Elsaclides da Cunha - O Passado

O açude de Cocorobó - Foto por Elsa Villon
Por Elsa Villon

Em mais um dia de atividades, finalmente os desbravadores aqui percorrem a parte histórica de Canudos Velho. As ruínas da inundação provocadas pelo açude de Cocorobó eram o destino desses paulistas metidos à lá irmãos Villas-Boas.

A construção do açude se deu na região após uma visita do então presidente Getúlio Vargas, em 1940. Muitos moradores e estudiosos defendem ferrenhamente a história que acusa a construção como causa intencional do alagamento das áreas que completavam os relatos da guerra. Considerada uma vergonha para o Exército Brasileiro, a Guerra de Canudos foi alvo de muitas pesquisas entre as décadas de 50 e 60.

Despertado o interesse no assunto, nos intelectuais da época, contam que um coronel próximo a Vargas teria sido questionado sobre o que de fato poderia ser feito para “ajudar” a população. Ficou então acertada a construção da barragem, que coincidentemente foi feita de forma que alagasse o que ainda restava da cidade onde ocorreu a batalha.

Já estava em vigor a lei que proibia obras em regiões que se caracterizam como patrimônio histórico, mas dentre tantas as outras que foram violadas durante o período, muitos acreditam que essa tenha sido mais uma delas.

Em Canudos Velho, há também o Museu Histórico da cidade, fundado por um dos moradores: Seu Manuel. Ele se antecipou a qualquer outro e começou a coletar e armazenar objetos que possam ter pertencido à guerra. Balas, facões, armas, chapéus, cartuchos, moringas e até uma cela feminina integram o acervo. A cela feminina era feita para que as mulheres pudessem cavalgar de lado, pois era considerado indecente que cavalgassem como os homens, montadas com as pernas abertas no cavalo.

Após visitas, ele fica atualmente fechado com cadeado. Alguns turistas dissimulados furtaram várias das peças que pertenciam primeiramente à história, à população e ao Seu Manuel. O Instituto Brasil Solidário, que também é parceiro do projeto, visa a preservação dos itens restantes e a catalogação museal de tudo para que ele possa ser construído e disponibilizado da maneira que a história de Canudos merece.

Em visita ao Memorial Antonio Conselheiro, mantido pela UNEB, é possível conferir exposições sobre Canudos. Além disso, preserva objetos arqueológicos da região, além de roupas e máscaras utilizadas no filme de Sérgio Rezende sobre a Guerra de Canudos.

A coordenadora do Memorial, Adriana Gonçalves da Silva Fontes, contou que os alunos têm na grade curricular aulas de história com ênfase na cidade, com intuito conscientizar a população mais nova dos valores históricos da cidade e seu promover o resgate cultural.

Há também uma pequena biblioteca, situada dentro do Memorial, que abriga estantes e mais estantes com literatura referente ao passado de Canudos. Dentre os destaques, uma tradução em alemão de “Os Sertões”, autografada pelo tradutor.

Entrada do Parque Estadual de Canudos - Foto por Victor Bigoli
Segundo o nosso guia, João Ferreira Damião, magistério em Letras e cursando pós em Literatura, dizem que o líder da revolta canudense chegou a angariar em torno de 25 mil homens à luta. Hipérboles à parte, ele afirma que o número varia entre 10 e 15 mil homens.

Depois da entrevista, seguimos para o Parque Estadual de Canudos, local onde de fato ocorreu a guerra. Acompanhados por um guia, pudemos pisar em locais banhados de sangue anteriormente pelas tropas brasileiras e os seguidores de Conselheiro. Entre eles, o Alto da Favela e a sede de Fazenda Velha – local onde foi morto o Coronel Moreira César, conhecido como “corta-cabeças”.

Conhecedores da caatinga melhor que o exército, não foi difícil para aqueles combatentes derrubarem a primeira expedição que rumou à Canudos com o intuito de dizimar Conselheiro e seus seguidores.

O grande choque é saber que homens treinados, supostamente preparados para defender o território brasileiro de tropas inimigas em caso de ameaças e armados até os dentes, tenham sucumbido a “jagunços”, munidos de facões e somente o preparo físico e inteligência espacial peculiar ao sertanejo, grande diferencial no terreno de batalha.

Trincheiras abrigavam até 20 homens, deitados, camuflados entre a vegetação. As balas dos soldados zuniam por cima delas sem atingi-los. Três expedições foram vencidas pelos sertanejos e somente a quarta foi capaz de detê-los. Segundo relatos dos moradores mais antigos e entendidos no assunto, acredita-se que os canudenses resolveram se entregar e evitar assim mais derramamento de sangue.

Damião contou também que os soldados, já coléricos pelas consecutivas derrotas, passaram a torturar a população, degolando prisioneiros e crianças. E que quando os homens já não podiam lutar, as mulheres empunharam as armas e se dispuseram a continuar o que os maridos, filhos e irmãos iniciaram.

Euclides da Cunha também foi destacado enfaticamente. Até então engenheiro, militar e  ligado às autoridades estaduais, o correspondente de guerra do jornal O Estado de S. Paulo conseguiu, apesar de elementos pejorativos em sua obra, relatar com precisão a batalha que motivou tantas outras e que agora, motiva ações como essa.

Canudos Velho é uma sobrevivente. Da guerra, dos governos, da inundação e da seca. E por continuar na incessante batalha para manter seu espaço na história. É preciso comemorar.

Memorial de Antonio Conselheiro - Foto por Victor Bigoli
Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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