Do Vinil pro CD ou Vice Versa – AC/DC - Let There be Rock

Em 1988 eu arrumei meu primeiro trampo, ajudante de caminhão, e foi nele que, por um acaso, conheci o disco que mudaria o rumo das coisas e me prepararia para enfrentar a loucura musical dos anos 90.

Como já repeti por aqui várias vezes, o “Punk Rock” foi a minha primeira escola musical, e junto com a música, algumas “doutrinas” eram oferecidas no pacote, odiar o “Heavy Metal” era uma delas. Aí você já sabe, né?!

Naquela época a informação era no boca à boca, alguma coisa como aquela brincadeira do telefone sem fio, saca?! Quando a noticia chegava no décimo receptor já não tinha mais nenhuma virgula do texto original, mas mesmo assim viravam verdades absolutas em ouvidos adolescentes ávidos por uma nova descoberta.

Era daí que eu tirava minha opinião sobre o tão famigerado “Heavy Metal” e sobre os “Headbangers” ou “Metaleiros”, uma visão meio Rede Globo na cobertura do Rock in Rio de 85, que colocava tudo numa panela e vendia para o público como isso ou aquilo. Até o Queen do Fred Mercúrio era “Heavy Metal” para os sábios repórteres da “Prim Prim”.

Quando comecei a trabalhar no auge dos meus 14 anos, eu já tinha toda a marra contra os tais cabeludos e afins, só que não existia só “Metaleiro” no mundo, haviam outras vertentes musicais e seus fiéis seguidores. E foi nesse meu primeiro trampo, que meu parceiro de trabalho me apresentou o universo dos “Função”.

É! Os “Mano” de hoje eram os “Função” de ontem. Rapaziada que ouvia "Funk", "Soul" e "Rap", apesar de eu não me recordar muito do termo "Rap" naquela época, era tudo “Funk” ou "Break": Afrika Bambatta, James Brown, GrandMaster Flash, Stevie Wonder e por aí vai...

Bom, mas alguma coisa tínhamos em comum à principio, além do mesmo emprego é claro! Odiávamos os “Metaleiros”! Quer dizer, ele não gostava de “Rock”, que na visão dele era tudo que tinha guitarra “pesada” e “gritaria”, e dentro do seu pacote, “Punk”, “Heavy” e afins era tudo a mesma merda.

Apesar das diferenças musicais ficamos amigos, ou melhor, colegas de trabalho. O trampo era pesado pra caramba e a camaradagem era o que refrescava o ambiente. Imagina só você descarregar um caminhão cheio de barras de alumínio e depois não trocar uma palavra com o seu parceiro, porque ele não gosta da mesma música que você?! Seria uma idiotice tremenda, e nós não éramos idiotas.

Foi dessa camaradagem que, num belo dia, esse mano chegou com uma sacola debaixo do braço e me perguntou se eu não queria uns discos de rock, que o tio dele tinha lhe dado de presente. E ele ainda me intimou:

“Cê num é Roquero, porra? Então... Eu é que num gosto dessas merda aí!”

Na hora pensei em recusar, pois tinha certeza que não seria nada do que eu escutava, mas numa fração de segundos voltei atrás e aceitei, já vislumbrando a possibilidade de poder trocá-los por algum título dentro dos meus conceitos. Eu tava louco por um exemplar do “Crucificados pelo Sistema” do Ratos de Porão, e essa poderia ser a oportunidade de consegui-lo.

Eram dois discos na sacola: “Let There be Rock” do AC/DC e “Aces High” do Iron Maiden. Cheguei em casa e muquiei os dois atrás dos discos de samba do meu tio, assim não correria o risco de algum colega meu encontrar “aquilo” no meio dos meus discos.

Passados alguns dias ou semanas, sei lá, sozinho em casa numa tarde de sábado meia boca, resolvi escutar aqueles dois “objetos da oposição” antes de passá-los pra frente. Só por curiosidade.

O primeiro foi o “Aces High” do Iron, não conhecia aquela música, mas a banda não era nenhuma novidade, pelo menos a imagem do mascote da banda, o Eddie, já era bem familiar aqui no meu bairro. Ouvi o disco todo, era um EP com 3 ou 4 faixas, e confesso que a faixa título me prendeu a atenção, mas nada demais.

Aí chegou a vez do AC/DC, ou Acê Decê como falávamos na época e como eu falo até hoje, e já na primeira faixa a coisa começou a ficar esquisita. “Go Down” abre a bolacha e tem uma daquelas levadas clássicas da banda, e por mais que eu quisesse negar, eu tava gostando daquilo. Fudeu!

A coisa foi andando e “piorando”, era uma faixa mais legal que a outra, “Let there be rock” faixa que dá nome ao álbum era a terceira e era rápida, não a rapidez das bandas de hard core que eu estava acostumado a ouvir, mas era frenética, pulsante, explosiva, não tinha refrão e eu nunca tinha escutado uma coisa tão emocionante assim antes.

Para resumir a história, que já está maior que as do Marcelo Mendez, relutei um pouco, mas acabei ficando com os dois álbuns pra mim. Esse foi o principio de uma mudança que ganhou corpo quando descobrimos o tal do “Trash Metal” no começo dos anos 90. Enfim...

A versão em CD do “Let There be Rock” comprei na banca do Toninho, um dos mentores musicais da rapaziada aqui de Santo André, junto com o “High Voltage” e o Powerage”, todos com o finado “Bon Scott”.

Assisti a turnê do álbum “Ballbreaker” em 1996 no estádio do Pacaembu, e mesmo depois de altos e baixos na discografia, durante os anos 80 e 90, quando as luzes apagaram e os primeiros acordes de “Back in Black” saíram das caixas, senti a mesma sensação daquela tarde meia boca de sábado.

"It's the long way to the top if you wanna rock and roll!"
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