O preço do ouro e o peso do punho

Por Marcelo Mendez

Eu já disse que um dos motivos que me fazem ter prazer em colaborar com o Pastilhas Coloridas é a total liberdade que temos, para tratar os temas escolhidos, ou escalados para falarmos. Fazemos isso aqui com total liberdade e sinceridade plena. Essa sinceridade me fez dizer logo no primeiro texto da minha coluna que, eu trataria apenas de futebol e isso, não me daria o ônus de cuidar de “esportes”, visto que, trato apenas de um esporte. Assim permaneço, desde que um tema pungente não bata as nossas portas. Isso acontece agora...

O ex-atleta norte americano Tommie Smith, coloca sua medalha de ouro à venda, alegando dificuldades financeiras. Só pelo fato de ser um ouro olímpico já seria uma noticia impactante. Mas a medalha de Tommie, não é uma medalha como as outras...

Voltemos no tempo. O ano era 1968, Olimpíadas na Cidade do México. Um país lotado de exilados, perseguidos políticos, todos expulsos de seus respectivos países. A época era dura demais. A América Latina, toda sitiada por ditadores sangrentos. O Chile que faltava, entraria na ditadura sanguinária de Pinochet em 1973. Argentina com Rafael Videla, em 1976. O Brasil nosso era esmagado pelos coturnos de Médici e seus asseclas e os Estados Unidos, que bancava todas essas atrocidades, era um barril de pólvora com um perdido Richard Nixon sentado em cima.

O republicano tosco, tacanho, tinha sobre seu governo, a ascensão do governo cubano de Fidel Castro, o leste europeu se consolidando num bloco soviético, o Vietnã e sua guerra sem sentido, os movimentos humanitários por direitos e direitos individuais, a revolução sexual causada pela pílula anticoncepcional... E no meio disso tudo, nascia aquele movimento que marcaria o século XX, como um dos maiores levantes de minorias já visto nos Eua.

Em 1966 na cidade de Oakley, cansados de ver a rapaziada da cor escura tomar cacete da polícia, dois caras, Huey Newton e Bobby Seale decidem tomar uma atitude, montaram na primeira emenda da constituição norte americana e fundaram o Partido Dos Panteras Negras. Daí então, começa um dos maiores movimentos de resistência já visto. Pela primeira vez, um grupo minoritário reagia a opressão num grande país. De orientação marxista e uma disciplina voraz, os Panteras se criaram por todo os País. Conseguiram respeito de lideranças mundiais, artistas de renome e daí para o esporte seria um pulinho...

Nas Olimpíadas de 1968, após a vitória de Tommie nos 100 metros, no pódio, ele e John Carlos entrariam pra história. Com uma luva negra e o punho cerrado pro alto, os Panteras ouviram o hino americano de cabeça baixa, deixando claro que, o que os representava, era a sua própria força. Não aquele hino. Os Panteras Negras, agora tinham um gesto e uma cara no mundo. O ato repercutiu demais.

Os atletas foram expulsos da vila olímpica. De volta aos Eua, tiveram caçadas suas medalhas, sofreram perseguições, políticas, raciais, econômicas e o diabo. Foram anos e anos de exclusão, até as olimpíadas de Atlanta em 1996, quando as medalhas foram devolvidas a ambos. E agora, depois de todo esse tempo, o episódio volta a cobrar a história. O que fazer?

Tommie Smith estipulou para o leilão, o preço de 250 mil dólares. Tá numa pindaíba lascada! Poderíamos encarar a venda disso naturalmente, afinal de contas, o dono assim quis. Mas também poderia aparecer alguém do MILIONÁRIO esporte olímpico americano, dar a grana pra Tommie e deixá-lo com a medalha. Não seria nada demais, se até o fim da vida, tanto Tommie Smith, quanto John Carlos, recebessem uma indenização por perdas e danos, mais calunias e difamação contra eles e seus familiares.

Fato é, que mais uma vez um ídolo passa por um perrengue e dessa vez não é um ex-jogador de futebol do Brasil. Falamos de um homem que faz parte da história do esporte. De um cara, cuja imagem é repetida e estampada na mídia há 41 anos. Seja como for, fica a reflexão da coisa toda. Como tratar seus ídolos? Até que ponto o atleta tem mesmo, liberdade de expressão? E isso custa o que?

Espero que os 250 mil dólares não paguem por tudo isso.

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