Álbuns Clássicos - WAVE (Tom Jobim)

Por Marcelo Mendez

Um dos maiores baratos de escrever a coluna Álbuns Clássicos é a chance de haver com minhas lembranças, meus amigos, com as pessoas que amo, ou que deteste sei lá... Tudo vale desde que seja pleno e honesto. O disco de hoje conta um pouco dessa plenitude, me remete à minha relação co meu pai, o velho Mauro.

Meu pai era homem bonito, culto, inteligente, educado, boêmio, malandro bom, um bamba erudito, mas um bamba. Homem de bom gosto, me deu todas as chances de conhecer tudo do mundo das artes sem nunca tentar me empurrar nada goela abaixo. Meu pai fazia diferente. Me ganhava através de um certo intrigamento. Como no causo do nosso disco em questão...

Eu era um moleque abusado em 1988, cheio de onda, nos trinque de tudo, dezoito aninhos, cheio da prosopopeia, ouvindo rock and roll e algum jazz, me achando senhor proprietário exclusivo da razão dos fatos e dos “não fatos” também! Aí meu pai que deixava os discos dele lá pra quem quisesse ouvir, inventou de guardar um disco...

Tal de “WAVE” do Tom Jobim, caboclo que eu ouvia todo mundo da minha família falando muito bem. Aí num dia de mais ressaca, domingão pela manhã, peguei la nas coisas dele o raio do Disco.

Capa diferente, foto de um tal de Peter Turner que não fazia ideia quem era. Gravado em Los Angeles em 1967, com um time de músicos do naipe do baixista Ron Carter, do baterista Dom Um Romão, Urbie Green e Jimmy Cleveland no trombone... Mas que coisa cheia de chinfra – pensei. Aí meu pai chegou e mandei:

“Pai, precisa por um fraque pra ouvir essa porra?!”

O velho riu, tomou o disco da minha mão, botou na nossa vitrola e mandou:

“Não. Só precisa sentar aí e ficar quieto. Coisa que é muito difícil pra você...”

Até hoje ainda é ma to melhorando... Então senhouras e senhoures, com vocês, WAVE de 1967, do grande Tom Jobim...

Nascido na Tijuca, Rio de Janeiro, radicado ad eternum in Ipanema, Antonio Carlos Jobim começa a sua vida musical através das aulas de violão e piano do Maestro alemão Hans-Joachin Kollreutter, homem responsável tempos depois pela introdução da musica dodecafônica no Brasil...

No começo dos anos 50, Tom chega a pensar na hipótese de trabalhar como Arquiteto, quando finalmente descola um trampo como arranjador na Continental. Por la, toma contato com muita gente da cena musical vigente da época, até que troca a Continental pela Odeon onde finalmente as coisas começam acontecer; Por lá, conhece Vinicius de Morais, através dele, assina o musical Orfeu Da Conceição, participa como arranjador do lendário disco de Chega De Saudade e a coisa decola.

Depois de muito sucesso e reconhecimento por aqui, Tom decide ir embora para os EUA, onde passa a ser reconhecido também por toda a fina flor do jazz americano, por caras do naipe de Oscar Peterson, Gerry Mullighan, Don Bias, Donald Bird, Cecil Taylor... Grava um trabalho lendário com Frank Sinatra e emplaca três discaços por lá... Wave é, portanto seu 4º disco nos EUA. E que disco!!

Gravado nos estúdios Rudy Van Gelder em Nova Jersey, produzido pelo parceiraço Creed Taylor, com arranjos assinados por Claus Orgeman, apelidado por Tom como “O Prussiano”, WAVE é um disco jazzístico em seu improviso, mas totalmente carioca, incrivelmente brazuca, malemolente como caracteriza-se seu criador. Um tratado voltado para as belezas do Rio De Janeiro dos anos 50 e 60, um marco para a musica instrumental brasileira.

Recheado por músicos fodasticos como os já citados, contando com 13 violinos em camerata, o disco conta com musicas divinas como The Red Blouse, Batidinha, os lamentos Triste, Antigua, o boêmio culto às noitadas com Captain Bacardi, tudo muito lindo!

Aqui a gente vai deixar a clássica WAVE no player aí pra vocês curtirem e nas capas o presente como de costume.

Só dar play e ser feliz...

Tom Jobim - Wave


Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor  e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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