- Alô, Maurício?
- Oi sou eu
- Aqui quem fala é a Ana, sou jornalista, quem me deu seu número foi o pessoal da Desmonta.
- Tá do que se trata?
- Escrevo pra um blog de cultura e arte do ABC, e você vai tocar aqui domingo.
- Hum
- E a gente ta entrevistando todos que vão tocar no Conexão África, quero marcar uma entrevista contigo.
- Ah, bacana, pode falar.
- Mas assim? Eu nem fiz o roteiro ainda, liguei pra agendar.
- Ahhhhhhh
- Como você ta de horário?
- Amanhã to complicado
- E hoje mais tarde pode ser?
- Pode sim, to livre hoje.
E assim foi meu primeiro contato, um tanto quanto desastroso, com Maurício Takara, multi-instrumentista, baterista de uma das bandas de maior prestígio no cenário da música instrumental brasileira - o Hurtmold - e que possui um dos projetos mais bacanas, inventivos e conectados com a vanguarda da música que se faz hoje no mundo, o M.Takara 3. É justamente com esse projeto que o rapaz subirá ao palco do SESC Santo André, no próximo dia 19 de dezembro, dentro do Batuque – Conexão África, projeto que (e isso não me canso de dizer) trará Femi Kuti ao Brasil. O segundo telefonema transcorreu melhor que o primeiro, e então pude trocar uma ideia de boa com Maurício.
Confira abaixo entrevista concedida ao Pastilhas
Pastilhas: Desde quando você toca profissionalmente? Porque você decidiu ser músico?
Maurício Takara: Eu toco profissionalmente há mais ou menos uns 10 anos. É até engraçado essa história de me tornar músico porque eu não decidi me tornar músico. Minha família inteira é de músicos, tenho dois irmãos que trabalham na área como produtores, meu pai é músico, tem um estúdio. Então desde os 7 anos eu toco algum instrumento, quando vi estava na área.
Pastilhas: Apesar de ter algumas letras em suas músicas, o foco mesmo é a música instrumental. Como que é o processo de criação?
Maurício Takara: Eu não tenho um processo fixo de criação. As vezes eu começo com a harmonia, as vezes com o ritmo, as vezes até mesmo com a letras. Na maioria das vezes componho as letras com amigos, no caso dois amigos, o Lauro e o Tiago Mesquita, que me trazem letras prontas ou compomos juntos. Mas o processo criativo não é fixo. Às vezes tenho mania de exercitar composição e criação mesmo que eu não use. Gosto de saber pôr em prática a criação. É bem um processo de sentar e ficar em cima de um instrumento ou outro, ou em cima de ideias.
Pastilhas: A influência do afrobeat é bem presente nas músicas do seu disco novo “Sobre todas e qualquer coisa” Fale um pouco sobre essa influência?
Maurício Takara: Fui reparar que tinha influência do afrobeat depois de ouvir o CD inteiro, já pronto. Sempre gostei de música africana (a própria Nigéria, Congo, Senegal) e de música africana do mundo inteiro, como nos ritmos brasileiros, na música do caribe, na música afro- americana. Na verdade se você for ver a música africana influenciou toda a música que a gente ouve hoje em dia. E acho que essa influência (do afrobeat) tem a ver com meu trio com o qual faço esse disco. É um trio bem percussivo, porque tem uma bateria, percussão e guitarra. E o guitarrista toca percussão em algumas músicas, ou seja,a batida percussiva é bem presente, o que remete muito aos ritmos africanos.
Pastilhas: Como é o seu processo de pesquisa, principalmente dos samples? Você grava samplers de material de pesquisa ou você grava seus próprios samplers?
Maurício Takara: Eu uso bastante samplers, mas eu uso de forma processada. Eu uso as duas formas. Eu mesmo capto sons na rua e por onde passo. Nem tudo que capto eu uso, mas ta lá de referência. Agora quando eu tiro um sampler de um som que conheço eu tiro de seu contexto original, porque geralmente é algo que eu gosto muito, então tento dar outro significado ao som.
Pastilhas: Seu disco soa ou ecoa ventos de diversas partes da África (como os timbres). De que forma seu som se conecta com o som do Femi Kuti e do Fela?
Maurício Takara: Eu tive muita influencia do Fela Kuti. A primeira vez que ouvi o som, e até tava conversando com um amigo meu esses dias, a universalidade do som do cara é incrível. Porque é tipo o reggae da Jamaica que todo mundo gosta, não tem como não gostar, é difícil achar alguém que não goste. É um som universal e ao mesmo tempo super complexo, cheio de história e de qualidade técnica. Foi através do som do Fela Kuti que eu comecei a ouvir o som da própria Nigéria e outros países africanos. É uma enorme influência pra mim, tanto rítmica quanto harmônica.
Pastilhas: A voz em seu disco parece sempre estar em segundo plano, com efeitos. Por quê?
Maurício Takara: Acho que vem muito do fato de eu nunca ter sido cantor e nunca me sentir apto para cantar. Apesar de gostar muito de cantar nos shows. Nesse meu disco não rola uma hierarquia dos instrumentos e com a voz não é diferente. Eu gosto de colocar efeito na voz justamente pra dar essa ideia de uniformidade.
Pastilhas: Você já tocou no ABC alguma vez? O que espera do show de domingo?
Maurício Takara: Sim, no antigo projeto Indie Hip Hop diversas vezes com meu amigo Rodrigo
Brandão (Mamelo Sound System). No SESC Santo André uma vez fiz um show com uma instalação, mas nunca com o Hurtmold ou com meu projeto solo.
Tô bem animado, porque eu já fui várias vezes nesse SESC como visitante, ver shows etc., mas com esse trio (Rogério Martins percussão e Guilerme Valério guitarra) eu nunca toquei no ABC. E faz tempo que eu não toco com esse trio, lançamos o disco primeiro fora do país e fizemos poucos shows em São Paulo. Estou bem animado. Sem contar que vamos ver o show do Femi Kuti, o cara vai vir com uns 15 ou 16 músicos e parece que as pessoas não estão entendendo direito o que vai ser isso. Vai ser um show “pedrada na cabeça”. A gente vai estar lá fazendo um som e os caras vão entrar destruindo tudo, no bom sentido.
Pastilhas: Quais os planos para 2011?
Maurício Takara: Eu procuro não planejar demais, ainda mais nesse esquema de músico de médio pra pequeno porte como eu vivo, porque sempre aparece coisa de última hora pra fazer, tocar com gente diferente, viajar. O Hurtmold está compondo algumas músicas e é capaz de lançar disco novo no ano que vem. Agora, com esse projeto solo, eu quero curtir mais um pouco esse lançamento, porque faz tempo que eu não curto tanto o lançamento de um trabalho como eu estou curtindo o desse último disco. Então com o projeto solo quero curtir mais esse disco, fazer mais alguns shows e ir compondo devagar, para quem sabe, lançar algo novo em 2012.
