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| Estúdio de Roteiros Garoa Fina |
Por Bruno Módolo |
Hoje iniciamos uma nova parceria que, pessoalmente, espero durar muito tempo e resultar em vários outros trabalhos.
Bruno Módolo e Rodrigo Oliveira, do estúdio de roteiros Garoa Fina, irão colaborar conosco falando sobre um tema que dominam muito bem, cinema e TV.
Abordaremos na coluna "Por trás da tela" os meandros do cinema e tudo que gira em torno da sétima arte e televisão, desde o roteiro até as críticas, por diferentes ângulos e aspectos.
Pra começar, vamos de cara partir para o "THE END".
Divirtam-se
O fim do filme
Por Bruno Módolo
Surpresas devem existir no final de um filme. As histórias que mais marcam são, geralmente, aquelas com um desfecho forte, que encerram de fato a trama. O inesperado ajuda muito a criar essa surpresa. O roteirista precisa fazer o público pensar uma coisa e depois revelar outra. Mas é ai que mora o perigo.
Muitas vezes a primeira idéia ao tentar escrever um final surpreendente é criar a seguinte situação: tudo não passou de um sonho ou uma imaginação. O que o personagem viveu não era de verdade. Os conflitos, os amores, as brigas, as angústias foram alucinações. E assim o roteirista acha que foi surpreendente, porque o público acreditou até o último minuto em uma coisa, mas de repente tudo virou mentira, invenção do personagem. Isso é surpreender e errar ao mesmo tempo.
O correto de ser surpreendente é ligar o final diretamente ao raciocínio elaborado pela história, esclarecer à premissa e não explicar tudo por meio do acaso. Em outras palavras, o final tem que ser uma conclusão. Quanto mais surpreendente for a conclusão melhor.
Vamos mais a fundo nisso. Imagine uma história que gira em torno de uma conspiração. Cena após cena a conspiração vai ganhando força e pistas para ser desfeita, até que então, no final, o roteirista diz: esqueça o que viu, tudo isso não passou de imaginação. Porque está errado? Por que o filme não conclui nada, simplesmente muda o rumo bruscamente e tudo o que você foi desenvolvendo é jogado fora. Se eu estivesse vendo o filme xingaria o roteirista porque esperei 2 horas para perceber que fui enganado. O acaso responde tudo o que o roteiro desenvolveu só que não é o bastante para fechar nada. Ai você pode perguntar: mas e se o roteirista queria um final aberto? Isso não tem nada a ver com final aberto. A história tem que ser encerrada, mas o tema não precisa. Final aberto é o final que permite ao público refletir sobre o tema e entender o que quiser, mas a experiência com os personagens, com a história e o raciocínio proposto pelo filme precisam acabar.
O filme Os Suspeitos, escrito por Christopher McQuarrie é um bom exemplo. Você assiste por um tempão ao depoimento de um homem esquisito e frágil. Ele fala detalhe por detalhe sobre o perigoso Keyser Soze, vivido por Kevin Spacey. Aos poucos você vai pegando admiração pelo Keyser, vai desenvolvendo o raciocínio e se perguntando: como esse cara pode ser tão esperto? Como ele vai escapar? E no final, você tem a revelação. Esse homem esquisito e frágil era o poderoso Keyser Soze? Ele estava o tempo inteiro dentro de uma delegacia e ainda conseguiu escapar? Ninguém se sente enganado. O raciocínio principal desenvolvido é: quem é Keyser Soze e como ele vai fugir da polícia. Isso é resolvido de maneira surpreendente, mas o público pode continuar refletindo sobre o tema e questionar, por exemplo, se o crime compensa.
Outro exemplo é o filme O Sexto Sentido, escrito por M. Night Shyamalan. O final traz a revelação de que tudo foi uma quase verdade, foi na realidade uma experiência espiritual. Por que o roteiro não erra? Porque a discussão do filme não está em isso é verdade ou mentira. O personagem Malcolm Crowe, interpretado por Bruce Willis estava vagando por aqui e nem imaginava que estava morto, do mesmo jeito que o público pensava. Quando descobre que não está vivo, ele entende porque sua esposa não o ouvia. O filme é concluído depois dessa descoberta, encerrando o raciocínio de que alguns espíritos podem ficar vagando enquanto buscam ajuda. Esse final vai além de esclarecer se o Malcolm estava morto ou vivo.
Por isso, para um bom roteiro, deve-se ter em mente exatamente onde se quer chegar. Pensar em todas as possibilidades de conclusão que o público pode desenvolver ao longo da história e então, trabalhar nesse ponto para criar um desfecho totalmente diferente e surpreendente. Nunca criar um final que anula tudo o que foi compreendido durante o filme.
Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Acesse o site e conheça os trabalhos realizados.
