De Obdulio a Lugano. Uma fábula charrua e o gigante oriental está de volta na America no Sul...

Por Marcelo Mendez

Obdulio Varela
“Orientais pela Pátria, ou a morte...”

Essa é a primeira frase do hino do Uruguai. Da República Oriental do Uruguai. Não dá para dissociar esse sentimento de absolutamente nada que o povo desse país o faça. E como sempre faço questão de afirmar aqui, futebol não é uma ilha isolada de todo o resto do cosmos, pelo contrário. Talvez seja o maior de todos os reflexos sociais das massas principalmente aqui em nossa America do Sul. Assim podemos começar a contar a história do 3x0 para o Uruguai, sobre o Paraguai, na final da Copa América de Seleções disputada domingo ultimo.

O futebol uruguaio foi a grande primeira potencia mundial. Teve em 20 anos, duas conquistas olímpicas e duas copas do mundo, uma delas, um capitulo marcante para a nossa história aqui e para a deles...

O caro leitor que acompanha essa coluna não faz idéia do que foi a vitória do Uruguai sobre o Brasil no nosso mundial de 1950. Com o gol de Alcides Giggia sacramentando 2x1 no placar do Maracanã, uma nação toda entrou em estado de choque. O Brasil ficou mudo! E como bem ressaltou Carlos Heitor Cony, “Aquele silêncio foi o barulho mais ensurdecedor que o Brasil ouviu por muito tempo”. E aquela copa, foi uma conquista com a cara do povo Uruguaio. Vejamos...

Os vizinhos de continente, só vieram para a Copa, porque foram convidados e ainda assim foi complicado juntar um time. Havia por lá uma greve dos jogadores de futebol por melhores salários. Era de comum acordo que todos parassem, mas mediante a promessa de trabalho e de rendas, os jogadores aceitaram vir ao Brasil. Tiveram uma participação sofrida, vitórias mirradas e no sangue chegaram à decisão contra o Brasil. Contavam com grandes jogadores:

Juan Schiafino, Morales, Roque Maspóli, Giggia... Mas até aquele 16 julho, eram apenas “grandes jogadores'. Coube então ao seu capitão, torná-los GRANDES HOMENS.

Obdulio Varela...

Obdulio era diferente em tudo. Jogador valente, líder nato, inteligente, boêmio e muito sério, o capitão do time uruguaio foi o responsável por conduzir aquele grupo de jogadores rumo a uma virada que até então era impossível até para os dirigentes daquela seleção. Um deles entrou no vestiário quando o Brasil vencia por 1x0 para pedir aos jogadores que “Não tomassem uma goleada. Que perdessem de pouco, menos de 4 gols se possível...”. Obdulio o expulsou dali aos tapas, capotando mesmo na porrada o elemento. Expulsou também o técnico do vestiário e ali, chamou o grupo de jogadores e disse:

“Agora não tem mais ninguém pra passar a mão na cabeça de vocês. Agora não tem mais ninguém em quem por a culpa que não seja nós mesmos. Agora é a nossa vez. Vamos pra aquele campo e que voltemos aqui pra esse vestiário se voltarmos campeões. Senão, não precisamos nem voltar...”

E assim se fez a história. O Uruguai virou o jogo para 2x1, sagrou-se bi campeão do mundo e até hoje, comemoram (justamente...) aquele 16 de julho de 1950. O tempo passou.

Em sua biografia, Obdulio disse anos depois que “Vencer aquele jogo foi a maior tristeza de sua vida...” - Ao ver um bando de dirigentes canalhas, safados e ordinários comemorando o titulo no luxuoso Copacabana Palace, Obdulio teve nojo! Eram os mesmo que pediram a eles horas antes para “perder de pouco”. Agora, todos felizes e metade do país em greve. Ele não poderia ficar ali com aquela raça. Saiu. E andando pelo Rio DE Janeiro vazio, totalmente as traças, num silêncio de Armagedon, sentiu-se culpado pelo que havia feito. Carregou isso por toda sua vida.

Obdulio faleceu não querendo mais saber de futebol, mantendo a amizade com todos os jogadores Brasileiros daquela copa, nutrindo pelo Brasil um extremo e profundo respeito e, guardando consigo uma mágoa incrível. Sua história de vida é a síntese principal de seu povo. É o que há de mais representativo na sua cultura e em como deve ser visto o futebol por lá. Assim fez o seu técnico atual Don Oscar Tabárez.

Quando Oscar Tabárez voltou a sua seleção em 2006 o cenário do futebol por lá era deplorável. Fazia 20 anos que os Orientais viviam a derrocada de seus clubes, de sua seleção, de suas gerações de jogadores, indo embora cada vez mais cedo pra Europa. Tabárez, chamado pelos Uruguaios de “Maestro”, é um homem culto, inteligente, de fina estirpe, classe e elegância ímpar, percebeu então que o caso precisava de algo muito maior do que um esquema tático “milagroso”, uma mãe de santo, um macumbeiro bom, um craque... Era necessária uma reconstrução.

Para isso, Tabárez começou a mudar a formação do jogador uruguaio. Começou a ministrar palestras em suas categorias de base. Fez o jogador entender de como nasceu à mística de sua camisa celeste, de onde vinha sua história, sua grandeza, de seus homens, de seus feitos, de toda grandeza que significa por povo uruguaio, a entrega absoluta que se precisa, ao envergar aquela camisa azul. Em pouco tempo, ele tinha um grupo.

Lugano, Perez, Coates, Abreu, Rios, Gonzales, Forlan, Cavani, Suarez... Todos se imbuíram de procurar entender o que se passava. O Uruguai começou a se reconstruir, quando olhou para dentro de si mesmo. Quando percebeu que a união e a entrega deveriam se juntar a técnica e a força de seus jogadores, os Orientais começaram a obter resultados.

Primeiro foi a classificação para a Copa; De lá, voltou com um 4º lugar e com o melhor jogador da copa, Diego Forlan. Em 2011, depois de 86 anos, conseguiu classificar sua seleção sub 20 para as Olimpíadas de Londres. No mesmo ano, o lendário Peñarol conseguiu chegar a uma final de libertadores com o Santos. A seleção sub 17 chega à final do mundial no México e então, agora, vem a conquista da América...

Depois de 16 anos, o Uruguai chega novamente para ocupar seu lugar no continente. Com uma atuação impecável de Suarez e Forlan, os Orientais meteram um clássico 3x0 no Paraguai e conquista o seu 15º titulo sul-americano. Coroa o trabalho de um homem e seus dirigidos e bota as coisas no lugar onde elas devem ficar.

Hoje, na América do sul, não temos a tal Venezuela da vida e sua “Evolução”... Evolução do que??? De marcar feito cão e dar bicão pro alto?? De jogar cretinamente por um, ou dois ataques? Que evolução é essa??

De tempos em tempos a tecnocracia da ordem com a qual o futebol anda envolto, cobra uma ou outra “novidade”, uma ou outra “modernidade” no futebol, qualquer miséria pragmática que sirva para sufocar a poesia e o encanto que o esporte ludopédico sempre teve. Até conseguem. Durante uma ou duas partidas de uma competição, temos lá um gol de zagueiro, uma retranca bundona que se efetiva, um 0x0 cretino ou outro por aí. Mas isso não se perpetua.

O futebol, mais do que um esporte é uma lenda. Nele, não há espaço para covardes, burocratas, ordens e tecnocracias burras. E a quem delas se valer, fica aí a sentença:

O time do Lugano ganhou o troféu Fair Play...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
Share: