Moviola - Muito além do Jardim (Hal Ashby/1979)

Por Vinicius Alves

Alguns filmes ficam em nossa memória por muito tempo e alguns deles nos perseguem pela vida toda. No meu caso, posso dizer que "Muito além do jardim" é um desses que volta e meia vejo novamente.

O que me levou a assisti-lo pela primeira vez foi o fato de que seu protagonista é interpretado pelo genial Peter Sellers, que na época conhecia de outros filmes, como: "Um convidado bem trapalhão" e a série "A Pantera Cor-de-Rosa". Este último, seu maior sucesso comercial. Uma comédia rasgadas em que Sellers faz o impagável inspetor Clouseau, desfiando ali todo seu talento, que inspiraria mais à frente atores pelo mundo afora, como Roberto Gomes Bolaños em seu Chapolim Colorado. Mas isso é outra história.

Apesar de também se tratar de uma comédia, "Muito além do jardim" tem um humor bem mais sutil. Baseado na obra literária “O Videota”, de Jerzy Kozinski, o filme conta a vida de Chance, um jardineiro que durante praticamente toda a sua existência vive num único lugar, a casa de seu patrão. Onde divide seu tempo entre as plantas e a tela de televisão.

E neste ponto aparece um dos aspectos que me chamou a atenção. Chance, em seu reduzido mundo, não sabe ler e nem escrever, não tem carteira de identidade e nunca andou em um automóvel. Foi "educado" basicamente pela televisão, assim como a minha geração e muitas outras. Ele é quase um autista, completamente alienado do mundo, só entende o que vê na televisão ou quando o assunto é jardinagem.

Peter Seller caracterizado como o jardineiro Chance
A trama toda começa a se desenrolar quando seu patrão morre, e Chance é obrigado a deixar a casa em que sempre viveu e, acidentalmente, é atropelado por Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um grande magnata que se torna seu amigo e por alguns acasos do destino chega a apresentá-lo ao Presidente da nação (Jack Warden). Neste encontro, mesmo analfabeto e falando pouquíssimo, Chance conquista todos com suas raras falas, que acabam sendo interpretadas como filosofias profundas, com sentidos obscuros, porém eruditos, mesmo que ele estando se se referindo a uma banalidade qualquer. Cada vez que ele abre a boca,  parece correr o risco de ser descoberto e sua suposta genialidade vir abaixo.

Dai em diante o pobre e ignorante jardineiro, passa a ser tratado quase como um guru, tornando-se uma celebridade. É convidado para festas importante e a dar entrevistas em programas de televisão, onde sem saber bem como e porque, discorre sua simplicidade sobre os mais complexos assuntos. Neste ponto podemos dizer que Eric Roth, ao escrever o roteiro de Forrest Gump, bebeu diretamente na fonte de Muito além do Jardim.

Tendo se tornado tão famoso, Chance passa a ser quase uma obsessão para mídia, e os resultados das buscas por mais informações desse desconhecido mostram que ele parece não ter passado. Com certeza, uma grande crítica aos EUA e seus valores, à comunicação de massa e à carência do ser humano que aceita qualquer coisa para se sentir melhor.

Paralelo a isso, o Jardineiro desenvolve uma relação com Eve (Shirley MacLaine), esposa do Magnata que o atropela. Ela se apaixona por ele, apesar de toda inocência de Chance, criando algumas das situações cômicas do filme.

Shirley MacLaine como Eve Rand, contracenado com Sellers
Na cena final, no funeral de Benjamin Rand (patrão), Chance sai andando pelos jardins da mansão e de maneira quase sublime, continua caminhando sobre as águas do lago. Uma cena mágica que pode ser interpretada de diversas maneiras. Seria Chance uma representação de Jesus Cristo? Sua inocência e incapacidade de ver as coisas como elas são, lhe permitiriam fazer o que os demais acreditam ser impossível?

Para mim, o diretor Hal Ashby deixa bem claro a ideia que quis passar, em um dos diálogos finais:

"Somos todos marionetes, resta saber até quando vamos viver nessa passividade."



Ficha Técnica
Muito Além do Jardim (Being There)
País/Ano de produção: EUA, 1979
Duração/Gênero: 130 min., Drama
Direção de Hal Ashby
Roteiro de Jerzy Kosinski
Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden,
Richard Dysart, Richard Basehart, Ruth Attaway, David Clennon, Fran Brill.
Share: