Em 1992 eu conheci a minha amiga Renata...
Renatinha estudava Moda, na Anhembi/Morumbi, frequentava um bar perto
da PUC, onde invariavelmente eu vivia chumbado de cachaça e de outras
substancias pouco cristãs, arrotando rock and roll e Paul Verlaine.
Era um tempo de guitarradas e outras “apocalices”... Um tempo que é
bom de ser vivido, afinal de contas, com 22 anos de idade que eu tinha
há época, exercia plenamente o meu direito adquirido de me achar na
eminência de ser o dono da verdade, o dono do mundo!
Na verdade eu era um idiota...
Mas uma das coisas boas da época, era ter a Renatinha por perto.
Menina doce, meiga, coração bom, linda, inteligente e com uma
paciência de monge comigo, certo dia baixou no bar e sapecou:
“Marcelo, você gosta da Roxy Music?”
“Ah sei la Renatinha... É aquela eguagem la do Bryan Ferry né?!”
Ela sorriu e insistiu:
“Na verdade é uma puta banda de rock e me estranha você nem querer
saber. Ó, vamos passar em casa, te empresto o disco, depois te dou uma
carona pro ABC, topa?”
Confesso que no dia, topei muito mais em função da carona do que pelo
disco propriamente dito. Mas chegando ali pelos lados das Perdizes, ao
som de “Virginia Plain”, vivi uma das melhores tardes da minha vida e
agradeci aos céus e aos infernos e a todo mundo, por existir a Roxy
Music!! Então hoje, a coluna Álbuns Clássicos vem para contar a
história de “ROXY”, de 1972. O primeiro disco da lendária banda Roxy
Music, que tanta sorte me deu...
É uma banda diferente a nossa convidada de hoje; Formada por Bryan
Ferri, então estudante de arte em Cambridge em Londres no efervescente
ano da graça de 1969, a Roxy Music era um projeto que envolvia Arte,
espetáculo, teatro burlesco e cinema. A opção de Bryan pelo rock and
roll, deveu-se ao fato de ser este a melhor forma de comunicação entre
o projeto e o publico alvo da parada toda, os jovens. Aí faltava
fechar o time...
Caindo em campo, como as volantes nordestinas que caçavam Lampião,
Ferry então descola o cara fundamental para a porra toda. Num pub
fétido perto do Estádio do Fulhan em Londres, o refinado Bryan,
encontra o apocalíptico e fantástico guitarrista Phil Manzanera. O
culto homem se esforçou em definir os seus conceitos ao rocker, mas
Manzanera mandou tudo pro caralho, disse que não precisava explicar
nada e que ele entraria na coisa pra tocar rock and roll. Bryan disse
anos depois, que achou por bem não falar mais nada mesmo...
Através de outros contatos, conheceu Brian Eno, o mago
experimentalista, Grahan Simpson e Paul Thomason. Fecha então a coisa
com a participação luxuosa do sax jazzístico Andy Mackay e a banda cai
pela noite londrina. Eram shows disputadíssimos, lotados, frequentados
pela fina flor da classe artista inglesa, todos interessadíssimos no
espetáculo que contava com dançarinos, artistas performáticos, uma pá
de rapariga gostosa, muito glitter, muito ácido e rock and roll de
montão.
A Roxy arrebentava e o primeiro disco finalmente sai em 1972. Catarse
a vista, linda, linda, linda!!
A coisa começa tomar forma quando Eno consegue convencer Peter
Sinfield a produzir a bolacha. Sienfield, um poeta, letrista, grande
produtor cultural, já havia trabalhado em discos antológicos do King
Crimson, coisas divinas como In The Court of the Crimson King, Lizard,
Islands... discos clássicos do King Crimson. Era um cara ligado à
vanguarda musical da época, às artes plásticas e a toda cena
efervescente londrina de então. Ficou tentando a trabalhar com a Roxy,
porque conhecia o experimentalismo musical de Brian Eno, de como ele
flertava com isso e de suas ideias em leva-lo ao Rock And Roll. Topou.
Em dezembro de 1971 a Roxy entra nos Estúdios Islands e as sessões
começam com a gravação dos rocks mais roots, das coisas de Phil
Manzanera... Musicas ótimas como "Re-Make/Re-Model", "Virginia
Plain", "Sea Breezes"... Depois, as paradas mais eletrônicas como
"Ladytron", "2 H.B." entre outras paradas... O disco fica muito bom.
Em fevereiro de 1972 ele chega as lojas e as rádios londrinas. Como já
era esperado, a bolacha é muito bem recebido pela critica
especializada, pelos artistas, formadores de opinião e tudo mais. No
entanto, o sucesso de público, chega apenas um ano depois, quando a
Roxy é levada aos EUA por David Bowie que pensava em um lance
diferente para o Rock And Roll, calcado em androgenia e glamour, que
viera a se chamar de “Glam Rock”, mas aí é outra história que depois
contaremos aqui. Por hora, curtam esse baita disco, com a maravilha de
musica "Virginia Plain" aí no player.
Clicando aí nas capas tem nossa preza e bora saculejar!!!
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.



