Por Elsa Villon
E cá estou novamente para rechear a editoria de viagens do Pastilhas Coloridas. Não que tenha chegado a ser uma grande viagem, mas cruzar um Estado é sempre uma aventura.
A força motriz dessa vez foi um velho pitel: Chico Buarque. Com ingressos que acabaram mais rapidamente que os do Latino em Peruíbe, me aventurei em areias flamenguistas para gozar do talento do meu amado Chico.
Mas um aviso: se você é um daqueles que acha Chico Buarque um saco e que toda mulher é no fundo, uma pervertida por fantasiar com ele, pare de ler por aqui. Os relatos a seguir serão insuportáveis aos seus sensíveis olhos. Fim do aviso.
Não, não sou uma pedante. Eu realmente não tinha pretensões de ir ao show do Chico Buarque. Sem emprego e sem dinheiro, me contentaria com alguma reprodução chinfrim via Youtube, como a boa pobre soberba que sou. Mas a sorte me sorriu e eu vi que ela não tinha os dentes da frente.
Uma amiga que há 13 anos me acompanha tinha um par de ingressos para contemplar o velho pitel. Mas eram para o Rio de Janeiro. Eu, como toda boa estudante de jornalismo, estava sem um tostão furado. Ela, como toda garota libriana que pensa e planeja, guardou dinheiro para a aventura. Os planos envolviam outra pessoa, mas isso não faz diferença. O importante é que, após 13 anos de amizade, nós decidimos viajar juntas pela primeira vez. E era para o Rio de Janeiro.
Confesso que não sou uma grande entusiasta da “Cidade Maravilhosa”. Acho que há uma supervalorização, que há lugares mais bonitos no Brasil e que o cartel da Rede Globo tem capangas em cada esquina, viela e bueiro daquela cidade – motivo pelo qual, me sinto pouco à vontade lá. Sem contar o calor insuportável. Foi minha terceira visita e minhas impressões não mudaram. Todavia, minha motivação era maior que tudo: ver o Chico Buarque.
Após falidas tentativas pelos sites de carona gratuitas (sempre com receio de acabar no carro de algum assassino, estuprador, traficante ou fã de Los Hermanos), eu e minha prezada amiga decidimos ir de ônibus mesmo e fosse o que Jah nos reservava. E assim partimos, às 12h15 de sábado da Rodoviária do Tietê.
Seis horas, uma parada e muita conversa depois, lá chegamos. Com um pouco de receio, muito calor e sem saber para qual direção seguir. Já saindo da rodoviária, eu vi o Cristo. Creio que deve ser mais bonito de perto, mas feio ele não é. Procurava agora a resposta de como chegar ao local de tão estimado show. Sabia que era próximo ao MAM e à Praia do Flamengo. E só.
No ápice de minha ingenuidade, fui perguntar para uma fiscal que parecia saber a resposta e que estava debaixo de uma placa de ônibus que indicava “Praia do Flamengo”. Ao questionar sobre o MAM, ela respondeu que nunca tinha ouvido falar na vida e continuou sua crise conjugal ao telefone.
O desânimo parecia se instalar em nossas feições, mas não desanimamos. Perguntamos para um outro fiscal, muito solícito na verdade , informou que no terminal ao lado, poderíamos pegar um ônibus com o destino almejado. E disse também para tomarmos cuidados com celulares e outras coisas de valor. Eu, que fui roubada há duas semanas, me senti altamente confortável e segura, só que ao contrário. Mas já diria a máxima popular: “Está no inferno, abraça o capeta”. E fomos nós, rumo ao inferno, ao capeta, de braços abertos.
Eu não sei se criei expectativas demais quanto à cidade, mas a rodoviária foi decepcionante. Nem mesmo em cidades do interior paulista as rodoviárias são tão precárias, escuras e “mal-assombradas”. Mesmo assim, embarcamos rumo Vivo Rio. Detalhe é que a cobradora não sabia que Museu de Arte Moderna significava MAM, nosso destino.
Próxima parada: duas paulistas perdidas no Rio de Janeiro. Descemos no ponto indicado e caminhamos para uma praça gigante que eu não tenho a mínima ideia de qual seja o nome. Tinha um enorme boteco de esquina, para nossa felicidade, mas antes de uma pausa, decidimos descobrir o local exato do show. Paramos para pedir informação em uma banca de jornal e novamente, o dono foi muito solícito.
Andamos um bocado, encontramos o local, mas ainda faltava uma hora e meia. Por unânimidade e um calor de 32º, decidimos achar um lugar para tomar uma cerveja e rumamos a um bar, boteco, padaria, muquifo ou qualquer outro lugar com telhado, paredes, um banheiro e cerveja gelada.
