Por trás da tela - Continuação por água abaixo

Por Bruno Módolo | 

A estréia de Carros 2 mostrou que a Pixar não é imbatível e que um sucesso pode acabar na segunda prova. A continuação do primeiro filme, lançado em 2006, derrapou na curva porque os carrinhos estavam totalmente desalinhados. Não é raro a continuação falhar, porque nunca um filme que agradou ao público continuará no embalo, sem fazer força.

Embora os personagens sejam os mesmos, a seqüência é um novo filme, tem que ter desafios novos, levar os personagens para um novo nível. É uma evolução que precisa acontecer. Em Carros 2, pouquíssima coisa foi acrescentada aos personagens, só a aventura e o cenário que foram novos. E o pior, as emoções dos carrinhos foram um pouco distorcidas em relação ao primeiro filme. Em Homem Aranha 3, aquele que o Peter Parker é um pouco emo, também tem coisas ruins que não conferem ao super herói. O mesmo acontece com De Volta Para o Futuro 3, que é o mais fraco dos filmes da franquia. Marty basicamente passa pelos desafios, assim sem mais nem menos.

Os filmes do Indiana Jones e todos os do 007 não mostram uma evolução dos personagens, diretamente falando, ainda mais porque Indiana e James Bond são praticamente completos. Eles começam e terminam da mesma foram, porém a novidade que faz a gente se envolver com os filmes seqüenciais é o desafio diferente que enfrentam. As batalhas são maiores, mais complexas, exigem mais e estão engajadas ao contexto deles, ao contrário de Carros 2 que é uma grande disparidade.

O esforço dos roteiristas tem que ser muito maior do que simplesmente achar fatos que liguem um filme ao outro ou achar um novo arco dramático. A impressão que temos com esses fracassos é que houve excesso de confiança no carisma dos personagens, algo do tipo, "vamos colocar qualquer coisa eu o público vai gostar". Faltou força para trabalhar a história.

Continuações podem gerar mais dinheiro para os produtores? Podem, mas tem que trabalhar sério para isso. Ninguém ganha dinheiro sem fazer força. Nem desonestamente, porque pra esconder as pistas do crime, é preciso pensar muito.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo
Share: