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Assista ao documentário 'Quebrando o Tabu' na íntegra


Por Bruno Módolo | 

Quebrando Tabu é um documentário que revê a maneira como as drogas são combatidas pelos governos. Um filme que não fica restrito apenas ao universo do cinema, pois provoca uma discussão que transcende para nosso cotidiano. Aliás, o assunto precisa cada vez mais invadir nosso dia-a-dia.

Quase 3 anos de trabalho, mais de 400 horas de material gravado e inúmeras horas de debate criativo para se chegar ao resultado final. Um trabalho árduo, bem conduzido pelo diretor Fernando Grostein Andrade e sua equipe da Spray Filmes.

Foram dois os grandes desafios superados para realização do filme. O primeiro foi abordar esse tema defendendo pontos polêmicos, como por exemplo, a descriminalização. O segundo, e mais importante, foi aprender a enxergar a questão das drogas como problema de saúde e não como policial. É difícil mudar o paradigma, o ponto de vista de algo tão enraizado em nossa sociedade. Para isso, a participação do presidente Fernando Henrique Cardoso no documentário foi fundamental.

Como ex-chefe de estado que assumiu falhas em sua gestão e aos 80 anos, se dispôs a aprender sobre o assunto, não teria porque nós, cidadãos, mantermos a cabeça fechada. Como ele mesmo disse no filme: “só quem é burro não muda diante de fatos novos”.

Vale muito a pena assistir e também ter o filme. Para perceber a sua importância, é só notar a conduta da prefeitura de São Paulo na questão da cracolândia. Parece que não assistiram ou não aprenderam nada.


Bruno R. Módolo é sócio do estúdio Garoa Fina e foi um dos roteirista do documentário "Quebrando o Tabu".
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Por trás da tela - Cinema falado

Cena do filme Big Fish, de Tim Bourton.
Por Bruno Modolo | 

Cinema é imagem, emoções e conflitos traduzidos para imagens. Partindo disso, há quem critique o uso de diálogos, de narrações e até mesmo da música. Tudo tem que ser em silêncio, a interação dos personagens tem que ser só com gestos e olhares, as ações se desenrolando sem ninguém abrir a boca. Talvez não seja bem por ai.

Que a imagem tem que contar tudo isso sim, que as cenas precisam acontecer e não serem explicadas, é verdade, mas o uso da fala no cinema é importantíssima. Entre os filmes mais falados de todos, e nem por isso são ruins, estão os de Woody Allen. Todas as cenas têm diálogos quase que intermináveis, sempre sobre arte, política, filosofia e um monte de coisa que não faz parte do mundo dos mortais. Alguns filmes do Woody são brilhantes, outros nem tanto, sem tem a ver com o excesso de falas.

O filme Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas, de Tim Burton, é bom, emocionante e tem uma quantidade de narração impressionante. Só que a narração não atrapalha, não conta as coisas que estamos vendo na tela e sim conduz a gente pela história. Tropa de Elite 2, de José Padilha, peca, pelo contrário, em algumas partes pelo exagero na narração, que explicam os pensamentos do Capitão Nascimento, mostram as coisas que já estão na cena, mas nem por isso deixa de ser um grande filme. É só um deslize que aconteceu.

Por isso que as obras de Michelangelo Antonioni, considerados um os mestres do cinema europeu, com filmes contemplativos, silenciosos, são bons exemplos para o uso do diálogo. Seus trabalhos não são totalmente calados, porém nenhuma conversa é gratuita, nada é inserido para explicar o que o personagem está sentindo ou vai fazer, tudo é criado para ajudar o filme a acontecer.

Os diálogos e narrações podem ser usados porque nós somos seres falantes, fofoqueiros demais, ficamos irritados se não tem ninguém com quem conversar. Criar metáforas visuais para tirar os diálogos das histórias só vai tornar tudo maçante, exigindo demais do intelecto e correndo o risco da história não ser compreendida.

Se há o ditado que, uma imagem vale mais do que mil palavras, podemos criar o inverso. Pense na seguinte situação: Você entrega o trabalho para seu chefe ou cliente, que depois de analisar, olha para você sorrindo. Isso revela que ele ficou satisfeito. Mas se ele sorri e diz, “caralho”, revela que ele ficou extremamente satisfeito. Uma só palavra aumentou muito mais a força da cena do que um milhão de metáforas visuais juntas.

E parabéns Pastilhas Coloridas. É só o primeiro ano.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Atitude

Por Bruno Módolo | 

Cena de "Louca Obsessão", adaptação da obra de Stephen King
A melhor maneira para mostrar sua verdadeira personalidade é agir. Ficar falando e falando não leva a lugar nenhum, nem faz com que as pessoas percebam quem você é alguém. O discurso sem ação não convence ninguém, se torna chato e faz as pessoas serem ignoradas. Se no cinema, onde o público tem que acreditar nos personagem, a ação for zero, a catástrofe é inevitável.

E ação não são apenas bombas explodindo, perseguições de carros e tiros. Não. É atitude, tomar uma decisão e fazer acontecer. Se vai dar certo ou vai dar errado, não importa, pelo menos alguma coisa tem que ser feita.

Diante de uma decisão percebemos o caráter das pessoas. É aquela velha história, o que você faria se encontrasse uma mala cheia de dinheiro na rua? A sua escolha vai dizer quem você é. No filme Um Ato de Coragem, de Nick Cassavetes, o personagem John Q, interpretado por Denzel Washington, invade um hospital e rende todos os funcionários para tentar salvar o filho. Comete um crime, paga por ele, mas essa atitude puxa a história e mostra quem é aquele homem.

Uma ação provoca reação nas pessoas ou na sociedade, e quem a tomou tem que seguir em frente, continuar defendendo sua decisão e mostrando coragem. Porém, pode também desistir, voltar atrás e mostrar covardia. São atitudes que levam a vida ou o filme pra frente. Um dos erros mais comuns em roteiros é deixar o acaso fazer a função das atitudes. Tudo bem, às vezes encontramos o amor por acaso, vemos uma situação que nos comove por acaso, mas ninguém no mundo é passivo a ponto de não fazer nada e esperar que o acaso resolva tudo.

No filme Louca Obsessão, de Rob Reiner, o personagem Paul Sheldon, interpretado por James Caan, fica imóvel na cama o tempo inteiro, mas faz alguma coisa, age dentro do possível e por isso grudamos na cadeira para descobrir como vai acabar. Já no filme Cabra Cega, de Toni Venturi, o começo tem tanto acaso que fica arrastado, demorando a engrenar.

Fazer o personagem decidir por algo, agir e defender sua escolha é fundamental para que o público torça por ele. Vale pra gente também na vida. Quem quiser ser alguém, não precisa salvar o mundo ou ser inovador, basta agir dentro da própria capacidade.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Bom adaptado para o ruim

Por Bruno Módolo | 

Não é garantido que um best seller, uma peça que lotou teatros, um clássico dos quadrinhos ou qualquer outra história famosa vire um filme bom. Porque, primeiro de tudo, cinema é diferente das outras artes. A maneira como o cinema tem que ser pensado não é igual. E segundo, o público pode ter mudado. Muitos sucessos em outras artes demoraram anos para virar o que são, assim, os fanáticos acabam ficando pra trás e os mais jovens nem sabem do que se trata.

