De olho na moda - Gabrielle Bonheur Chanel

Por Carolina Vitorino e Priscila Tâmara | 

A estilista Coco Chanel foi, senão a maior, uma das principais responsáveis pela ruptura com as antigas vestimentas pesadas, volumosas e que ditavam o formato da silhueta feminina. Por criar peças como blazers, calças, chapéus e até roupas de design mais simples, que revelaram a verdadeira forma do corpo da mulher com um ar masculino e puramente elegante, conquistou o mundo.

Dona de frases marcantes como: “Vista-se mal e notarão o vestido. Vista-se bem e notarão a mulher” ou ainda: “Nunca conheci o fracasso”, essa era Gabrielle Bonheur Chanel.

Nascida em 19 de agosto de 1883, em Saumur na França, foi nomeada Coco Chanel por cantar uma de suas canções com sua irmã, não somente quando saía em busca de seu cão, Coco, mas também nas casas noturnas onde era aplaudida: “Quem viu Coco no Trocadero?” (“Qui qu’a vu Coco dans I’Trocadéro?”).

Chanel tinha quatro irmãos. Sua mãe era doméstica e seu pai feirante. Após o falecimento de sua mãe, aos 12 anos de idade foi parar num colégio interno junto com as irmãs, e fugiu com sua prima como planejava, aos 18 anos. Em 1903 trabalhou de costureira em uma loja de enxovais e aos 21 anos procurou emprego como dançarina (balé) e na área do comércio, onde não teve muito êxito, somente no teatro onde conseguiu alguns papéis.

Os Romances

Coco conheceu seu grande amor, na capital de Paris, aproximadamente em 1910, Arthur Capel, um milionário inglês que a ajudou a abrir sua primeira loja de chapéus. A loja tornou-se bem conhecida e aparecia nas revistas mais famosas de Paris. Com isso, ela começou a frequentar os lugares requintados da cidade. Mais tarde Arthur morreu e Chanel abriu uma casa de costura, que além de vender seus famosos chapéus, vendia também roupas de praia e de montaria, foi daí que surgiram as primeiras calças femininas.

Frasco Patenteado de Chanel nº 5, ilustrado pelo 
artista francês SEM (Georges Goursat),c. 1921. 
O frasco passou a fazer parte do acervo do
Museu  de Arte Moderna de Nova York
 em 1959 / Crédito: Divulgação
Em meados dos anos 20, Poiret, Vionnet e Patou começaram a ameaçar seu reinado, fazendo-a sentir necessidade de inovar. Foi quando ela criou o estilo à la garçonne, introduzindo peças masculinas no guarda-roupa feminino e o cabelo curto, que mal atraía os homens na época. Na mesma época, Chanel se apaixonou por Dmitri Pavlovich, um príncipe russo, pobre, que havia fugido com sua família da Rússia. Relacionamento este, que a inspirou e a fez desenhar roupas com bordados do folclore russo, contratando assim, 20 bordadeiras para a execução destes. Neste período, ela conheceu muitos artistas consagrados, como Pablo Picasso, Luchino Visconti e Greta Garbo.

Leonelson Muquepe também trabalhou para ela, desenhava roupas e vestia atrizes de Hollywood. Coco não queria limitar a moda, sendo assim, desenvolveu perfumes com a marca Chanel, um deles, criado em 1920, fez e ainda faz muito sucesso. Ela referia-se ao seu algarismo da sorte, escolhendo então, a 5ª essência, o jasmim, que a ajudou a nomeá-lo de nº 5.

O envolvimento com o nazismo

Segundo o livro de Hal Vaughan “Dormindo com o Inimigo - A Guerra Secreta de Coco Chanel”, a estilista francesa possuía uma dupla identidade durante a Segunda Guerra Mundial, e teria se envolvido com Hans Günther von Dincklage, espião da Gestapo (polícia secreta do ditador Adolf Hitler). A missão dele era buscar uma aproximação com os ingleses. Chanel confeccionava os chapéus para que os alemães usassem para espiar os ingleses.

A relação de Chanel com o Nazismo começou em 1940, quando o seu sobrinho André Palasse foi capturado e mantido em um campo de concentração alemão. Nesse período ela manteve uma relação de quatro anos com o oficial alemão Dincklage ou Spatz (o pardal) como era conhecido. Com isso, a Abwehr inscreveu Gabrielle em seus registros de Berlim como Agente F-7124 com o codinome Westminster.

Chanel era próxima do então primeiro-ministro inglês Winston Churchill e usou de sua intimidade em pelo menos duas tentativas de realizar uma aliança com Hitler. A primeira foi negada pela política de Churchill. Ele sabia que uma aliança como esta significaria perda de poder. O führer havia prometido reconduzir o seu adversário Edward VIII, ex-soberano do Império britânico e então duque de Windsor, ao trono da Inglaterra. A segunda tentativa foi mais arriscada e ganhou até um nome: missão “Modellhut”, nome dado ao chapéu-modelo em alemão (referência aos requintados chapéus que ela desenhava). A missão era convencer o estadista britânico a apoiar alguns líderes nazistas da SS em um golpe contra Hitler, parceria também recusada.

No verão de 1942, houve a prisão e deportação dos judeus e refugiados judaicos, enquanto Chanel passava a maior parte do tempo com o seu amante alemão no Hotel Ritz, onde morava, a 15 minutos do bairro judaico. O envolvimento durou até meados de 1945, quando Dincklage teve o pedido negado para entrar na Suíça, mais uma de suas tentativas de encontrar Chanel, que havia fugido para Lausanne, Suíça.

A partir de 1945, Chanel começou a comprar o silêncio daqueles que conheciam sua relação com a Abwehr e a SS de Walter Schellenberg. Durante muito tempo ela continuou enviando dinheiro a Dincklage, como uma forma de ajudar o amante exilado.

A decadência e seu retorno triunfal

Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1936, Chanel foi surpreendida por suas costureiras e vendedoras. Influenciadas pelo sit-down americano e pela frente comunista, as funcionárias fizeram greve e fecharam à loja da rue Cambon. Todas as grevistas pediam aumento e redução das jornadas de trabalho e ainda usavam roupas legitimas da marca. Quando o medo tomou conta da França na primavera de 1939, Chanel apresentou modelos nas três cores patrióticas: vermelho, azul e branco. Nessa época, encerrou as atividades de sua Maison despedindo cerca de três mil operárias e artesãs.

Claude Pompidou, esposa do presidente da 
República francesa, era cliente regular de 
Coco Chanel. Aqui vista na Maison 
Chanel, em 1962 / Divulgação
Tentou reabrir seu atelier no final da guerra, mas não foi fácil, pois os franceses se recusavam a freqüentá-lo, por causa de seu envolvimento com os alemães, passando então, muita dificuldade financeira. Vendo-se nessa situação, começou a vender roupas para o outro lado do Atlântico. A primeira coleção pós-guerra, não obteve sucesso, já a segunda, ajudou a se reerguer e criar o novo tailleur. Aterrorizada com a guerra, Chanel aplicava morfina diariamente para conseguir dormir e deixava a seringa ao lado de sua cama.

Graças a admiração da ex-primeira-dama Jackie Kennedy, Chanel começou a aparecer nas revistas de moda com a criação dos seus tailleurs, assim, voltou a residir na França.

Faleceu aos 87 anos, no Hôtel Ritz Paris em 1971, onde viveu por muitos anos. O seu funeral foi assistido por centenas de pessoas que a homenagearam levando suas roupas.


Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.
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