Olhávamos em volta – um deserto. Sem pessoas na rua, tudo fechado, o sol ainda alto. A hora: 19h15. Uma cena totalmente inédita. Nenhum bar aberto em um sábado à noite. As ruas totalmente vazias. Nenhuma viv´alma para sequer nos intimidar. Continuamos caminhando até os pés doerem e não ter ideia de onde estávamos. Até achamos que havia um lugar aberto, com lamparinas acesas em cima. Mas era ilusão de duas sedentas e as luzes vinham de uma barraca de flores.
“Flores?” – pensamos as duas – “Quem precisa de flores? Precisamos de uma cerveja!”. Mas eis que a luz surgia no final do túnel, com uma barba encardida (combinando com as roupas e a barraca) e cervejas geladinhas dentro do isopor. “Jesus disfarçado” – pensei na hora em que ele gentilmente nos servia e operava o milagre da multiplicação da cevada fermentada.
Latinhas na mão, rumo ao nosso destino original. Com a ótima inteligência espacial que tenho, obviamente nos perdemos novamente e andamos em torno de 30 minutos até encontrar com um taxista muito simpático (que fez questão de evidenciar a nossa boa forma enquanto dava as coordenadas) e frisar o quão era importante atravessar na passarela e a velocidade exata dos carros que passavam por aquela avenida: 90 quilômetros por hora.
Caminhamos pela Av. Rio Branco (a que caiu o prédio há poucas horas desta quarta-feira) e chegamos na distinta passarela. O lugar era bem garboso: jardins, laguinhos artificiais e todo o tipo de seguranças na porta para assegurar que nenhum meliante sem carteira de estudante entrasse sem comprovar a meia-entrada. E só. Sem revista, apalpamento constragedor ou qualquer coisa do gênero. Se eu quisesse matar o Chico (sem ser de amor), daria.
Enfim chegamos. Lá dentro, um lugar de requinte, com pouca iluminação e um Chico maior que o real de papelão. E claro, coxinhas tirando foto com o Fake Buarque. Nota importante: há 3 tipos de pessoas na história – as velhas com andador, os e as coxinhas da classe média decadente que achavam que estavam indo ao Oscar e eu e a Cíntia.
Deveria haver um coquetel e não me avisaram, pois eu, no auge de minha simplicidade, fui de regata, all star e jeans, ao invés de microvestidos de lurex, paetês e sapatos Loubotin. Enfim, após uma ida ao banheiro (que para combinar com tudo, estava impecável), fomos procurar nossa mesa. Sim, mesas para o show.
Começa ai a primeira parte do meu temor no evento: quem será que sentaria junto conosco nos dois lugares vagos? Quem será que sentaria na mesa colada a nossa? Seriam esnobes que criticariam minhas piadas pífias durante o espetáculo? Seria algum global (o que eu duvidava muito)? Seria o futuro marido da minha amiga?
Enquanto esperávamos e refletiamos sobre o assunto, decidimos comer. Mas a porção de mini-sanduíches tinha o preço relativo ao custo de vida diário de 4 crianças chinesas. A alternativa foi um pseudo-escondidinho de carne seca (e rico lá come carne seca?), que de mini só tinha o nome (deveria ser nano) e um caldinho de feijão (manja a sobra do feijão delicioso que sua avó faz requentado no dia seguinte, mais engrossado? Pega uma concha dele, tira todo o feijão e joga num copinho de tequila. Pronto, você já pode abrir um restaurante e chamar o Chico Buarque para tocar nele). Sem ser azeda, que estava bom, estava. Mas por aquele preço, deveria vir com uma massagem nos pés.
Agora comidas, continuamos a indagar quem nos acompanharia na mesa. Um grupo de três mulheres (a boa, a má e a feia) sentaram-se indagando sobre os nossos lugares, dizendo que eram delas. Disse na primeira vez que elas deveriam verificar com a moça que orientava o público às mesas, porque ela tinha nos encaminhado lá. Ela insistiu, eu repeti novamente que ela tinha que verificar com a moça. Na terceira vez, foi necessário aumentar o tom da minha doce voz e mostrar o ingresso para a feia ligar-se de que a enganada era ela. Para minha raiva completa, o ingresso dela era melhor que o meu, deveria ter trocado.
Eis que nossa dúvida periclitante é sanada: uma moça com flor no cabelo e outra de Panamá ocupam os lugares a nossa frente. Tenho um preconceito com chapéus em eventos à noite em locais fechados. Ouvi uma vez e repito: “Se você não é o Tom Jobim, não use um Panamá”. De acordo. Mas ela até que foi simpática e nos deu boa noite. A da flor no cabelo sacou o celular que a seguiria durante praticamente toda a apresentação. Exato. Ela passou o show todo digitando no celular. Isso quando não tirou um caderno da bolsa e começou a escrever. E fazia questão de parar no final de cada música para gritar “Lindo”, como se realmente tivesse prestado atenção.