Outros fatores também influenciam, mas ai entra na questão da produção cinematográfica, como no caso de Lanterna Verde, uma adaptação que virou um grande filme ruim. Supondo que Lanterna Verde fosse uma ideia original, seria pior ainda porque a produção falhou. O ator não segura o papel, os efeitos especiais são medianos e até o roteiro abusa dos clichês. Com isso tudo, só não vai virar um dos piores filmes de todos os tempos porque tem a força do Lanterna Verde, grande super herói da DC Comics, que vai usar seus poderes para amenizar tudo.

A franquia Homem Aranha apresenta os dois lados, filmes excelentes e filmes horríveis. E nesse bolo podem entrar Super Homem, Batman, Hellboy e muitos outros. Falando de adaptações do teatro, no Brasil, Irma Vap foi um grande sucesso nos palcos, mas um horror nas telas. Caixa dois então, nem precisa falar. O Apanhador de Sonhos, adaptação do livro de Stephen King é um filme horroroso, embora o livro seja visto como bom dentro dos padrões Stephen King. Agora, Um Sonho de Liberdade, também adaptado de um livro de Stephen, é um grande filme. Mesmo caso de Cidade de Deus, onde o filme superou o livro escrito por Paulo Lins.

Clique na figura e veja o trailer
O filme Perfume, a História de Um Assassino, adaptação do livro O Perfume de Patrick Süskind, é considerada uma das grandes adaptações do cinema, porque o livro tem uma característica bem particular, de literatura e que o transforma num grande romance. A essência disso foi bem entendida pelo diretor do filme, Tom Tykwer, e pelos roteiristas, por isso o filme é realmente bom, tanto quanto o livro.

E é por ai que podemos explicar o que acontece com as adaptações. Os filmes têm que ser concebidos de maneira diferente, pensados isoladamente da história original. Num filme adaptado, os conflitos e o arco do personagem não precisarão ser pensados, porque tudo já foi criado pelo artista autor do original. O que tem que ser pensado é como levar a essência para as telas. Em Perfume, Tom se preocupou muito em como fazer o público ter as mesmas sensações e emoções que os leitores tiveram, pois o resto já estava bem criado.

Parece que em algumas adaptações são displicentes, não respeitam a essência das histórias e ainda esquecem o público. Essas adaptações ruins se prendem à força das histórias nas outras artes, só que isso não será suficiente. O resultado final é um filme que não tem nada do original, nem cara de novo, é um limbo gigante onde o público é jogado. Realmente, fazer uma adaptação é difícil, exaustivo e muito perigoso. Quem quer moleza, dinheiro fácil, é melhor procurar outra coisa.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Configurando a história

Cena do filme Mad Max, um bom exemplo de set up bem feito.
Por Bruno Módolo | 

Há um motivo para os filmes caírem no agrado ou no desagrado logo aos primeiros minutos. Todo começo é difícil. Em um relacionamento, num novo trabalho, numa mudança de vida, numa dieta. Sempre é difícil começar. É um momento de questionamentos, avaliações, onde a mente está ativa, querendo conhecer tudo ao mesmo tempo para tirar conclusões.

Nos filmes é assim também. Assim que os primeiros segundos são exibidos, a gente já quer saber quem são os personagens, a que tipo de história assistiremos, onde se passa e aonde tudo isso chegará. Se conseguirmos tirar alguma informação útil, ótimo, prestaremos atenção no filme. Mas se for confuso, não disser nada com nada ou de propósito, as informações forem escondidas só para causar o efeito surpresa, detestaremos o filme. Por isso, escrever um bom começo tira o sono dos roteiristas.

É comum chamar essa parte da história de set up, e é também muito comum errar nessa configuração. Estabelecer todos os elementos do filme no começo, de maneira coerente e interessante é difícil porque certas escolhas têm que ser feitas, detalhes tem que ser avaliados e isso dá muita margem para os erros. Se esquecer de alguma coisa, principalmente de revelar quem é o personagem e o que ele quer, o público vai acompanhar a história sem saber que rumo seguir, e sem demora, vai perder o interesse.

A Inquilina, de Antti Jokinen e estrelado por Hilary Swank é um exemplo de como o set up pode ser mal feito. O filme tem 90 minutos, aproximadamente, e nos primeiros 40 minutos é mostrado um monte de baboseira que não vai fazer sentido no resto do filme. Conflitos amorosos, conflitos familiares, suspenses rasos e outras coisas que vão se arrastando e gastando o tempo do filme. Depois, tudo tem que ser resolvido as pressas e assim não dá tempo de curtir o vilão, torcer pela mocinha, ter medo das situações. Além disso, quase tudo o que é estabelecido no começo não precisaria ser contado.

Um bom exemplo de set up bem feito é Mad Max, de George Miller, rodado em 1979. É o primeiro filme da trilogia e nos primeiros minutos tudo é estabelecido e você já se vê torcendo pelo Max, vivido por Mel Gibson. Fora que fica angustiado desde o primeiro take ao se imaginar naquele mundo cão.

O segredo de todo começo, inclusive para a vida, é ser claro e sincero. Ficar escondendo as coisas, mascarando para parecer legal e inteligente, será um tiro no próprio pé. Tem que falar a verdade para o público, tem que ir direto ao ponto, sem firula. Saber o que e porque está contando o filme, ajuda a avaliar o que precisa ou não. Após a escolha, o roteirista pode elaborar melhor. Só não adianta inventar moda se nem as medidas do manequim são conhecidas.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Quanto vale o prêmio?

Fachada do Theatro Municipal de Paulínia, onde acontece anualmente o Festival de cinema da cidade
Por Bruno Módolo | 

A Febre do Rato, de Claudio Assis foi o grande vencedor do Festival de Paulínia de 2011. Ano após ano, o festival vem se tornando o mais importante do país, e tão logo vai superar o tradicional Festival de Gramado. Eventos como esses são importantes para o cinema, não só no Brasil como no mundo. É uma ponte para lançamentos, um teste para os filmes, a grande hora para se reconhecer os bons e os péssimos trabalhos. Mas uma coisa é certa, no fundo, esses prêmios não valem nada.

Existem tantos por ai e todos entregam uma quantia em dinheiro. É muito bom para os artistas premiados. Ganhar dinheiro é bom. Mas um filme premiado nem sempre significa que é realmente o melhor. Não há critério objetivo e racional para se avaliar um filme. É puramente gosto. É claro que os juízes dos festivais são pessoas do meio, entendidas no assunto e muito inteligentes. Filme ruim a gente exclui na hora. Só que não tem como se avaliar uma obra artística e dizer que essa é melhor que aquela, cada um compreende de uma maneira. Não dá para comparar um drama político com um drama pessoal, se os dois filmes forem bem construídos, bem realizados e emocionantes dentro de suas proporções. São apelos diferentes e nada racional justificará a escolha de um ou de outro.

