| A "bença" para o filho distante vai por celular - Foto Elsa Villon |
Por Elsa Villon
O amanhecer começa cedo em Canudos Velho. Já por volta das seis da manhã, as cabras e galos anunciam mais um dia de trabalho árduo pela frente. Ao menos para nós.
Por conta da seca que assola o distrito desde novembro, os pescadores não têm muito que fazer. Passam o dia cuidando de suas hortas, animais, casas e filhos, na esperança que a canção de Marisa Monte finalmente os resgatem da boca e terra secas.
Pela falta de meios de sobrevivência, muitos dos homens foram trabalhar em Angola, na tentativa de complementar a renda familiar. A cidade em maioria é representada pelas mulheres, que enfrentam a seca e a saudade dos maridos, filhos, sobrinhos e irmãos que agora estão em outro continente. Depois de empunharem as armas na Guerra de Canudos, as mulheres não deixam a peteca cair enquanto os homens estão em outros territórios mais longínquos.
E nós, extensionistas, também não. Já “cafédamanhados”, recomeçam as atividades no circuito de saúde. O primeiro dia de atendimento rendeu ao menos 60 pacientes e antes das oito da manhã, o cadastro já contava com uma fila de espera.
| Moradores esperam atendimento dos alunos - Foto por Elsa Villon |
Como em todo vilarejo, as notícias voam. Pessoas da cidade vizinha, Bendegó, souberam de nossa vinda e também vieram em busca de ajuda. Novamente limitados pela falta de recursos, fomos obrigados a recusar os atendimentos que não fossem da cidade, pois em Bendegó há tratamento aos locais.
Uma das maiores frustrações para os alunos e profissionais de odontologia é o enorme volume de pacientes e a falta de tempo para atendê-los. A profilaxia bucal é bem defasada e os atendimentos fora da cidade priorizam a extração ao tratamento. Isso sem levar em conta o pavor convencional, defendidos pelos mitos que cercam a relação dentista-paciente.
A situação mais deplorável que vivenciei até o momento foi a de um menino de dois anos que já tinha todos os dentes corroídos por cáries. A chamada cárie de mamadeira consumiu por inteira a arcada dentária da criança, que está condenada a crescer sem dentes, apenas com as raízes já perdidas. Ninguém aos dois anos de idade é merecedor de tal situação.
O número de filhos por família também é alarmante. Em alguns dos lares visitados, o levantamento indicou cinco, seis, até oito filhos por casa em situações de extrema pobreza. Em uma delas, uma jovem de 26 anos já era mãe de cinco filhos de diferentes pais, com idade entre dois e sete anos. Quando questionada sobre seu futuro como pessoa, seja profissional, seja pessoal, a resposta foi um silêncio evasivo. Assim é o diagnóstico de alguns dos jovens em Canudos: desesperança crônica.
| Nossa cota internacional Gabriele, Haïssa e Amparo - Foto Elsa Villon |
Chegamos ao ponto da história da cota internacional por viagem: três alunos de intercâmbio da Espanha completaram nossa bagagem. Estudantes de pedagogia, Gabriele Marchegiani, Haïssa Varillon e Amparo Garcia se organizaram na missão de aproximar família e escola, pais, professores e alunos para otimizar toda a forma de aprendizado.
Cabeludo, barbudo, extremamente simpático, o Gabriele é o típico maluco beleza. Nosso amigo italiano faz jus aos festeiros estereótipos vistos nos casamentos à lá “O Poderoso Chefão”. Com toda certeza, ele poderia ser um dos personagens saídos das páginas das obras de Mário Puzo. Além de tudo, toca sanfona e foi a atração mais peculiar em solos canudenses.
Já Amparo e Haïssa são extremamente divertidas e sorridentes. Mesmo acordando cedo, caminhando muito e com algumas dificuldades em comunicar-se, elas não medem esforços para serem sempre as mais divertidas da roda. Os três, carregados de seus sotaques de diferentes regiões, fazem dessa viagem uma experiência pluricultural.
| Espanholas também sabem dançar forró - Foto Elsa Villon |
A expectativa é desenvolver atividades que ajudem a amenizar esse abismo em que foram colocados. Reconciliar e fortalecer os laços escola-família é outro desafio que compõe “A Luta” dentro d’“A vida” dos sertanejos – que antes de tudo, é um forte.
Na próxima coluna, vocês conferem mais um pouco da aventura na qual se encontra essa transloucada correspondente que escreve. A contextualização e restauração histórica de Canudos, principalmente por conta do combate que a levou para os livros de história é a próxima pauta. Aguardem e confiem.
Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon