Existe uma estrutura clássica no cinema que é mundialmente conhecida como A Jornada do Herói. Já vimos centenas de filmes com esse tipo de construção, mesmo assim seguimos gostamos dos filmes e criticando essa estrutura ao mesmo tempo. A Jornada do Herói não é uma fórmula criada pelo estudioso Joseph Campbell nos anos 30, mas sim uma constatação de seus estudos. Campbell pesquisou muito sobre mitologia, psicanálise, literatura e constatou uma maneira comum de se contar histórias e no desenrolar da nossa vida real.
O herói se depara com a ameaça, fica com medo de seguir mas se arrisca. Depois conhece amigos, inimigos, passa por uma batalha onde sua força é colocada em dúvida, em seguida passa por outra batalha no qual tudo indica que vai conseguir vencer o mal, e assim, parte para a batalha final e tudo termina bem. Grosso modo, isso resume A Jornada do Herói. Mas muito grosseiramente falando mesmo, porém suficiente para acrescentar um novo ponto de vista na famosa discussão de ser ou não ser fórmula.
Senhor dos Anéis, Harry Potter, Batman, Indiana Jones e muitos outros filmes cabem nessa estrutura, até Cidade de Deus, O Poderoso Chefão e De Volta para o Futuro tem um pouco disso também. Fica quase inevitável construiu uma trama de herói para salvar o mundo, sem estabelecer alguns elementos que aumentem a tensão, provoquem ansiedade no público e questionem o poder do protagonista. Agora, a grande questão é até onde isso pode ir sem acabar com a arte.
Se é ou não fórmula, se limita o artista ou não, só depende de quem quer se apropriar desse conhecimento. É preciso conhecer bem os elementos de dramaturgia para escrever histórias. Sem saber como usar os elementos fica mais ou menos a mesma coisa de querer cozinhar sem saber misturar ingredientes. Tem que saber fazer arroz para inventar um prato sofisticado. E não adianta temperar o arroz de maneira diferente e exigir que o prato seja considerado uma revolução culinária.
Temos exemplos suficientes para acreditar que qualquer conhecimento não encobre a arte e sim dá mais poder ao artista. A Jornada do Herói pode ser boa ou ruim, considerada fórmula ou não. Será uma discussão eterna, por isso é bom acrescentar um novo ponto de vista para essa discussão produzir algo bom. O que vale mesmo é saber quanto esse conhecimento faz o cinema evoluir, quanto os artistas conseguem ir além do que já vimos nas telas. Criticar o estudo de Campbell é leviano. Se apropriar do conteúdo e fazer coisas toscas é mais leviano ainda. E não se apropriar e não fazer nada melhor é verdadeiramente horrível.
Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