Na Ginástica Olímpica, por exemplo, os atletas são avaliados por itens bem racionais. Os juízes medem a precisão do movimento, o grau de dificuldade, se cumpriu o plano como anunciado. E vão tirando décimos da nota para cada erro. Quanto mais grave for o erro, mais pontos são tirados. Fica bem claro para o atleta trabalhar a sua perfeição.

A avaliação dos filmes nos festivais de cinema não é como a da ginástica. Não avaliam: o roteiro, a fotografia, a atuação dos atores e vão tirando pontos pelos erros. Tudo é muito subjetivo. Tanto que quase nunca os escolhidos são unânimes e o prêmio do júri quase sempre é diferente da escolha popular.

Analisando a cena de Beleza Americana, onde o Lester Burham, interpretado por Kevin Spacey, está voltando para casa fumando um baseado e ouvindo American Woman depois de pedir demissão, podemos tirar duas conclusões. Se você já passou por um momento como esse, onde se sentia preso por alguma coisa, privado de curtir coisas que antes curtia, vai se identificar com a atitude do personagem. Mas se você nunca passou por isso, vai achar a cena ruim, preguiçosa e muito superficial. Se você for um juiz de festival, pode derrubar ou levantar o filme só por isso.

No Oscar de 2011, O Discurso do Rei foi o grande vencedor. Será que é o melhor filme mesmo? Ou é o melhor entre os que competiram? E se estivesse em 2004, quando o Senhor dos Anéis O Retorno do Rei arrebatou 11 prêmios, será que venceria? Entre os dois, qual é o melhor?

No fundo, não interessa. Ter um prêmio de cinema é ótimo para o ego do artista. Se for um grande prêmio, seja do cinema comercial ou independente, é ótimo para os negócios. O mais importante é se o público realmente gostou do filme, se ficou envolvido e comprou a história. Esse sim é o melhor prêmio para se orgulhar de ganhar.

Por isso, Guerra ao Terror poderia devolver o Oscar de 2010.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Cinema descartável

Por Bruno Módolo | 

"Cilada.com". O nome já entrega...
O objetivo é levar 2 milhões de pessoas para os cinemas. Já no primeiro fim de semana levou quase meio milhão, e por isso, é considerado um dos grandes sucessos do ano e o 6º inicio de todos os tempos. É o Cilada.com, filme de Bruno Mazzeo, que está atraindo muita gente, mas rechaçado pelos críticos. O que isso importa?

2 milhões de pessoas é só quase 1% da população brasileira. Pelo ponto de vista das marcas de bilheteria no país, o número passa a ser bom. Houve um grande esforço de publicidade para o lançamento, que é uma grande estratégia. É um formato consagrado na Globo, opção bastante confortável para atingir o sucesso. Porém, o filme não deixa de ser péssimo.

Não importa se está fazendo bilheteria, se tem gente que está feliz com o resultado. Não significa que é a nova tendência para se fazer sucesso no cinema nacional. É um estilo de filme e nada mais. É uma pequena parcela da população brasileira que vai ao cinema vê-los, e boa parte não são freqüentadores assíduos das salas exibidoras. Há espaço para os outros filmes sim, há público para os outros filmes sim. Deixa estar.

Um grande filme comercial, feito especialmente para arrecadar bilheteria, marca nossa mente. Quem não se lembra de Os Trapalhões, Curtindo a Vida Adoidado e Os Gonnies? Foram filmes feitos para divertir o público e criados por artistas que sabiam o que era um bom cinema de entretenimento. Depois de assistir a filmes assim, relembramos as cenas nas conversas e temos vontade de revê-los anos depois.

Grandes filmes de arte também marcam nossa história, porque nos fazem refletir sobre nossa sociedade, nossa vida, sobre nós mesmos. Lembramos deles a todo instante, mais até do que os filmes comerciais bons, porque certos filmes de arte nos inspiram a sermos diferentes, enxergar o mundo de maneira diferente.

Filmes como Cilada.com são descartáveis. Quem o assistir dá risada na hora, sai do filme e segue a vida. Pode comentar com os amigos no dia seguinte porque está fresco na memória. Mas depois de um tempo o esquece, não vai discutir sobre a história na mesa do bar. E qual o problema disso? Nenhum. O filme cumpriu seu papel. Foi produzido, exibido, levou bom público, depois vem outro filme no lugar e a vida segue. Filmou, lavou, tá novo.

Podem deixar filmes assim acontecerem. O mundo não vai mudar.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - A batida perfeita

Por Bruno Módolo 

Uma das primeiras coisas que gritam em um roteiro ruim é o diálogo. A sensação de que as palavras foram colocadas a força na boca dos personagens, lições de moral que não conduzem a história e conversas sem sentido que não servem como papo furado para entreter o público. Tudo isso incomoda e nos tira do filme. Além de prestar atenção nas características dos personagens para escrever as falas, o roteirista também tem que prestar atenção no sentido e no ritmo do diálogo. E um dos segredos para isso é o que chamamos de Beat.

Cada diálogo tem que ter uma função, tem que levar a história para algum ponto e conduzir o publico junto. Não é um monte de frases bem construídas, de impacto. Com o objetivo definido, vem a construção da conversa, que para ser interessante tem que ter ritmo. O Beat é uma batida mesmo, uma troca de valores entre os personagens que cadencia o diálogo.

No famoso diálogo non sense entre Jules Winnfield e Vincent Vega, em Pulp Fiction, quando falam sobre sanduíche, percebemos nitidamente o objetivo e os beats. O objetivo do diálogo daquela cena é revelar mais da personalidade de cada um, e nada melhor do que uma conversa fiada para saber como as pessoas vêem a vida. Um é mais temeroso e o outro é mais despreocupado. Quando Vincent pergunta se Jules sabe como se chama o Quarteirão com Queijo em Paris, Jules responde que não, reage descrente, duvidando da conversa. Isso é um Beat. Vincent fala algo positivo e Jules reage negativamente, criando uma inversão de valores. A inversão provoca Vincent a ser ou mais positivo para convencer Jules ou se entregar ao negativismo, acabando com a conversa. Há uma ação que provoca uma reação e que desencadeia outra ação. Em Pulp Fiction, Vincent cresce com o negativismo de Jules.

Os diálogos mais interessantes sempre vão mostrar um personagem falando algo em um valor, seja positivo ou negativo, e em seguida, o outro personagem reage concordando, de maneira mais positiva ou rebatendo, de maneira mais negativa. O que não pode acontecer é um personagem falar algo, o outro completar sem mudar o valor e por fim, o primeiro fala mais uma frase no mesmo nível. Isso é uma conversa de elevador que não leva a lugar nenhum. “Está frio hoje, não é João?” “Está frio hoje, Paulo. Não é?”.

Alguns filmes nacionais, principalmente os de cunho político, escorregam no diálogo, justamente porque a maioria das falas tem um tom filosófico, de reflexão profunda. Quando uma parte fala, a outra não acrescenta nada, patina na mesmice ideológica e ai não há quem aguente.

Quem tem um bom papo acaba conquistando as pessoas porque provoca reações nelas e sua conversa se torna interessante. Elas sabem conduzir a conversa para algum lugar. Beat a beat vai dando um ritmo que envolve as partes na conversa. Um bom diálogo criado com bons beats torna o filme sedutor, porque uma boa conversa é sempre sedutora.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Continuação por água abaixo

Por Bruno Módolo | 

A estréia de Carros 2 mostrou que a Pixar não é imbatível e que um sucesso pode acabar na segunda prova. A continuação do primeiro filme, lançado em 2006, derrapou na curva porque os carrinhos estavam totalmente desalinhados. Não é raro a continuação falhar, porque nunca um filme que agradou ao público continuará no embalo, sem fazer força.

Embora os personagens sejam os mesmos, a seqüência é um novo filme, tem que ter desafios novos, levar os personagens para um novo nível. É uma evolução que precisa acontecer. Em Carros 2, pouquíssima coisa foi acrescentada aos personagens, só a aventura e o cenário que foram novos. E o pior, as emoções dos carrinhos foram um pouco distorcidas em relação ao primeiro filme. Em Homem Aranha 3, aquele que o Peter Parker é um pouco emo, também tem coisas ruins que não conferem ao super herói. O mesmo acontece com De Volta Para o Futuro 3, que é o mais fraco dos filmes da franquia. Marty basicamente passa pelos desafios, assim sem mais nem menos.

Os filmes do Indiana Jones e todos os do 007 não mostram uma evolução dos personagens, diretamente falando, ainda mais porque Indiana e James Bond são praticamente completos. Eles começam e terminam da mesma foram, porém a novidade que faz a gente se envolver com os filmes seqüenciais é o desafio diferente que enfrentam. As batalhas são maiores, mais complexas, exigem mais e estão engajadas ao contexto deles, ao contrário de Carros 2 que é uma grande disparidade.

O esforço dos roteiristas tem que ser muito maior do que simplesmente achar fatos que liguem um filme ao outro ou achar um novo arco dramático. A impressão que temos com esses fracassos é que houve excesso de confiança no carisma dos personagens, algo do tipo, "vamos colocar qualquer coisa eu o público vai gostar". Faltou força para trabalhar a história.

Continuações podem gerar mais dinheiro para os produtores? Podem, mas tem que trabalhar sério para isso. Ninguém ganha dinheiro sem fazer força. Nem desonestamente, porque pra esconder as pistas do crime, é preciso pensar muito.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Inteligência Artificial

Por Bruno Módolo |

Esse mês foi lançado o Story Touch, um software para edição e análise de roteiros criado e desenvolvido no Brasil. É uma notícia que mostra como o mercado cinematográfico está se desenvolvendo, e quem tem visão e vontade de fazer bons negócios consegue aproveitar as oportunidades no Brasil, sem precisar de maracutáia.

O setor de tecnologia tem muito a ganhar também com esse lançamento, pois é uma grande conquista. Quem não tem muito a ganhar, por incrível que parece, é o próprio cinema. Ferramentas para analisar roteiros ajudam o profissional a melhorar seu trabalho. O Story Touch, por exemplo, vai apontar o ritmo, a evolução dos personagens, identificar falhas e uma série quase que infinita de combinações para análise. Quando bem utilizada, essa inteligência artificial complementa e potencializa o talento do artista, mas nunca vai substituir a inteligência do ser humano.

No filme A.I., essa história de substituir humanos 
por  robôs, não deu muito certo.... para os humanos...
Quando um problema de personagem, de ritmo ou de evolução da história é encontrado, não há fórmula matemática ou script de programação que apresente uma solução, porque é uma questão simplesmente humana. As histórias estão na cabeça e no coração do artista. Criar histórias é entender o homem, entender a vida, entender o que move as pessoas. Não é pra menos que quanto mais vivido e maduro for um escritor, mais evoluída fica sua história.

Sensibilidade não se cria artificialmente, muito menos imaginação se cria. Não dá para se enganar acreditando que uma única ferramenta de computador vai consertar erros em um clique. Se um protagonista estiver mal desenvolvido, ele nunca virará um herói mudando a posição no programa. E tem muita gente que acha que sem softwares não se escreve bons roteiros.

Para se criar bons filmes no Brasil é preciso investir na pessoa. Educação, formação de artistas, produção de conhecimento e tudo mais que estimule o intelecto e o lado humano. Estamos no caminho certo, indo bem. Que o Story Touch chegue para ajudar e não ser muleta, e que as faculdades possam ensinar de verdade. Pelo menos na arte da escrita, é impossível substituir o homem.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - Plantando personagens

Por Bruno Módolo  | 

O personagem é um dos pilares que sustentam a história. É o mais importante talvez, porque é ele que vai viver os conflitos, superar, aprender, transparecer as emoções que envolverão o público. São as decisões que ele vai tomar que irão conduzir a história. Sem elas, nada anda, toda a trama fica estagnada ou passa a ser conduzida pelo acaso, o que torna o roteiro pouco crível. É comum você encontrar filmes onde as coisas se desenrolam por conta do acaso. De repente acontece alguma coisa que o personagem não esperava e o ajuda. Quando ele está sem saída novamente, vem algo repentinamente e ele se salva. Ou quando tudo está indo bem, uma surpresa acontece e tudo melhora.

A vida não é assim. Praticamente nada acontece por acaso. As coisas sempre são resultado dos esforços que dedicamos para que aconteçam. Um ou outro momento é coincidência, intervenção divina ou seja lá qual for a explicação. Mesmo intervenção divina, só acontece para quem tem fé e reza muito, ou seja, tem um esforço por trás do milagre.

Onde isso vai nos levar? Durante o filme, conflito após conflito, decisão após decisão, o personagem vai amadurecendo até chegar transformado ao final. É o que chamamos de arco do personagem, a evolução que
ele sofre ao longo da trama. Todo protagonista sofre uma transformação, nem que mínima ou negativa até, mas se não houver mudança, a história se perde. E para evitar que o acaso tome conta do roteiro e espante o
público, há uma técnica utilizada para compor o arco dos personagens. É a técnica da semente.

Uma árvore surge de uma semente. Você planta a semente, cuida dela e a árvore cresce. É uma transformação absurda, de uma pequena semente vem uma árvore gigantesca, de 30 metros de altura. Toda essa evolução acontece passo a passo, sempre com uma etapa se completando para iniciar a seguinte. E é assim que tem que ser com os personagens.

