Por Vinicius Alves
Este é uma daqueles clássicos esquecidos do cinema.
"Terra de Ninguém" (BadLands), primeiro longa do diretor Terrence Malick - que posteriormente faria "Cinzas no Paraíso" e "Além da Linha Vermelha" - filmado em 1973, retrata toda desilusão de uma geração. Inspirado no lendário caso de Charles Starkweather, que 1958 fugiu de casa com a namorada, após matar o pai dela.
A história é narrada por Holly (Sissy Spacek), uma sonhadora adolescente suburbana de 15 anos, que vive em uma cidadezinha de Dakota do Sul quando se encanta por Kit (Martin Sheen). Kit, com 25 anos, é a encarnação de uma geração desmotivada e sem perspectiva, sem ilusões de grandeza ou um norte a seguir. Dispensado do trabalho como lixeiro, ele se envolve com Holly e acaba matando seu pai de forma quase que acidental. Kit não é um bandido, está mais para um ingênuo que se torna muito perigoso quando tem uma arma na mão.
Apaixonados, e vivendo um "conto de fadas" meio perturbador, os dois fogem deixando um rastro de sangue antes de serem apanhados, milhares de quilômetros depois, tentando fugir para o México. O filme todo é permeado por aspectos e características estadunidenses: road trips, serial killers, rock’n’roll e jovens sem rumo. O personagem de Sheen, apesar de caipira, se veste como James Dean.
Nada é planejado, e os dois aceitam naturalmente a idéia de que são assassinos e jamais poderão levar uma vida normal. Apesar de que em determinado momento, uma das sequências mostra Kit e Holly tentando restabelecer uma rotina, montando uma choupana feita com galhos, dentro de uma floresta. Eles pescam, criam frangos e colhem vegetais para sobreviver. Esse é um dos poucos momentos do filme, se não o único em que o casal parece realmente feliz.
A relação entre Kit e Holly é fria e distante em certos pontos, mesmo com a adolescente se declararando apaixonada em seu diário lido em off. O que vemos é uma relação sem arroubos, algo ocasional e raso. Até o sexo se revela morno. Percebemos que não há julgamentos de valores, o diretor opta em retratar as personagens como pessoas normais, sem dizer se são boas ou más. Evitando criar uma empatia ou antipatia entre o público e algum deles.
Há sim, certamente, um julgamento do “American Way of Life”. Durante o desenrolar da fita podemos notar o deslumbramento dos dois jovens por alguns símbolos desse modo de vida, como roupas, carros e mansões. Com imagens impecáveis, e ótimos enquadramentos de paisagens, a beleza plástica é um componente importantíssimo, já que esses takes, assim como em música, funcionam como pausas, "silêncios" necessários para que o público reflita sobre os significados ocultos daquilo que está vendo.
Ao final dessa saga, os dois jovens perseguidos pela justiça estão mais do que conhecidos, já que a captura é acompanhada como uma novela, pelas rádios do país. Se tornam celebridades. Kit, já preso, é sempre simpático e gentil com os policiais. Tem total consciência de seus atos e sabe de sua fama, ao contrário de Holy, que mantem a mesma ingenuidade do começo do filme, se dando por satisfeita apenas por sempre ter sido levada a sério por Kit. Qualquer semelhança com "Assassinos por Natureza" (Natural Born Killers/1994) de Oliver Stone, não é mera coincidência.
"Terra de ninguém" caminha entre o real e o fantástico, em uma tênue linha construída através de lindas imagens não necessariamente em movimento, mas que mesmo assim proporcionam 95 minutos de um cinema que há muito não da às caras em Holywood. Aquele que não induz, mas o faz pensar.
Ficha técnica:
Título Original: Badlands
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 95 minutos
Ano de Lançamento: (EUA) 1973
Estúdio: Badlands Company / Pressman-Williams
Distribuição: Warner Bros.
Direção: Terrence Mallick
Roteiro: Terrence Mallick
Produção: Terrence Mallick
Elenco: Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates, Ramon Bieri (Cato), Bryan Montgomery, Gail Threlkeld, Charles Fitzpatrick, John Carter, Alan Vint, Gary Littlejohn, Terrence Mallick.




