Cinco anos separam o segundo Terruá Pará de sua edição original. Naquele já longínquo 2006, a plateia paulistana foi exposta a um coletivo de artistas paraenses das mais variadas idades e estilos, cada qual soando de uma maneira muito particular. Para os migrantes presentes, era como ouvir uma coletânea ao vivo da música produzida naquele estado na segunda metade do século vinte e comecinho do novo milênio. Para o público que estava tomando contato com boa parte daquilo pela primeira vez, foi como se todo um universo sonoro se revelasse cheio de encantos.
A pergunta que essa segunda turma se fazia ao final do show era: existiram, além daqueles representados ali, outros músicos e gêneros tão incríveis no Pará? Hoje, as perguntas seriam: o que teria acontecido com os destaques do primeiro Terruá? E o que teria surgido de novo por lá nesses últimos anos?
A segunda edição do evento, que acontece nos dias 24 e 25 de junho no mesmo Auditório Ibirapuera que foi palco do primeiro, chega para responder essas questões. Mais uma vez contando com a direção artística dos produtores Carlos Eduardo Miranda e Cyz Zamorano (parceiros no júri do programa do SBT “Qual É o Seu Talento?”), o Terruá Pará fornece uma amostragem do que já foi criado, do que está sendo criado e do que ainda será criado na vibrante cena musical daquele estado. Cada artista participante faz um número breve e passa a bola para o seguinte, mantendo o tão elogiado andamento do espetáculo de 2006.
A seleção tem uma característica muito interessante. Tanto os veteranos seguem conectados com a modernidade quanto as revelações inovam sem descartar o que foi construído antes. O cantor e compositor Solano, que fez seu primeiro show em 1953 e tocou desde jazz até carimbó com Pinduca, não poderia estar mais atual. Em seu recente CD e DVD ao vivo, Arnaldo Antunes gravou “Americana”, sucesso de Solano que vendeu mais de 100 mil cópias nos anos 70. Dona Onete, atração da última Virada Cultural em São Paulo, é outro exemplo disso. Aos 72 anos, ela está lançando seu primeiro álbum só agora, com a ajuda dos jovens do Coletivo Radio Cipó, entre outros músicos. Seu estilo ela batizou de “carimbó chamegado”, por ter origens no carimbó rural, mas permitir letras românticas atrevidas, que conquistaram fãs como a diva do tecnomelody Gaby Amarantos. As duas estiveram no primeiro Terruá e retornam para mostrar seus novos trabalhos.
Neste ano, Gaby lançará seu disco “nacional”, aquele que deverá consolidá-la fora de seu estado natal. O guitarrista Félix Robatto (ex-La Pupuña e atual Félix y Los Carozos) é o maestro da cantora na empreitada, além de liderar a banda base do segundo Terruá. A ideia é promover uma fusão do tecnomelody, a vertente eletrônica que domina o pop paraense, com uma pegada mais orgânica, bebendo em guitarrada, carimbó e em todos os ritmos quentes típicos do Norte. Felipe Cordeiro vai numa batida semelhante. Ele, que é apontado por muitos como a grande revelação de 2011 na música brasileira, também vem com disco no segundo semestre, produzido por André Abujamra, do Karnak. Felipe revisita gêneros retrôs que hoje soam kitsch (caso do brega) e outros que soam cult (como o rock new wave dos anos 80). Não por acaso seu álbum se chamará “KitschPopCult”. No palco, ele conta com um guitarrista de renome em Belém, que trabalhou com Beto Barbosa e Alypio Martins, para citar alguns. É Manoel Cordeiro, também conhecido como pai de Felipe.
Pio Lobato é outro dado às conexões musicais. Ele deu o pontapé inicial para a revitalização da guitarrada, unindo os músicos Vieira, Curica e Aldo Sena no projeto Mestres da Guitarrada, e absorveu tudo o que pôde dos bailes de aparelhagem que visitava ao lado da amiga Gaby Amarantos. Se no primeiro Terruá ele integrou a banda base, dessa vez Pio terá um momento solo, em que poderá demonstrar porque hoje é considerado um dos principais guitarristas do país. A responsa é grande, visto que ele tocará no mesmo palco que Sebastião Tapajós, violonista virtuose de 68 anos que já escudou Astor Piazzolla e Oscar Peterson e é a grande referência da música amazônica, principalmente fora do país.
Quem quiser vanguarda, não vai resistir ao eletromelody da Gang do Eletro. Liderado pelo MC Maderito e pelo DJ Waldo Squash, o grupo é a grande expressão da música jovem paraense e começa ver seu nome circular nos blogs gringos. Quem quiser vozes femininas, ouvirá a estabelecida Lia Sophia, cantora de MPB nascida na Guiana Francesa que no momento, depois de uma aproximação do brega dos anos 70 e 80, mergulha no carimbó e Luê Soares, que aos 22 anos estréia como cantora, incentivada pelo pai Junior Soares, da banda Arraial do Pavulagem. Quem quiser hits vai se saciar com Paulo André Barata, patrimônio da musica paraense e autor de “Foi Assim”, “Nasci Para Bailar”, “Pauapixuna” e do hino “Esse Rio É Minha Rua”, famosos nas vozes de Fafá de Belém e Jane Duboc, e com Edilson Moreno, cujo arsenal de músicas gravadas já passa de 500, tendo entre os intérpretes a banda Calypso e a estrela do brega Wanderley Andrade. A Orquestra Juvenil de Violoncelistas da Amazônia, o grupo feminino Charme do Choro e a Associação Cultural O Uirapuru representam respectivamente a música instrumental e mais tradicional e o puro carimbó de raiz, que em suas várias facetas também tem vez no Terruá Pará.
Cardápio oferecido, agora é só garantir um lugarzinho nessa degustação sonora riquíssima.
Serviço:
Onde: Auditório Ibirapuera - Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 2 / Parque Ibirapuera - S.P. (11) 5908 4299
Quando: dias 24 e 25 de junho, às 21h00 (mesmo horário nos 2 dias)
Quanto: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)