Antes da planta surgir para o mundo, romper a terra e florescer, ela precisa desenvolver uma raiz. Ela é que vai segurar a semente na terra para o broto surgir, e também trazer nutrientes para o desenvolvimento da planta. Se uma raiz não estiver bem forte, a planta não resiste. Não há milagre que faça uma árvore se manter firme e continuar crescendo sem raiz.

Só com uma raiz forte e desenvolvida, a semente segue sua transformação. Vira broto, cria sua primeira folha e ai segue crescendo diariamente. Com os personagens tem que acontecer isso também. As evoluções e transformações tem que funcionar como a semente, criando raiz, depois o broto, romper a terra e assim vai. Essas raízes podem ser os laços de amizade ou raízes emocionais. São elas que sustentarão as próximas decisões do personagem, vão dar a força que ele precisa para enfrentar seus desafios e fazer os primeiros traços da nova vida aparecerem.

Depois vem o broto, que não chega a ser a árvore ainda. Levando para os personagens, identificamos como as primeiras tentativas de resolver o problema, de maneira tímida, sem controle, porque não é o novo ser humano ainda, é só um esboço dele. Depois vem a primeira folha, que é um amadurecimento incompleto, mas já visível. E por fim, essa folha ajuda a superar o novo desafio até que o personagem transforma no novo homem.

Pensar na evolução dos personagens dessa forma ajuda muito, evita os acasos, torna tudo mais próximo do
real, mais perto dos sentimentos das pessoas. E é isso o que falta, histórias com sentimentos mais verdadeiros.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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Por trás da tela - A jornada do herói

Joseph Campbell
Por Bruno Módolo  | 

Existe uma estrutura clássica no cinema que é mundialmente conhecida como A Jornada do Herói. Já vimos centenas de filmes com esse tipo de construção, mesmo assim seguimos gostamos dos filmes e criticando essa estrutura ao mesmo tempo. A Jornada do Herói não é uma fórmula criada pelo estudioso Joseph Campbell nos anos 30, mas sim uma constatação de seus estudos. Campbell pesquisou muito sobre mitologia, psicanálise, literatura e constatou uma maneira comum de se contar histórias e no desenrolar da nossa vida real.

O herói se depara com a ameaça, fica com medo de seguir mas se arrisca. Depois conhece amigos, inimigos, passa por uma batalha onde sua força é colocada em dúvida, em seguida passa por outra batalha no qual tudo indica que vai conseguir vencer o mal, e assim, parte para a batalha final e tudo termina bem. Grosso modo, isso resume A Jornada do Herói. Mas muito grosseiramente falando mesmo, porém suficiente para acrescentar um novo ponto de vista na famosa discussão de ser ou não ser fórmula.

Senhor dos Anéis, Harry Potter, Batman, Indiana Jones e muitos outros filmes cabem nessa estrutura, até Cidade de Deus, O Poderoso Chefão e De Volta para o Futuro tem um pouco disso também. Fica quase inevitável construiu uma trama de herói para salvar o mundo, sem estabelecer alguns elementos que aumentem a tensão, provoquem ansiedade no público e questionem o poder do protagonista. Agora, a grande questão é até onde isso pode ir sem acabar com a arte.

Se é ou não fórmula, se limita o artista ou não, só depende de quem quer se apropriar desse conhecimento. É preciso conhecer bem os elementos de dramaturgia para escrever histórias. Sem saber como usar os elementos fica mais ou menos a mesma coisa de querer cozinhar sem saber misturar ingredientes. Tem que saber fazer arroz para inventar um prato sofisticado. E não adianta temperar o arroz de maneira diferente e exigir que o prato seja considerado uma revolução culinária.

Temos exemplos suficientes para acreditar que qualquer conhecimento não encobre a arte e sim dá mais poder ao artista. A Jornada do Herói pode ser boa ou ruim, considerada fórmula ou não. Será uma discussão eterna, por isso é bom acrescentar um novo ponto de vista para essa discussão produzir algo bom. O que vale mesmo é saber quanto esse conhecimento faz o cinema evoluir, quanto os artistas conseguem ir além do que já vimos nas telas. Criticar o estudo de Campbell é leviano. Se apropriar do conteúdo e fazer coisas toscas é mais leviano ainda. E não se apropriar e não fazer nada melhor é verdadeiramente horrível.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - Diálogo

Por Bruno Módolo |

Diálogo é uma das partes do roteiro que mais revelam coisas. Revelam o caráter dos personagens, o que está se passando em suas mentes, a cultura a que pertencem, mas principalmente, revelam a habilidade do roteirista. Um diálogo mal escrito mostra que o roteirista está cru, precisando trabalhar mais. Por isso é a parte mais complicada de se escrever. Não há segredo nem fórmula mágica para escrever um bom diálogo. É preciso muito trabalho, muitas tentativas, e assumir os erros para corrigi-los depois. Pretensão atrapalha qualquer tipo de trabalho.

Na hora de escrever o diálogo muita gente se preocupa com o conteúdo das falas, com a escolha de palavras e das frases. O importante na verdade é a relação do diálogo com a cena. Tem diálogo que vai expor o personagem, vai explicar a situação, criar um clima, emfim, várias funções eles podem ter. Independente da função, a relação das falas com as imagens tem que ser bem realizada. Não é porque o cinema é feito principalmente de imagens que as falas dos atores têm que ser desprezadas. Os diálogos levam a história para frente, além de mostrar detalhes que as imagens não são capazes. Então, para um diálogo ser bom ele tem que trabalhar em conjunto com a imagem.

O conselho mais batido que se ouve para quem vai escrever um dialogo é o famoso Show, don’t tell, ou seja, não escreva no diálogo o que o personagem fez ou vai fazer. O que a imagem mostrará não precisa ser dito pelos personagens, só que isso é pouco para tornar um diálogo bom. Outro conselho batido é para se inspirar em conversas non sense, estilo Pulp Fiction de Quentin Tarantino. Também não é só isso que torna o diálogo bom.

Para a comunicação funcionar, cada parte tem que acrescentar algo na conversa. As duas partes tem que conversar, as duas precisam inserir coisas novas cada vez que abrem a boca. Caso contrário ou se torna um discurso ou conversa de elevador. Por isso, cada fala dos personagens tem que ter ação e a resposta ser uma reação. Por exemplo, uma acusação contra uma defesa, uma acusação contra um novo ataque, uma declaração de amor contra uma rejeição ou um desabafo contra uma compaixão. Centenas de situações poderiam explicar isso, e se você reparar, é assim que conversamos. Sempre tem um que quer falar mais do que o outro, sempre que você diz algo ou a outra pessoa completa ou reage de maneira contraria. Quando não há troca a conversa para, porque não há assunto para desenrolar, não há reação. Podemos dizer que uma das características do bom diálogo é permitir um jogo de positivo e negativo, ou seja, ação e a reação.

