A estréia do filme Rio, dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, deixa claro que não precisamos fugir dos clichês, só precisamos usá-los bem.Nós somos clichês. O ser humano é muito previsível em suas atitudes. É claro que algumas coisas impensadas acontecem e nos chocam, mas grande parte da nossa vida é conduzida de maneira comum. Nós somos lugar comum e não precisamos esconder isso, muito menos disfarçar. Saímos todo fim de semana para ouvir música e beber com os amigos, viajamos para a praia no ano novo e por ai vai.
Disfarçar o clichê ou tentar inventar uma solução inovadora é muito mais perigoso do que assumi-lo de uma vez. O filme fica mais ridículo quando tenta reinventar o comum. Quantas vezes você sentiu aquela sensação de ser enganado ao ver o personagem fazer uma coisa absurda, só para que a situação ficasse diferente da realidade? Como reinventar um romance, um pedido de casamento, um salvamento ou uma vingança? Até mesmo Kill Bill, de Quentin Tarantino, tem seus clichês.
Em Rio, todo mundo sabe como será o final, o problema da ararinha Blue é previsível e toda a beleza da cidade é mostrada de um jeito bem caricato. Tudo muito comum. Agora, a grande jogada de Saldanha foi justamente não se importar com isso, nem tentar surpreender o público. O diretor brasileiro usa o clichê fazendo o público vivenciar mais a cena. Quando saímos para beber com os amigos, não esperamos que o próximo gole seja surpreendente e único, porque já sabemos o gosto da bebida. Nós apenas aproveitamos o momento, curtimos a situação.
Voltando ao Rio, ao invés de surpreender a cada cena, o filme nos envolve em belas imagens, piadas e danças das aves. E sem tentativas de surpresas, não nos sentimos enganados. Podemos não gostar, mas ai é outra história.
Se o filme for tratar de um assunto comum, não precisa surpreender ninguém. É melhor assumir o clichê e fazer o público curtir. O clichê é bom quando bem utilizado.
Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br