Por trás da tela - A batida perfeita

Por Bruno Módolo 

Uma das primeiras coisas que gritam em um roteiro ruim é o diálogo. A sensação de que as palavras foram colocadas a força na boca dos personagens, lições de moral que não conduzem a história e conversas sem sentido que não servem como papo furado para entreter o público. Tudo isso incomoda e nos tira do filme. Além de prestar atenção nas características dos personagens para escrever as falas, o roteirista também tem que prestar atenção no sentido e no ritmo do diálogo. E um dos segredos para isso é o que chamamos de Beat.

Cada diálogo tem que ter uma função, tem que levar a história para algum ponto e conduzir o publico junto. Não é um monte de frases bem construídas, de impacto. Com o objetivo definido, vem a construção da conversa, que para ser interessante tem que ter ritmo. O Beat é uma batida mesmo, uma troca de valores entre os personagens que cadencia o diálogo.

No famoso diálogo non sense entre Jules Winnfield e Vincent Vega, em Pulp Fiction, quando falam sobre sanduíche, percebemos nitidamente o objetivo e os beats. O objetivo do diálogo daquela cena é revelar mais da personalidade de cada um, e nada melhor do que uma conversa fiada para saber como as pessoas vêem a vida. Um é mais temeroso e o outro é mais despreocupado. Quando Vincent pergunta se Jules sabe como se chama o Quarteirão com Queijo em Paris, Jules responde que não, reage descrente, duvidando da conversa. Isso é um Beat. Vincent fala algo positivo e Jules reage negativamente, criando uma inversão de valores. A inversão provoca Vincent a ser ou mais positivo para convencer Jules ou se entregar ao negativismo, acabando com a conversa. Há uma ação que provoca uma reação e que desencadeia outra ação. Em Pulp Fiction, Vincent cresce com o negativismo de Jules.

Os diálogos mais interessantes sempre vão mostrar um personagem falando algo em um valor, seja positivo ou negativo, e em seguida, o outro personagem reage concordando, de maneira mais positiva ou rebatendo, de maneira mais negativa. O que não pode acontecer é um personagem falar algo, o outro completar sem mudar o valor e por fim, o primeiro fala mais uma frase no mesmo nível. Isso é uma conversa de elevador que não leva a lugar nenhum. “Está frio hoje, não é João?” “Está frio hoje, Paulo. Não é?”.

Alguns filmes nacionais, principalmente os de cunho político, escorregam no diálogo, justamente porque a maioria das falas tem um tom filosófico, de reflexão profunda. Quando uma parte fala, a outra não acrescenta nada, patina na mesmice ideológica e ai não há quem aguente.

Quem tem um bom papo acaba conquistando as pessoas porque provoca reações nelas e sua conversa se torna interessante. Elas sabem conduzir a conversa para algum lugar. Beat a beat vai dando um ritmo que envolve as partes na conversa. Um bom diálogo criado com bons beats torna o filme sedutor, porque uma boa conversa é sempre sedutora.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
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