
Acho que a primeira vez que escutei essa conversa de “traidor do movimento” foi por causa dos Ratos de Porão, por volta de 1986. Diziam as más línguas naquela época, que a banda tinha virado “Metal”, e isso aqui no ABC Paulista, minha terra, em plenos anos 80 era como uma bomba, vista a guerra declarada entre os Headbangers X Punks. A banda era uma das precursoras do Punk Rock brasileiro, uma das minhas preferidas e até hoje ocupa um lugar especial na minha coleção de discos.
O João Gordo, vocalista dos Ratos, é um campeão quase que absoluto quanto o assunto é “trair movimento”. Começou nesse episódio punk contra metal, depois quando a poeira assentou, os Ratos com discos clássicos no currículo e público fiel, headbangers e punks, o mano foi acusado de trair o underground com a MTV, e por fim, agora traiu a MTV com a Rede Record.
Outro episódio clássico de “traição do movimento” foi quando o Marcelo D2, ex-vocalista da banda carioca Planet Hemp, banda conhecida pelo engajamento pró-maconha, engajamento esse que levou os integrantes da banda até pro xilindró, fez um show no centro de compras de luxo DASLU.
Agora, nesses dias estreou um novo episódio da série “traidores do movimento” envolvendo a banda NX Zero e o rapper Emicida.
O NX Zero na onda “EMOCORE” que invadiu o mundo tempos atrás, fez um sucesso desgraçado há uns dois anos mais ou menos, coisa do tipo absurda, de ir ao Faustão, ganhar uma pá de premio na MTV e tudo mais.
Já o outro envolvido, o rapper Emicida, ganhou destaque primeiro na Internet e no underground, vendeu um número significativo de uma mixtape divulgada no boca-a-boca, e por conta disso foi indicado pro VMB 2009 em três categorias. Desde então, vem conquistando espaço nas grandes mídias, mesmo sem ter gravado um disco oficial.
O bafafá é que o NX convidou alguns rappers para participarem do seu novo álbum, entre eles, o Emicida, que além de emprestar as rimas para os “roqueiros” participou do clipe de divulgação.
O que eu achei mais interessante em algumas coisas que pude ler era que, enquanto os fãs do NX apoiavam e festejavam a idéia, a rapaziada do rap descia a lenha, sem dó nem piedade.
É claro que esse caso, além de envolver questões ideológicas, políticas e etc, o “disse me disse” envolve também questões artísticas. E é exatamente nesse ponto aí que é difícil compreender, pelo menos pra mim, o porque de tanta bronca por parte dos fãs do rapper.
O cara, Emicida, conseguiu fazer o que parecia impossível, no ponto de vista artístico, que foi deixar o NX Zero um pouquinho menos chato. Um pouquinho só, mas deixou. E uma outra coisa que pode parecer insignificante agora, mas que no futuro será de fundamental importância para os nossos ouvidos, que é influenciar os fãs do NX Zero.
Enfim, sem polemizar e sem entrar em questões de gosto pessoal, a conduta do “politicamente correto” continua fazendo suas vitimas, e deixando o mundo cada vez mais chatongo. Fazer ou deixar de fazer uma coisa por uma convicção pessoal é louvável, deixar de fazer ou fazer uma coisa atrás da "convicção" dos outros é bundamolice.