Por trás da tela: Filme autoral X Filme comercial

Por Bruno Módolo | 

Essa é uma discussão que muitos mantém sem chegar a nenhuma conclusão. Talvez porque não tenha uma única conclusão. Porém, pelo menos alguma coisa esse debate poderia produzir. Então, é bom colocar uma palha nova nessa fogueira, para ver se essa discussão chega a novos pensamentos.

Autoral é uma obra feita por um único autor. No cinema é difícil fazer isso porque é uma arte coletiva. Roteirista, diretor e montador, são os 3 pilares importantes na realização de um filme. Muita gente afirma que o filme nasce três vezes, cada uma nas mãos desses profissionais. Para ser autoral, ou um único profissional faz tudo ou todos se submetem ao objetivo artístico de um único profissional.

Muitos filmes são comandados por um único profissional que faz tudo, até atuar e compor a trilha sonora. Só
que nem por isso são filmes autorais, já que tem um apelo comercial fortíssimo. A diferença então, é que o filme autoral é feito para poucas pessoas e o comercial é feito para muitas?

Mais ou menos. Custa caro e dá muito trabalho fazer um filme. Por isso, não faz sentido nenhum que a obra seja vista por poucas pessoas. Classificar filme autoral assim é um erro, é jogar dinheiro fora só para saciar as vontades de um artista. Uma diferença, talvez mais simplista, entre filme autoral e comercial esteja na compreensão que o público terá ao terminar de assisti-lo. Um filme comercial precisa atrair público, muito público. Por isso, sua compreensão tem que ser fácil, superficial, com um mensagem bem simples para muita gente entender e pagar para ver. Um filme autoral tem que imprimir uma compreensão bastante única, praticamente exclusiva do artista. Arte é a realidade vista pelos olhos do artista. Essa compreensão peculiar pode não agradar, muito menos atrais um grande público, mas precisa ser nova. Por isso que os trabalhos autorais trazem reflexões sobre a vida, a sociedade que poucos haviam pensado anteriormente.

O problema é que hoje em dia, muitas pessoas fazem cinema de qualquer jeito, sem oferecer uma compreensão particular, sem oferecer desenvolvimento da linguagem cinematográfica, caindo na mesmice de que o mundo não presta, só tem violência, drogas e gente perdida. Ninguém assiste ao filme não porque é complicado e difícil de entender, mas porque ninguém gosta.

Reparem que os grandes clássicos do cinema, os filme considerados autorais jogam uma luz nova sobre nossa realidade. São chocantes e fortes não porque apelam, mas porque nos fazem pensar o mundo por caminhos que nunca imaginávamos antes. Esses filmes podem ter pouco público porque são exigentes demais para algumas mentes. Mas nos fazem pensar longe do óbvio, mudam nossa vida.

Portanto, ao comparar um filme entre autoral e comercial, compare pelo nível de esforço intelectual que precisamos fazer para compreende-lo. E ao classificar um filme autoral, perceba que luz ele traz para nossa vida. Se for uma mesmice chata, sem novidades, sem provocar nenhuma reflexão nova, não tenha medo de chamar esse filme de ruim.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. faledoartigo@garoafina.com.br
Share: