apaixonadíssimo! Aquela mulher, socióloga renomada, inteligente, altamente articulada, dono de olhos azuis maravilhosos, capazes de fazer árabes e judeus pararem de brigar, ali, falando sobre o Mito do Custo do Trabalho de Homens e Mulheres. Depois voltei a revê-la falando de Trabalho Decente e da OIT, (Organização Internacional do Trabalho) dirigida por ela cá no Brasil e então me contive de meus ímpetos latinos enfim...
Laís era estudante de ciências sociais na USP em 73. Ela conhecia Gil e foi a sua procura com um grupo de estudantes para convencer o musico a fazer um show em protesto contra o assassinato de Vannuchi. Sensibilizado com a causa, Gil aceita o convite e então a data marcada para o evento é dia 26 de Maio de 1973, tarde/noite, na Politécnica da USP. Então novamente recorro à família Abramo e pentelho minha amiga Bia Abramo, de quem sou muito fã também, para saber mais daquele sábado que entraria para história: “Eu tinha 9 anos e fui la conduzida pela irmã Laís. Nossos pais também foram, havia uma preocupação, um medo de que a qualquer momento a Poli fosse invadida e todo mundo fosse preso. Mas em detrimento a tudo isso, foi tudo lindo, tudo divino...”
Pois bem, Gil, bom baiano que é, sabia do peso político de um ato como aquele, naquele momento. Preparou-se pra isso tentando fazer um set list com sambas amenos como Doutor Delegado, Chiclete com Banana, Ladeira da Preguiça, aliados com umas outras canções de seu disco recente há época “Expresso 2222”, mas caro leitor, o momento não dava a ninguém o luxo de ser “relax”. Ávidos por protesto, com uma ânsia enorme de falar, de gritar, de por pra fora o sufoco do momento, a plateia cobra Gil por musicas engajadas. Inicia-se a partir dai uma conversa entre Gil se os estudantes, acerca da própria obra do cantor. Em dado momento, Gil revê sua clássica musica Procissão...
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“Ela é incorreta. É um erro meu, uma falha provocada pelo entusiasmo, pela pressa, pela ansiedade de servir, de denunciar... O certo seria dizer que a igreja como ela é hoje, uma instituição bem organizada como a General Motors, que essa instituição traiu Jesus e o que ele disse ta tudo certo, tudo aproveitável. Agora, o que se diz que ele disse é outra história”.
Segue revendo sua obra, ainda falando de musicas de suas musicas de protesto: “Elas estavam ligadas a uma necessidade de luta política, de denuncias sociais... Não rejeito nada disso, eu estive naquela condição, meu discernimento esteve naquele estagio, mas hoje consigo discernir além, a realidade hoje é outra. Nesse sentido, elas são maniqueístas. São idealistas, não falam mais objetivamente...”. O show segue por momentos lindíssimos como da execução de Domingo do Parque, quando Gil reitera; “Domingo do Parque é uma canção linda e quando digo isso não vai nenhuma vaidade. Se não fosse minha admiraria mais ainda. Mas é preciso distinguir. Uma é ela enquanto caráter generoso da criação poética, outra é a utilidade da canção, de informação, e isso pode deixa-la ineficaz com o tempo. Mas fica eterna como manifestação do Ser Poético”. E então o grande momento vem...
Dias atrás, durante um evento da gravadora Philips o famoso Phono 73, Gil é escalado para se apresentar com Chico Buarque. Para a ocasião, compõe a musica “Cálice”, um petardo fortíssimo contra todo o sufoco e desespero do momento que se vivia há época: “Como beber dessa bebida amarga / Tragar a dor e engolir a labuta? / Mesmo calada a boca resta o peito / Silêncio na cidade não se escuta / De que me vale ser filho da santa? / Melhor seria ser filho da outra / Outra realidade menos morta / Tanta mentira, tanta força bruta”. Na ocasião da apresentação, a repressão impede a execução da canção, mas a dupla insiste em canta-la. Os microfones tem então o som cortado, e o publico não ouve a musica. Em protesto, Chico sai do palco. Gil canta uma canção em companhia de Jorge Ben e se retira. Devido a isso, neste show da USP a plateia então clama, implora, para que Gil a cante. Gil ainda tenta evitar o enfrentamento que causaria a apresentação da canção e tenta desconversar: “Eu canto um pedacinho que me lembro, só... É que tem uma parte da letra que é de Chico que eu nem cheguei aprender” Nesse momento, um estudante produz rapidamente um papel com os versos e oferece a Gil: “Ta me dê... vou cantar...” É de arrepiar o pelo! Emocionante e lindo! Papeizinhos com a letra correndo de mão em mão, para gerar um coro, um coro que uma nação toda queria fazer, uma musica que um país todo ansiava por tocar.
Cálice é um momento divino daquele show, daquela noite, de toda a história da musica brasileira. O tempo passou. Falando da importância do que aconteceu naquele sábado na USP, Ary Perez, artista plástico declarou a Rolling Stone: “A partir do show, ressurge o movimento estudantil. Já que não podíamos mudar na política, iríamos tentar mudar através da cultura." Ary, foi um dos responsáveis pela tentativa de lançar esse show em disco. Ao lado de Caio Túlio Costa em 2002, encontra a gravação daquele dia, feita em um velho gravador de rolo, chama Paulo Tatit do grupo Rumo para remasterizá-la e surge então o arquivo que pode ser encontrado na internet facilmente.
Caio Túlio, escritor do livro “Cale-se”, que conta tudo sobre esse show, fala da necessidade de isso ter um lançamento digno em disco para a mesma Rolling Stone: "Deixou lembranças muito fortes nos que vivenciaram esse período difícil". Merecia um lançamento à altura de sua relevância. E agora chega de falação minha. Abaixo, vamos deixar esse momento lindo da musica Cálice, e o link pra vocês ouvirem a obra toda. Recomendo aos senhores que não deixem de conhecer. Tasca o play aí!!
Cálice - Ao vivo na Escola Politécnica da USP - 1973
Cálice - Ao vivo na Escola Politécnica da USP - 1973
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.