E é nesse jogo de valores que a mente dos personagens é revelada, porque na reação é que aparece o que ele quer fazer, que emoções está sentindo naquele momento e o que está se passando dentro da sua cabeça. Podem ser duas ou três frases durante o filme todo, como nos clássicos filmes de arte, mas repare que eles revelam coisas que a imagem jamais dirá e tem um bom jogo de valores.

Agora, o principal erro dos roteiristas ao criar diálogos, é não definir o estilo dos personagens. Cada pessoa fala de um jeito e se não prestar atenção, o roteirista faz com que todos os personagens falem iguais, não só nas palavras, como também no jeito de se comportar. Em Tropa de Elite, alguns diálogos são iguais, principalmente os que tem frases de impacto, tipo "Quer me fuder, me beija logo". É impossível que todo corrupto seja exatamente igual, pense exatamente igual, tenha a mente igualmente rápida para criar boas frases. Agora, se reparar nos diálogos entre Neto e Matias, perceberemos bem a diferença entre eles, um é porra louca e o outro mais contido.

Se você não imaginar nada ao ouvir um diálogo, não visualizar nenhuma característica do personagem, nem entender porque ele está ali, não tenha medo de afirmar que o diálogo é ruim e que o roteirista falhou. Ninguém na vida real fala de maneira artificial, porque no cinema teria que falar?

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - A importância da premissa

Por Bruno Módolo |

Morgan Freeman e Tim Robins em "Um sonho de liberdade"
Não importa se você escreve de maneira caótica ou se gosta de planejar cada momento da história antes de colocá-la no papel. É sempre muito importante saber onde quer chegar e o que realmente quer contar para o público. Sem esse norte, com certeza você irá se perder.

Muitas idéias, cenas novas ou personagens novos surgem enquanto desenvolvemos uma história. Tudo parece genial ou tudo parece horrível. Essas duas situações podem ocorrer e são igualmente perigosas se você não souber que tipo de história está contando. Acrescentar, modificar ou excluir qualquer coisa sem um critério de avaliação, leva tudo por água abaixo.

É ai que entra a premissa, que basicamente é o indicador do rumo da história. Premissa quer dizer as proposições que servem de base para a conclusão. Numa narrativa, sua função é estabelecer sobre o que se trata a história ou simplesmente para qual entendimento a história vai conduzir.

A partir de uma premissa bem estabelecida, independente da forma como o escritor trabalha, caótica ou não, ele poderá avaliar cada ideia que teve, cada momento da sua história para saber o que melhorar, como melhorar, o que precisa ser inserido e o que precisa ser excluído.

E para estabelecer uma premissa não é preciso saber como será o final de sua história, mesmo porque isso é uma das coisas que mudam e muito durante o desenvolvimento. Mas é com uma boa premissa que você saberá avaliar se criou um excelente final. O que é preciso para estabelecer uma premissa?

Lajos Egri em seu livro The Art of Dramatic Writing indica as 3 partes que compõem uma boa premissa. Particularmente é a definição mais eficiente. Segundo Egri, você precisa estabelecer qual a principal emoção em jogo na história, qual o grande conflito do personagem e qual o desfecho desse conflito.

O autor aponta que um grande amor derrota até a morte é a premissa de Romeu e Julieta. Realmente a grande emoção da história é o amor do jovem casal, o grande conflito é ter que enfrentar o ódio entre as famílias e no final, o casal compreende que um grande amor supera tudo. Se por acaso um novo personagem fosse inserido para tentar seduzir Romeu e criar uma confusão em sua cabeça, em relação a se ama ou não Julieta, a história seria outra e não a que conhecemos.

Ao analisarmos outra história, como por exemplo, Um Sonho de Liberdade, escrito por Frank Darabont, podemos identificar que a premissa é A busca por liberdade é o que mantém o homem vivo. Quando Andy, interpretado por Tim Robbins, estava preso, foi forçado a se adaptar ao estilo de vida dos detentos. Mas ele não aceitava isso, tanto que foi aconselhado por Red, interpretado por Morgan Freeman, a não se iludir, pois esperança é um veneno dentro do presídio. Porém, Andy lutou com todas as forças para se libertar, e somente por isso se manteve vivo. Red, que rejeitou lutar, só recuperou sua vida depois que reencontrou Andy fora da cadeia, e voltar trabalhar.

Criar uma premissa não é formula de sucesso, não é prender a criatividade. Criar uma boa premissa é canalizar o poder artístico para um fim bem definido, é ajudar o escritor a fazer o seu trabalho da melhor maneira possível. De que adianta se esforçar para escrever e deixar tudo sem sentido? Até o que parece bagunçado tem um sentido, tem uma premissa por trás. Mas nada funciona sem um caminho bem traçado, nem mesmo os seres humanos.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - Dimensão de um personagem

Por Bruno Módolo | 

Dar dimensão a um personagem, falando de maneira simplificada, é criar uma contradição para sua personalidade. Inventar um defeito como muita gente diz. Só que esse defeito não é necessariamente físico ou simplesmente uma atitude maldosa, por exemplo.

Muita gente explicaria dimensão da seguinte forma: um policial honesto mas com problema de alcoolismo. Uma bela médica com uma cicatriz que a incomoda. Tornar o personagem interessante é muito mais do que estabelecer essas diferenças superficiais. A contradição ou defeito precisa estar diretamente relacionado a personalidade, às crenças do próprio personagem. Ou seja, tem que estar não em uma mas em todas as atitudes do personagem, numa combinação contraditória.

Uma mulher casada, excelente mãe e esposa, que leva uma vida bastante correta. Porém ela tem um amante. Isso por si não basta para criar dimensão. Se dissermos que ela não aprova seu próprio caso e o mantém como fuga, como emoção adicional à sua perfeita rotina monótona, começamos a dar uma dimensão interessante para essa mulher. Ela sempre quis uma vida regrada, uma família estruturada, só que alguma coisa dentro dela pedia uma aventura. Ela não tem coragem e nem quer largar tudo o que sempre sonhou, por isso se culpa pela traição, mas se não fizer isso se sentirá incompleta. Podemos não concordar com as atitudes dessa mulher, mas entendemos o conflito interno que ela carrega e ainda torcemos para que resolva a bagunça que criou em sua vida. A contradição entre lutar por uma vida correta e o desejo de uma aventura para preencher um vazio existencial pode tornar esse personagem interessante. É mais ou menos isso que temos no filme As Pontes de Madison, especificamente na personagem Francesca Johnson vivida por Meryl Streep.

O outro exemplo é de um serial killer. Para torná-lo interessante muitos poderiam estabelecer que ele mata a noite e de dia faz boas ações. Não é bem isso. Esse serial killer pode matar suas vítimas com crueldade e sem compaixão somente porque elas cruzaram seu caminho. No fundo ele querer uma vida tranqüila, bem vivida, só que alguém entra em seu dia-a-dia e o incomoda, assim, o desejo de matar, o prazer por fazer mais uma vitima cresce de tal maneira que ele age. A contradição entre querer uma vida normal e os assassinatos pode tornar o personagem tão interessante que até vibramos com suas atitudes. É o caso do Dr. Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins. Um senhor tão inteligente, tão bon vivan que torcemos para ele ir preso porque ninguém é a favor de assassinatos, mas o compreendemos e o idolatramos a cada morte.

Se levarmos para a vida real, ninguém fica mais interessante porque tem o cabelo espetado ou vira um vilão por uma única ação. Assim como na vida real, a aparência não deve importar, nem mesmo uma só atitude deve valer para julgar as pessoas. Por isso um personagem tem que revelar o que está em sua mente e quanto mais confusa for a mente, mais interessante será esse personagem. E é também por isso que ser uma pessoa complexa é muito mais do que ser apenas diferente do resto da sociedade.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - Ser Humano

Por Bruno Módolo 

Ser ou não ser... humano, eis a questão.
As pessoas agem por motivos que muitas vezes não entendemos. Assassinos, maldosos, os bondosos também, mulheres, homens. Todo mundo faz coisas e só depois de conhecer melhor a personalidade é que vamos entender porque fizeram o que fizeram. O que antes parecia estranho, passa a fazer sentido. O ser humano tem suas motivações e nem sempre, ou melhor, quase nunca elas são claras e palpáveis como um objeto material. Motivação é emoção e emoção não se vê.

É assim também com os personagens. Cada um deles tem que ter suas motivações para que, principalmente, o público tenha empatia. E sem motivação, o personagem fica frouxo, sem sentido. O personagem precisa agir, precisa fazer alguma coisa, querer alguma coisa, nem que essa coisa seja lutar contra todos para não mudar seu jeito acomodado de ser.

Mas há um outro problema além de um personagem sem motivação, e que deixa os personagens ainda mais frouxos. É quando sua motivação é mal explicada. O ser humano não se explica, ele simplesmente acontece. Gostamos de música sem entender porque, achamos alguém bonito por coisas que ninguém mais vê, nos apaixonamos por uma profissão que aos olhos dos outros parece ridícula. Mas é assim que somos. E como explicar isso? Por meio do nosso comportamento e nossa personalidade.

Fazer com que o público entenda um personagem pela personalidade e pelo comportamento é muito difícil. As vezes chega a ser impossível. Então, entra em ação algo que estraga um filme que poderia ser brilhante: o material.

Dar uma razão palpável para as motivações de um personagem é quase uma ofensa. O filme O Plano Perfeito, escrito por Russell Gewirtz e dirigido por Spike Lee peca por isso. O personagem Dalton Russell, vivido por Clive Owen, arma um esquema perfeito para assaltar um banco. O filme segue muito bem até o final, quando a motivação do bandido é explicada. Uma suposta vingança moral para contra o dono do banco, que enriqueceu fazendo acordos com os Nazistas durante a Segunda Guerra. Francamente, não precisava disso. Dalton Russell não queria enriquecer, queria ser um vingador, um fanfarrão que brinca com os poderosos. Então que fosse um verdadeiro fanfarrão, fazendo coisas de ser humano, sem ter que explicar. 
Com medo do público não entender o personagem, criou-se algo material para que o objetivo da ação ficasse clara. Mas de tão clara que ficou, temos a sensação de que não é um ser humano que está lá e sim uma marionete ligada às mãos do diretor do filme.

Esse é só um exemplo entre muitos filmes que fazem isso: acham uma razão palpável para as motivações invisíveis do ser humano. Nós também cometemos esse erro na vida real, quando criamos rótulos ou modas para justificar as coisas. Curtimos tal boteco porque está na moda, tal tipo de comida porque todo mundo está comentando, tal música, tal roupa, tal destino turístico. Não precisa justificar as atitudes e vontades desse jeito.

Está faltando ser mais humano na vida. Querer as coisas sendo sinceros com nossos desejos e comportamentos. Está faltando fazer filmes com olhos para a emoção, para os atores interpretarem personagens que sejam seres humanos de verdade.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - Sexo, explosão e coerência

Por Bruno Módolo |

Tem uma velha máxima que diz: o público gosta de filme que tem sexo e explosão. É verdade isso? Entre os maiores sucessos de bilheteria deste ano, todos tem cena de sexo e explosão? E entre os maiores clássicos da história?

Watchmen: Espectral e Coruja se beijam em cena
 caliente e ao fundo a explosão de uma bomba atômica.
É muito leviano avaliar se um filme será bom ou não, se fará sucesso ou não só analisando alguns elementos. Primeiro porque sucesso é muito relativo. Sucesso significa alcançar um objetivo com êxito. Se um filme se propõe a ter 20 milhões de expectadores e alcança apenas 18 milhões, não é um sucesso. Por outro lado, se um filme feito só para agradar uma comunidade, como um documentário sobre uma pequena cidade, consegue 500 mil espectadores, o filme é um sucesso, pois superou a expectativa do realizador.

Segundo, o que é bom para um, não é para o outro. Não é porque uma coisa está em todos os grandes canais da TV que ela será boa. São pouco mais de 30 milhões de pessoas assistindo e menos de 10 milhões gostando. E os outros 150 milhões de brasileiros que estão fazendo outras atividades? A maioria esmagadora não está nem ai para essa coisa na TV. Carolina Kotscho teve dificuldade para levar o roteiro de 2 Filhos de Francisco adiante, porque quase todo mundo dizia que o filme não era bom, não tinha um bom tema. É claro que o filme tem suas falhas, mas fez um enorme sucesso, agradou muita gente. E detalhe, não tem sexo nem explosão. O filme Segurança Nacional tem muita explosão, é não fez sucesso, muito menos é um bom filme. E Bruna Surfistinha? Agora, onde está o problema em tentar prever se um filme será sucesso ou não?

O público gosta sim de cenas de sexo e de explosão, mas precisa enxergar a coerência no filme. O que faz a gente vibrar com uma explosão não é o fogo ou o barulho ensurdecedor, é a emoção de acabar com o inimigo e seguir torcendo pelo protagonista. Só que para sentir essa emoção, temos que perceber claramente a ameaça dos vilões, ficar com medo deles. Caso contrário a explosão não vai ter coerência. Tanto homens quanto mulheres gostam do sexo que acontece nos filmes, porque sentem o envolvimento e o desejo dos personagens, cada um a seu modo. Se o público não torcer pelo beijo ou pela cena de amor, vai ficar banal.

E filmes sem cena de sexo ou explosão agradam o público porque tem coerência. As emoções em jogo nesses filmes são outras, como superação no caso de 2 Filhos de Francisco, colocar a vida no eixo como em Durval Discos ou a reconciliação familiar de Procurando Nemo. Esses filmes deixam claro a que vieram, conduzem bem essas emoções para nos envolvermos com os personagens e resolvem bem no final. Tem total coerência na história que estão contanto.

