Por Ana Mesquita |
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| Uma das capas da primeira edição, com Willian Burroughs |
Uma felicidade inundou meu ser ao entrar no Bar Bruzuca, ali do lado do Enios Bar, no bairro Jardim em Santo André, ao ver a quantidade de gente presente para o lançamento do número 000 da Revista Mortal no último sábado, dia 16 de outubro. Muitos amigos queridos que não via há tempos e outros seres que eu nem sei se algum dia eu troquei uma palavra com eles, mas que reconheci seus rostos da noite andreense, freqüentadores do Bar do Lincon, Bar da Tia, Bar do Mineiro, Chalé do Pão de Queijo (na Concha Acústica), do Revolucionarte, das Canja com Canja as quartas feiras no saguão do Teatro Municipal, do Red Onion, do Bar do Ceará...
Afinal não é todo dia que a cena cultural do ABC ganha uma publicação impressa em papel couchê, capa colorida, com ensaios fotográficos, contos, crônicas, reportagens, trechos inéditos de livros recém publicados, críticas literárias e muita, mas muita subversão da boa, aquela do ativismo anárquico que tanto gosto. Até mesmo o formato é subversivo pra um tipo de publicação como essa, um tipo de revista de bolso, pro operariado levar no bolso e ler no bus.
Jairo Costa é figura conhecida no ABC, já publicou livro, já colaborou em grandes revistas, como a Caros Amigos, e já andou destilando suas idéias e posições em um punhado de publicações independentes por esse mundão da internet e agora encara o imenso desafio de editar a nova publicação. Em seu primeiro editorial, Jairo afirma que: “Nossa publicação tem ambiciosas pretensões e a primeira materializa-se já nesta edição, que é a de ser um veículo independente, uma revista forjada no ABC paulista, disposta a debater a cultura, a política e a arte em suas mais variadas manifestações”. Não é pouca coisa. São objetivos pra lá de pretensiosos levando-se em consideração outras publicações similares que morreram precocemente por falta de grana, falta de definição de público-alvo, falta de visão para lidar com as particularidades do provincianismo do ABC.
Indefinição do público-alvo não é um dos problemas da MORTAL, segundo Jairo “Nós queremos atingir um público que esteja envolvido de alguma forma com arte, cultura e política. Um público que se articula através da internet, mas que ainda precisa de uma publicação, um suporte físico referencial para se fortalecer. A revista quer ser o ponto de convergência de uma porção de iniciativas ligadas a cultura que não tem espaço em outras mídias para se fazer ouvir/representar”.
Outro temor quando se inicia um projeto editorial como esse é que a qualidade dos textos e dos temas mantenha o mesmo nível dos anteriores. A falta de pautas que valham a pena serem lidas pelo público pode levar uma publicação a falência, mesmo com todo o dinheiro do mundo a sua disposição. Assim que vi a revista (uma semana antes do lançamento, num bar de Santo André e nas mãos do próprio Jairo) pensei justamente o que meu amigo de profissão e amigo de vida também, Danilo Romeiro, sempre comenta sobre novas publicações: “Os caras recheiam a primeira edição com matérias e temas incríveis, mas só sabemos se uma revista é boa mesmo se ela continuar tendo bala na agulha pra ser inventiva e inteligente na produção dos números posteriores”. Compartilhei justamente essa preocupação com Jairo no dia do lançamento e ele me garantiu que isso não acontecerá. A segunda edição já está a caminho, sem data certa de lançamento por enquanto, mas com a mesma qualidade – ou quem sabe melhor até – que a primeira.
O primeiro número está matador. Além da equipe da revista, que conta com o próprio Jairo, sua esposa Isabel Bueno e Sérgio Godoy (vulgo Pecego) tem entrevista com Mário Bortolotto falando sobre os tiros que levou, Shiko falando sobre seus trabalhos de grafiteiro e ilustrador, entrevista com Mário Augusto – um dos lideres do movimento Escola Livre em Alerta - e até mesmo a tradução de um trecho do livro “Nova Express” do Burroughs, nunca traduzido no país. Os ensaios fotográficos estão uma belezura, André Linardi e Lucas Campos com fotos em PB incríveis. Uma charge inédita do Allan Sieber, ensaio relacionando as composições do Nego Dito! (grande Itamar Assumpção) com a literatura... ufa é coisa demais pra falar aqui nesse espaço.
Mas uma matéria me chamou a atenção. “A tática do Black Block” descreve em oito páginas, devidamente ilustradas com fotos, a história e as táticas de guerrilha urbana desse grupo criado ainda nos anos 80 na Alemanha Ocidental. É bacana perceber que esse tipo de movimento continua ativo, sempre se manifestando nas principais reuniões dos donos do mundo contra esse sistema anti-humano que é o capitalismo. Eles não são pacíficos, destroem bancos, joalherias e prédios de multinacionais. Guerrilha urbana armada mesmo! Um dos principais símbolos desse movimento é Carlos Giuliani, morto em Gênova pela polícia local. Seu último registro fotográfico ainda com vida é uma das fotos que ilustram a matéria.
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Outra sacada boa da MORTAL foi lançar um concurso de contos que logo de cara desafia os leitores. “Como estará São Paulo ou o Grande ABC daqui a 100 anos?” é o tema proposto. É tipo um exercício de ficção científica. A revista não tem fins lucrativos e sobreviverá de sua própria venda e os planos são bem ambiciosos. “Ano que vem o plano também é lançar um edição especial intitulada MORTAL 400, recheada de fotos, contos policiais, de ficção científica, entrevistas e muitas surpresas. Será uma edição histórica” prevê Jairo.
Em tempos de potencialização da internet lançar uma revista impressa no ABC é um grande desafio. A abertura para novos colaboradores será essencial à sua sobrevivência. Se o lance é ocupar o espaço, está lançado o desafio!
Veja o vídeo da festa de lançamento.
Veja o vídeo da festa de lançamento.
O site da revista é este
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