Por Ana Mesquita |
A dívida de visitas a amigas aliada a minha incapacidade de permanecer, de viver, de respirar, de olhar para São Paulo me fizeram comprar as passagens ainda em setembro. Uma amiga morando em Salvador e outra em São Luís foi a conveniência perfeita para me organizar e ir passar uma semana em cada uma dessas cidades no mês de janeiro.
Antes de chegar a Salvador passei por Aracajú, e por lá fiquei com a família uma semana, alternando minha vida entre praia e a piscina do condomínio, curtindo os filhos e realmente descansado.
Cheguei a Salvador numa sexta feira 13, após viajar por 6 horas entre o sertão sergipano e o baiano. Ainda na vibe “praia-piscina-cama” nada havia me preparado para o turbilhão de coisas que iria acontecer em solo baiano. Entre manhãs tranquilas a beira-mar e até mesmo participação em uma manifestação – contra a construção de um camarote de luxo muito antes do carnaval em uma praça pública na praia de Ondina – pude acompanhar um pouco da cena independente de Salvador, e conhecer algumas das figuras que a agitam.
Fiquei hospedada no bairro Rio Vermelho, que é o bairro boêmio da cidade, com restaurantes, bistrôs, casas noturnas, e botecos, muitos botecos para todos os gostos, além disso, é o bairro com o melhor acarajé da cidade (o pessoal de lá fala que o da Cira é melhor, mas o da Dinha está melhor localizado e sua barracas bombam igualmente). Lá fui recepcionada pelos queridos amigos Luciana Mandeli e Mário Riffs, este DJ especializado em afrobeats e música negra. Formado em história o rapaz é um estudioso do assunto e realiza pesquisas aprofundadas de sonoridades africanas e étnicas. Pense em duas pessoas só falando sobre música por quase uma semana inteira? Era quase a uma brincadeira do tipo “tu já ouviu tal disco?”, independente do que o outro respondesse a conversa rendia.
Mário me arrastou pra conhecer o trabalho do pessoal do coletivo VISIO, um grupo de artistas plásticos, produtores e músicos que se reuniram e realizam mensalmente no ICBA (Instituto Cultural Brasil-Alemanha) intervenções artísticas. O Instituto Goethe baiano está instalado em um casario histórico, tombado e muito bem conservado – assim como os outros museus da cidade que pude visitar no caso o MAM e o Museu Rodin – e mensalmente recebe DJs, VJs, exposições, grafite, live paiting, fotografia, cerâmica, artesanato. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. A artista plástica e produtora Juliana Bestetti me conta que o coletivo trabalhou um ano sem nenhum tipo de financiamento tudo na raça mesmo e que pro ano de 2012 eles conseguiram o patrocínio do Vivo Arte.Mov e Fazcultura do governo do estado da Bahia.
Alias o Conexão Vivo é um capitulo a parte no financiamento da cultura de Salvador. O braço cultural da empresa de telefonia tem investido pesado na cena alternativa e independente baiana. Não que o estado não financie a cultura, pelo contrário: por conta do carnaval, e todos os eventos relacionados a ele, a Bahia é um dos estados brasileiros que mais investe em cultura, proporcionalmente falando. No entanto a grana é direcionada para um nicho do mercado musical que, queira ou não, movimenta o turismo e a economia local. O Conexão Vivo, pelo pouco que pude perceber, não financia o axé. Os caras financiam desde iniciativas como as ações do Coletivo VISIO, até shows de médio porte, como da Nação Zumbi na Concha Acústica do TCA (Teatro Castro Alves). Esse show da Nação Zumbi que pude conferir na inacreditável Concha do TCA teve o apoio de outro coletivo baiano, que desde logo sacou a importância das parcerias privadas para fazer circular as bandas da cena independente: a Rede Motiva.
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| Nação Zumbi na Concha Acústica do TCA / Foto Ana Mesquita |
Uma das qualidades inegáveis do Fora do Eixo é sua liberdade de organização interna, que deixa com que os coletivos que integram a rede se organizarem da maneira que acham melhor, no entanto, é evidente que existem diretrizes básicas de atuação, e é justamente por conta dessas diretrizes que algumas críticas feitas aqui em SP ressoam também por lá: falta de pagamento aos músicos – aqui gostaria de fazer um adendo, acho que a questão do pagamento dos músicos é relativa, pois cada uma das bandas deve avaliar as condições e oportunidades do show para decidir se vai tocar sem ser remunerado – até a questão da circulação das bandas, e pra mim esse é o ponto chave problemático do FDE, não fazer com que TODAS as bandas envolvidas (temporariamente ou não) toquem em TODOS os palcos proporcionados pelos eventos do coletivo.
O vício do olhar paulistano sobre as coisas me traiu diversas vezes em Salvador. E só saindo de SP e mudando a perspectiva e que percebemos nossas limitações. Pra vocês entenderem o que estou falando vou dar um exemplo. No fim do ano passado saiu uma entrevista no site da MTV com o Letieres Leite, da Orquestra Rumpilezz, e aqui em SP foi uma grita geral sobre como a entrevista havia sido editada, dando a entender uma suposta desvalorização do afrobeat feito pelos paulistas. Esse questionamento feito pelos paulistas sobre o texto ficou em segundo plano na percepção dos músicos baianos obre o texto: o povo adorou a entrevista pelo fato de identificar a distância dos negros – e dos próprios músicos que tocam axé, que nem se dão conta dessa raiz africana no que estão tocando – do afrobeat. Serviu mais como um “abridor de olhos aos baianos” do que tema de disputa sobre qualificação musical.
Baladinha
O Baile Esquema Novo é uma festa que acontece há mais de 4 anos em Salvador. Organizada pelos Djs Camilo Frôes e o jornalista Luciano Matos, a festa tem a proposta de só tocar música brasileira e a cada edição um DJ convidado divide o tempo de discotecagem com os anfitriões. No dia que fui tive a sorte de conferir Lucas Santana como DJ convidado, mandando muito carimbós e fazendo a pista pegar fogo. Foi lá que encontrei Ricardinho, um produtor super antenado que me contou sobre uma casa que ele acabou de alugar e reformar na orla do Rio Vermelho, e que abrigará festinhas alternativas. A primeira foi logo no 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, DJs na sacadinha, tocando virados pra rua, e como disse Mário “foi babylon!”
E tem ainda o pessoal do Cascadura, banda que está na estrada há mais de 20 anos e que abrirá o segundo dia do Lollapalozza, tem a questão da relação das casas noturnas e bares com o cenário independente, e de como quase inexiste uma imprensa alternativa que cubra decentemente os eventos – os grandes jornais praticamente ignoram – mas enfim, é muita coisa pra falar. Como disse lá no começo do texto, foi um turbilhão de emoções e sensações. A musicalidade do povo é sentida a cada esquina. Andando pela cidade, finalmente entendi todas as músicas de artistas baianos que admiro, é clichê? É sim, mas fazer o que? Foi assim.
Confira os links de tudo que falei...
Mário Riffs http://www.riffs.tk/
Aqui vocês podem conhecer as festas que esse rapaz organiza
Coletivo VISIO http://visioponto.blogspot.com/
Rede Motiva http://www.redemotiva.com.br/
Baile Esquema Novo https://www.facebook.com/baileesquemanovo
MAM Bahia http://www.mam.ba.gov.br/
Teatro Castro Alves http://www.tca.ba.gov.br/
Banda Cascadura http://bandacascadura.com/a-ponte/
(A banda está lançando disco novo e dizem, é divisor de águas na obra do grupo)
Ana Mesquita é colaboradora do Pastilhas Coloridas e jornalista freelancer amante de cinema. Twitter: @anamesquitafoto