Não dá para dizer que quem busca estabilidade financeira está num bom caminho e será um sucesso. O que dizer do artista que largou tudo para seguir seu coração, como muitos entrevistados aqui no Pastilhas Coloridas? Não existe fórmula para o sucesso. No cinema e na vida, o que importa para se dar bem é a maneira como as coisas são conduzidas ou a coerência com que são feitas.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - Um vilão até que é bom

Por Bruno Módolo | 

Todo mundo precisa ter algo para superar, puxá-lo para frente, algum objetivo para conquistar. Sem isso nos tornamos nulos e acomodados. Só quem chegou ao final da vida pode não ter mais o que superar, pois já fez de tudo. Ai podemos dizer que não é uma vida nula, mas sim pacata, em paz. Agora, tente levar uma história nula e acomodada para o cinema.

Drama é conflito. Sem conflito não há drama e ponto. E conflito não é achar que a vida é ruim, que só tem desgraça e que nada do que você faz dá certo. Isso é chatice. Conflito é provocado por uma força antagonista que impede você de conquistar o que quer. O resto só atrapalha se você permitir.

O antagonista tem força própria, é o vilão da história porque seu objetivo é impedir o protagonista de chegar lá. Esse vilão não precisa estar caracterizado em um só personagem. É o caso dos dramas sociais, onde a situação ou o comportamento da sociedade exerce essa força contrária. Também no caso dos dramas psicológicos, onde a própria mente do protagonista o atrapalha.

Um bom drama psicológico, que não entra nos meandros dos sanatórios ou pirações como Cisne Negro, é Blow Up, de Michelangelo Antonioni. O roteiro é assinado pelo próprio Antonioni ao lado de Tonino Guerra. No Brasil o filme foi chamado de Depois Daquele Beijo, e realmente o nome em português é muito bom, porque foi justamente depois de um beijo que o fotografo Thomas, vivido por David Hemmings se lança numa busca frenética para desvendar um mistério. A obsessão de Thomas é a vilã da história.

Já no filme Invictus, de Clint Eastwood e com roteiro de Anthony Peckham, algo curioso acontece, e por isso mesmo que o filme não é tão bom. Não tem vilão. Era para ser o Apartheid, mas logo no começo, Nelson Mandela, vivido por Morgan Freeman bota o inimigo para correr. Depois, só muito depois é que outro inimigo surge. É a seleção de Rugby da Nova Zelândia, e ai sim o filme decola, mas em 15 minutos acaba. Não dá nem tempo de torcer, pois logo os créditos começam a subir pela tela.

O vilão não precisa ser malvado, extremamente destruidor, basta dificultar um pouco para nos mexermos. Tanto para nós como para o cinema, essa força contrária é que dá a graça e o tempero.

Um homem sem antagonista não vive. Filme sem antagonista vira vídeo institucional.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - Rindo da piada ou do filme?

Por Bruno Módolo 

Fazer comédia não é fácil. Não basta apenas ser engraçado para que alguém esteja qualificado a fazer humor. É preciso saber algumas técnicas. E não se preocupe se não entender a piada quando assistir à um filme, porque nem sempre a culpa é sua. 

A comédia é um dos poucos gêneros onde é necessário fazer pensando no público. Os outros permitem que o autor pense mais nele, dê mais atenção à sua viagem artística. Agora, na comédia, se a piada ficar só na cabeça do autor, o fracasso é certo.

Para ilustrar um pouco, é só analisar os momentos engraçados que você tem com seus amigos. Uma besteirinha vira motivo de riso por uma semana. Mas só entre vocês, porque ao contar essa besteira para outra pessoa de fora do grupo, ela não ri. Não significa que você e seus amigos sejam bestas e nem que a outra pessoa seja burra. É a piada que não fazia parte do universo da pessoa e nem foi contada na hora certa.

Boas piadas são contadas no tempo certo, com a virada acontecendo exatamente quando o público está envolvido. Seu entendimento tem que ser rápido, praticamente sem pensar. Um instante de reflexão estraga o ritmo todo e a piada fica sem graça. Fora isso, o clima tem que ser preparado para pegar o público de surpresa. Repare quando grandes humoristas contam piadas, parecem que enrolam no começo, enchem lingüiça, só que na verdade estão nos deixando ansiosos, conduzindo nosso pensamento para o final. É assim também nos bons filmes de comédia.

Muitos filmes que deveriam ser de comédia não tem graça nenhuma, e ao analisá-los notamos que não há nenhuma sofisticação na piada, ela não transita por assuntos cultos, restritos, nada disso. Era para ser um filme sobre nosso cotidiano, com assuntos comuns demais.

Então, o que acontece com esses filmes? Egocentrismo do autor, achando que pode tudo, que suas piadas são demais e que o público vai acompanhar sua genialidade. Não é assim. Por isso que as últimas comédias brasileiras são tão sem graça. E olha que os autores são humoristas consagrados da nova geração.

Falta olhar para o público, colocá-lo num patamar mais importante do que o próprio texto. Fazer comédia não é fácil. A obra sempre será classificada como palhaçada, para o bem ou para o mal. E quem decide isso é o ego do autor.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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Por trás da tela - O bom clichê

Por Bruno Módolo

A estréia do filme Rio, dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, deixa claro que não precisamos fugir dos clichês, só precisamos usá-los bem.

Nós somos clichês. O ser humano é muito previsível em suas atitudes. É claro que algumas coisas impensadas acontecem e nos chocam, mas grande parte da nossa vida é conduzida de maneira comum. Nós somos lugar comum e não precisamos esconder isso, muito menos disfarçar. Saímos todo fim de semana para ouvir música e beber com os amigos, viajamos para a praia no ano novo e por ai vai.

Disfarçar o clichê ou tentar inventar uma solução inovadora é muito mais perigoso do que assumi-lo de uma vez. O filme fica mais ridículo quando tenta reinventar o comum. Quantas vezes você sentiu aquela sensação de ser enganado ao ver o personagem fazer uma coisa absurda, só para que a situação ficasse diferente da realidade? Como reinventar um romance, um pedido de casamento, um salvamento ou uma vingança? Até mesmo Kill Bill, de Quentin Tarantino, tem seus clichês.

Em Rio, todo mundo sabe como será o final, o problema da ararinha Blue é previsível e toda a beleza da cidade é mostrada de um jeito bem caricato. Tudo muito comum. Agora, a grande jogada de Saldanha foi justamente não se importar com isso, nem tentar surpreender o público. O diretor brasileiro usa o clichê fazendo o público vivenciar mais a cena. Quando saímos para beber com os amigos, não esperamos que o próximo gole seja surpreendente e único, porque já sabemos o gosto da bebida. Nós apenas aproveitamos o momento, curtimos a situação.

Voltando ao Rio, ao invés de surpreender a cada cena, o filme nos envolve em belas imagens, piadas e danças das aves. E sem tentativas de surpresas, não nos sentimos enganados. Podemos não gostar, mas ai é outra história.

Se o filme for tratar de um assunto comum, não precisa surpreender ninguém. É melhor assumir o clichê e fazer o público curtir. O clichê é bom quando bem utilizado.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
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