Até ai, é só um resmungo de uma paulista ranzinza que não suporta gente pseudo. Logo, na mesa ao lado, chegam três rapazes e uma moça. Um deles se sentou mudo e permaneceu calado o show inteiro, para minha plena felicidade. Os demais, falaram por ele, o tempo inteiro. Enquanto Chico tocava “Já passou”, eles discutiam a diferença entre charutos, cigarrilhas e cachimbos em uma conversa efusiva. E isso é um eufemismo.
Eu já estava irritada por conta da pseudo da mesa, das constantes levantadas de pessoas em frente ao palco com menos de 30 anos que só podiam sofrer de incontinência urinária, dos garçons servindo mesas na metade da apresentação e dos flashes insuportáveis de inconvenientes tirando fotos com as demais na mesa. A dúvida que me assola: para que tirar fotos com outras pessoas na mesa durante o show? E para que tirar 12 fotos iguais?
Fora tudo isso que estava me perturbando, o resto foi bom. Vi o Chico, ele cantou seu álbum novo praticamente inteiro (como era previsto), mas é com suas antigas que ele me arrepia. “Já passou” e “Geni e o Zepelim” valeram tudo. Todo caos, calor, irritação e risco de morte foram válidos quando ele cantou, eu cantei e fiquei surda para todo o resto do mundo. Porque é esse o segredo do Chico Buarque: ele hipnotisa as mulheres quando abre sua grande boca. Porque se não fosse Chico, seria apenas mais um músico baixinho e cabeçudo, que aclamou plateias num passado remoto, mas hoje não mais. E esse é o segredo do Chico. Nota rápida: quem já foi comigo em algum show sabe o quão alto eu grito e usei esse dote pra berrar “Velho Pitel” no fim do show. Fim da nota rápida.
Certa vez, na antiga agência que trabalhava, numa sala com cinco homens, começou uma discussão sobre Chico quando encontrou um sexto homem na sala, no calor do momento me perguntou: “Você também é tarada pelo Chico Buarque?”. Sem delongas, fiz que sim com a cabeça e ele sorriu, dizendo: “Essa menina tem 21 anos e é tarada pelo Chico Buarque, como pode?”. Podendo, é o Chico Buaque.
O show acabou, a pseudo-blasé da mesa saiu antes do Chico tocar as duas saideiras , assim que ele saiu do palco, corremos para pegar o último ônibus na rodoviária. Após quase uma hora esperando na avenida, decidimos embarcar no primeiro ônibus que passasse na rodoviária.
Vale enfatizar que o motorista era louco, fazia curvas como um recém-habilitado e nos mandou entrar pela porta de trás para embolsar o dinheiro. Entraram mais cinco caras, bebendo uísque como se fosse guaraná e nos olhando como se fossemos uma picanha no alho. Foram os 20 minutos mais longos da minha vida. Quase na rodoviária, o motorista afirma com uma negação: “Ninguém vai para a rodoviária não né?”, os bêbados em uníssono: “Não” e as duas paulistas surtadas berram: “Sim”.
Ele nos largou numa rua escura, numa escura escadaria e voamos sem piscar para o guichê procurando passagens para São Paulo. O próximo ônibus partia em 10 minutos e ainda conseguimos pegá-lo. Entramos, sentamos, inclinamos os bancos, nos olhamos, dei um “Boa noite Cíntia” e despenquei no banco ouvindo músicas aleatoriamente até cochilar. Idem Cintia.
O problema é que uma escoliose não me permitiu dormir a noite inteira. Acordava de 10 em 10 minutos, trocava de posição, achava que alguém estava tentando abrir minha mochila e acabei por não dormir. Quando o sono finalmente pesou, eu cochilei e minha mãe me ligou, perguntando se estava tudo bem (o sinal do celular não pegou um minuto sequer em terras fluminenses).
O sol já entrava pelas frestas de cortina nas janelas, os roncos formavam uma big band e eu desencanei de dormir. Chegamos ao Tietê e no embarque rumo a nossos lares, eis que surge um rapaz: Rubens, muito simpático, que começou a puxar papo, falando que estava no banco do lado no ônibus, que morou durante seis anos no Rio de Janeiro e que agora, viria para Santo André. Acho que ele percebeu que não estávamos para papo e encerrou a conversa por ai.
Acabou o show, a viagem e o dinheiro. Mas eu vi o Chico Buarque tocando e cantando para mim no Rio de Janeiro com uma das minhas melhores amigas. E ninguém vai tirar isso de mim.
Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
