Do Vinil pro CD ou Vice Versa - Rolling Stones (Tattoo You)

Em 1989 completei 16 anos de idade, comecei a trabalhar com serigrafia, assisti meu primeiro show de rock e comprei meu primeiro disco dos Stones, o “Tattoo You”.

Até hoje essa pérola figura nos “mais mais” na discografia dos caras na minha opinião, não só pelo conteúdo musical, o lado B desse disco é uma das coisas mais sensacionais que uma banda de rock já produziu, mas também pelo lado afetivo.

Quem me apresentou os Stones foi um cara chamado Fernando, um grande figura que conheci no meu primeiro trampo com silk screen, ele era o impressor chefe da estamparia e roqueiro da velha guarda.

Eu também não era nenhum novato no rock and roll, apesar da pouca idade já tinha minhas preferências, na época o punk rock, e dentro das possibilidades buscava informações sobre bandas e discos legais.

A impressão que eu tinha até aquele momento dos Rolling Stones vinha da letra de “Festa Punk” dos Replicantes: “Quero uma festa que não tenha Stones / Gosto muito deles, mas quero os Ramones”, gritava Wander Wildner e seus comparsas. Eu era o fã número um dos Ramones, e no auge da minha sabedoria punkroquística, era só isso que realmente importava.

Na época tinha um rádio gravador no trampo que ficava sintonizado na finada 97FM o dia todo, aí, aproveitando o gosto do chefe rocker, comecei a levar umas fitas pra gente escutar de vez em quando , tínhamos várias coisas em comum, bandas nacionais como IRA!, Camisa de Vênus e Titãs eram as nossas preferidas.

Um dia o Fernando chegou com uma fita e falou que era o “Tattoo You” dos Stones, alguns dias antes tinha rolado “Start me Up”, faixa que abre esse disco, no rádio e acho que comentei alguma coisa do tipo: até que é legal esse som, ou coisa assim.

Cassete rolando e a já citada e conhecida “Start me Up” acaba e o inédito, pra mim, começa a empolgar, e bastante! “Hang Fire”, “Slave”, uma melhor que a outra, aí o cara começa a dizer que o lado B do disco era demais e coisa e tal.

“Neighbours”, a ultima do lado A, vai terminando em “fade out” e minha expectativa pelo tal lado B não poderia ser maior. Eu gostaria de ver a minha cara quando os primeiros acordes de "Worried About You" começaram.

- Porra! Ô Fernando, isso é lenta! Cadê o rock?

Já falei tirando uma, e o cara com ares de professor de Geografia, que são sempre os mais doidões, retrucou:

- “Isso é psicodélico, seu tonto!”

Eu lá ia saber que porra era “psicodélico”, pra mim era lenta, músicas chatas que rolavam nos bailinhos e que só as minas gostavam.

Certamente se eu estivesse ouvindo o disco sozinho tinha desligado e xingado até a última geração do viado que tinha me indicado aquela merda. Mas eu não estava sozinho.

Veio “Tops” com um vocal em falsete cheio de efeitos e o comentário que aguçou o interesse pelo restante do álbum:

- “Você tem que cheirar benzina pra ouvir esse som aí!”

- Ah é ?

A cada faixa mais explicações sobre os efeitos da benzina, como usá-la, e sobre os tais sons psicodélicos. Quando o disco acabou, eu já estava imaginando como realizar a tal experiência ilícita.

Algum tempo depois dessa iniciação, consegui comprar o “Tattoo You”, o álbum já era habitué no toca-fitas do trampo e o famoso lado B, ainda sem benzina, era o mais apreciado.

A experiência sugerida pelo meu amigo foi devidamente executada algumas vezes na tranqüilidade do meu quarto, e posso garantir que foi um barato!

A versão digital eu nem me lembro quando e como adquiri...

Bom, mas quem se importa?
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