Por Bruno Módolo |
O personagem é um dos pilares que sustentam a história. É o mais importante talvez, porque é ele que vai viver os conflitos, superar, aprender, transparecer as emoções que envolverão o público. São as decisões que ele vai tomar que irão conduzir a história. Sem elas, nada anda, toda a trama fica estagnada ou passa a ser conduzida pelo acaso, o que torna o roteiro pouco crível. É comum você encontrar filmes onde as coisas se desenrolam por conta do acaso. De repente acontece alguma coisa que o personagem não esperava e o ajuda. Quando ele está sem saída novamente, vem algo repentinamente e ele se salva. Ou quando tudo está indo bem, uma surpresa acontece e tudo melhora.
A vida não é assim. Praticamente nada acontece por acaso. As coisas sempre são resultado dos esforços que dedicamos para que aconteçam. Um ou outro momento é coincidência, intervenção divina ou seja lá qual for a explicação. Mesmo intervenção divina, só acontece para quem tem fé e reza muito, ou seja, tem um esforço por trás do milagre.
Onde isso vai nos levar? Durante o filme, conflito após conflito, decisão após decisão, o personagem vai amadurecendo até chegar transformado ao final. É o que chamamos de arco do personagem, a evolução que
ele sofre ao longo da trama. Todo protagonista sofre uma transformação, nem que mínima ou negativa até, mas se não houver mudança, a história se perde. E para evitar que o acaso tome conta do roteiro e espante o
público, há uma técnica utilizada para compor o arco dos personagens. É a técnica da semente.
Uma árvore surge de uma semente. Você planta a semente, cuida dela e a árvore cresce. É uma transformação absurda, de uma pequena semente vem uma árvore gigantesca, de 30 metros de altura. Toda essa evolução acontece passo a passo, sempre com uma etapa se completando para iniciar a seguinte. E é assim que tem que ser com os personagens.
Antes da planta surgir para o mundo, romper a terra e florescer, ela precisa desenvolver uma raiz. Ela é que vai segurar a semente na terra para o broto surgir, e também trazer nutrientes para o desenvolvimento da planta. Se uma raiz não estiver bem forte, a planta não resiste. Não há milagre que faça uma árvore se manter firme e continuar crescendo sem raiz.
Só com uma raiz forte e desenvolvida, a semente segue sua transformação. Vira broto, cria sua primeira folha e ai segue crescendo diariamente. Com os personagens tem que acontecer isso também. As evoluções e transformações tem que funcionar como a semente, criando raiz, depois o broto, romper a terra e assim vai. Essas raízes podem ser os laços de amizade ou raízes emocionais. São elas que sustentarão as próximas decisões do personagem, vão dar a força que ele precisa para enfrentar seus desafios e fazer os primeiros traços da nova vida aparecerem.
Depois vem o broto, que não chega a ser a árvore ainda. Levando para os personagens, identificamos como as primeiras tentativas de resolver o problema, de maneira tímida, sem controle, porque não é o novo ser humano ainda, é só um esboço dele. Depois vem a primeira folha, que é um amadurecimento incompleto, mas já visível. E por fim, essa folha ajuda a superar o novo desafio até que o personagem transforma no novo homem.
Pensar na evolução dos personagens dessa forma ajuda muito, evita os acasos, torna tudo mais próximo do
real, mais perto dos sentimentos das pessoas. E é isso o que falta, histórias com sentimentos mais verdadeiros.
Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Twitter: @brunormodolo