Houve uma vez um amor.
Daqueles que o sujeito esquece de pagar a conta de luz, do vazamento da pia, do engarrafamento da 23 de Maio, do Deputado safado, de tudo! Tudo ta lindo, tudo ta divino maravilhoso. No ano da graça de 1990 eu tava numa parada dessas. A moça... Que moça!
Evelin era o nome. Uma riponguinha cool, muito linda, de cabelos escorridos até a cintura, curvas de fazer o Hugo Chaves beber coca cola e um jeitinho meigo que até conseguiu me convencer a ir na porra de Visconde de Mauá num carnaval desses ae. Por aquela mulher eu ia para o inferno dançar bolero com o satanás, fácil! Ae teve o dia que ela comprou um disco:
“Celo, você conhece esse disco? É duplo da Gal tava baratinho, comprei...”
E eu naquela fase, Mountain, Black Sabbath, Stooges e Mott The Hople:
“Ah conheço tem ae umas coisas que gosto e tals mas num to numas de ouvir isso ae não”
Idiota, eu! Quando a coisa acabou, num desses porres de homem amargurado tonto que perde o amor por resignação em imbecilidade, eu vi a bolacha no meu quarto já em casa e botei pra ouvir. Ao som de “Minha Estupidez” do Roberto, matei uma garrafa de campari e chorei o Rio Hudson todo, bêbado feito uma vaca naquela noite! Ma isso conto na íntegra outra hora, em outro contexto. Agora vamos contar a história da Bolacha e da cantora que me embalou aquela dor de cotovelaço.
Senhouras e senhoures, com vocês, Gal Gosta e seu discaaaaaçoooo FA-TAL de 1971 aqui em Álbuns Clássicos.
Pois é. Gal Costa já era uma cantora renomada em 1971. Naquela altura, ela já havia lançado discos muito bons como o primeiro de 1967 com Caetano Veloso, o psicodélico GAL COSTA de 1969 e suingado e lisérgico LE-GAL em 1970. Tava tudo certo, carreira tava indo muito bem mas fora isso, o Brasil tava foda geral.
No começo dos anos 70 vivia-se por aqui o endurecimento dos anos de chumbo da ditadura Médici. O AI-5 que havia varrido todas as liberdades individuais deu a repressão plenos poderes pra matar, torturar e sequestrar todo mundo que ousasse ser voz contraria ao estabilishiment. A Classe artística que não vivia numa ilha isolada de tudo foi duramente atingida também e então surgiu a vontade de reagir. Eis então que rola nossa parada.
Num role pela casa 9 em São Conrado, Gal conhece Wally Salomão. Com ele tem algumas ideias que depois se amadurecem e tomam forma com Jards Macalé acertando a parada toda. Ele prepara algumas de suas musicas como Vapor Barato por exemplo. E ajuda a montar a banda que tocaria na apresentação. Banda lendária!
Lanny Gordin nas guitarras, Jorginho Gomes na bateria, Bruce Henry no Baixo, Perna na percussão. Esse timaço ficou responsável pela parte elétrica e roqueira do show. A segunda parte, fica reservada a um lance intimista com Gal tocando violão,m cantando e apaixonando o Brasil todo!Aquela morena espetacular cantando coisas como Fruto Gogóia, Charles Anjo 45, Antonico, Como 2 e 2 era a coisa mais próxima do Paraíso possível em 1971. A parte roqueira da parada não ficava por menos. Porrada!
Era Hardão puro! Vapor Barato, De um Rolê, Pérola Negra, Hotel das Estrelas a já citada Sua Estupidez em uma versão Blues é pra se ouvir de joelhos Os Shows do Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro se tornaram históricos e um marco na carreira de Gal. Tudo foi então juntado e lançado em um álbum duplo com tudo que um bom vinil tem direito. A bolacha foi escolhida como o 20º melhor do Brasil em todos os tempos.
As concorridíssimas apresentações geraram uma atitude, um comportamento que ficou popularizado entre a rapaziada mais antenada na época como o Desbunde. Uma atitude hippie forte, de protesto pacifico. Precedeu o maravilho ano para as artes no Brasil que foi 1972 mas aeee é ouuuuuuuuuutrooo causo que depois vorto pra contá. Por hora fiquem ae com a sensacional Vapor Barato no player e pelas capas ae, o linkão de presente. Dae pra frente já sabem:
Só tascar o player e perigas ver...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.

