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| O estilista Ronaldo Fraga |
A moda sempre teve uma relação intrínseca com as artes plásticas, e isso se dá através do impacto visual e às vezes até emocional. O estilista, quando cria, leva várias questões em consideração, questões essas que podem ser mais profundas, filosóficas, políticas, assim como também exploradas simplesmente de forma técnica, fazendo uso de tecidos tecnológicos, métodos atuais de estamparia, ou seja, explorando os materiais na busca do diferencial.
As marcas no geral desenham uma identidade antes de entrarem no mercado. E cada uma delas cria em cima do que o seu público procura. Então dizem: meu público gosta de material bom, tem um estilo mais clássico, não gosta de muitas cores, e a partir daí a cada estação escolhem um tema para trabalhar a próxima coleção.
A SPFW está entre as maiores fontes divulgadoras das grandes marcas do Brasil, e tem o seu mérito porque desde que surgiu foi possível se estabelecer um calendário de moda no país, ou seja, criar uma rotina de troca de coleção como acontece há tempos lá fora. Com isso, alguns estilistas conseguiram visibilidade, o que é muito bom, não só para eles, mas para a moda brasileira em si, que conseguiu mostrar que: “Sim, nós também criamos moda!”
Acontece que essa rotina é extremamente comercial, o que também se torna cansativa para os que não querem simplesmente trabalhar em torno dela. É comercial, porque embora alguns estilistas apresentem trabalhos extremamente conceituais nas passarelas, exige que desprendam todo o seu tempo para que tudo aquilo que vimos nas passarelas aconteça a cada estação.
Alguns estilistas, por esse motivo, resolvem uma hora ou outra, deixar essa corrida de lado para que possam desenvolver outros trabalhos, onde possam desenvolver temas de carga mais pessoal e artística, ou até se dedicar a trabalhos que possam exercer o seu talento em prol do que acreditam que seja mais gratificante.
Acreditamos que um grande estilista que chega nesse patamar é aquele que já brincou bastante numa SPFW, por exemplo, e agora tem algo mais a dizer.
Foi o que aconteceu com Ronaldo Fraga, que deixou a SPFW a partir dessa edição Inverno 2012, e cá pra nós, fez e vai fazer falta!
Depois de 17 anos desfilando no evento, o estilista se dedica agora ao lançamento do seu livro Caderno de Roupas, Memórias e Croquis. O motivo? Ele diz em sua carta de despedida, cujo título é Paro, logo existo: “Eu brinco que a moda acabou porque acredito que ela não existe mais como a conhecemos. Esse sistema comercial engessa, é angustiante e tira o brilho. Eu estou fazendo isso para justamente não perder o brilho”. Leia a carta na integra.
Mas, segundo ele, sua marca continua: “Eu adoraria ser como o Ferran Adrià, que passa seis meses trabalhando no seu restaurante e os outros seis só viajando e pesquisando. Mas, infelizmente, não posso. Continuo sim fazendo coleções, tenho uma fábrica, lojas e um compromisso com as pessoas que trabalham comigo. Só quero usar outras mídias e explorar novas possibilidades de mostrar a moda, algo que já venho pensando há dois anos.”
A sua coleção será lançada junto com o livro entre o final de fevereiro e começo de março de 2012, “Por enquanto, ainda estou tentando encontrar um jeito diferente de comercializar a moda no Brasil”.
Subjetivamente o estilista já dava pistas de que o que tem a mostrar é muito para o SPFW. Nesse vídeo em que ele fala sobre a sua coleção de 2008, cujo tema era o Rio São Francisco, ele demonstra um pouco da sua sensibilidade e fala do que acredita ser o seu objetivo quando cria moda.
Caras grandes como ele não foram feitos para fazer sua história em uma só passarela!
Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.

