Um par de chuteiras para Simon Bolivar e nosso direito de sermos latinamente tortos. Começa a Copa América...

Por Marcelo Mendez

E começou então a nova edição da Copa América de Seleções.

Esse é o torneio mais antigo do mundo, disputado desde 1913 entre seleções aqui da nossa América Do Sul. Um torneio que já passou de tudo. Já foi disputado apenas entre Brasil, Argentina e Uruguai o que aumentou a rivalidade entre estes, já foi itinerante, sendo jogada com partidas de ida e volta, já foi banalizado sendo disputado a cada dois anos em sedes pré estabelecidas e agora, firma-se em formato classicão de copas. De cada um desses episódios, uma história. Em comum entre suas lendas e pares lendas, sempre o nosso jeito latino de ser.

E que bom que é assim...
Estadio das laranjeiras, Rio de Janeiro, no primeiro titulo da seleção brasileira na Copa América em 1922
A Copa América já foi uma verdadeira guerra. Em tempos idos, na melhor fase de nosso futebol, os anos 50 e 60, quando Brasil conquistou o mundo com duas copas sendo conquistadas seguidamente, teve o Sul-americano de 1959 na Argentina. Era a única chance de nossos vizinhos de continente superar a maquina de jogar futebol aqui do Brasil que tinha só, Garrincha, Zizinho, Didi, Canhoteiro, Pelé, Vavá, Bellini, Pepe, Zagalo, Julinho e outros tantos gigantes nossos. Os jogos, portanto tinham um caráter bélico sim. Bélico mas poético. E já disse aqui pra vocês que toda fúria humana é santa. Todo impulso humano sempre será mais rico que a polidez óbvia neoliberal imbecil. E então chegou um Brasil x Uruguai:

UMA BRIGA HOMÉÉÉERICAAAA NO MONUMENTAL DE NUÑES!!

Após um 3x1 categórico nosso em cima do Uruguai, a seleção brasileira bateu no Uruguai na bola e no cacete. Pelé, Paulinho Valentim (Ex marido de Hilda Furacão, Paulinho foi o centroavante mais macho da história de nosso futebol...). Didi e Bellini bateram até na terceira geração dos amigos orientais. Foi o ponto de mudança de nosso comportamento com relação à copa. O Brasil ali parou de ser cordeirinho e começou a entender as peculiaridades de se disputar essa competição.

O tempo passou.

Tivemos vários episódios ricos no relicário do torneio. Teve o valente Paraguai de Cabañas, Romerito, Fernandez, Mendoza e Spencer, sendo campeão em 1979, transformado o seu lendário estádio Defensores Del Chaco (Nome mais lindo de estádio do mundo!!) num caldeirão de lascar. Se o tal de Hercules, Átila, ou qualquer um desses peitasse uma parida de futebol no Defensores Del Chaco dos anos 70, sairia de sainha e dançando Balé, pianinho, quietinhos! Ali o pau comia!

Teve o Brasil de Bebeto e Romário conquistando o continente em 1989, teve a batalha do Peru em 2004 quando o Brasil venceu a Argentina, teve muita festa e alegria e agora, temos a edição de 2011 e aí o de sempre.

O caro leitor sabe da minha indulgencia com as coisas da pelota por aqui. O nosso futebol é vitimado por dirigentes burros, por administrações desastrosas, por mandos e desmandos políticos que beiram o absurdo e o nojo, tem as péssimas organizações e tudo mais. Também já falei que ninguém tira o cérebro do lugar para ver um jogo de futebol. Eu não paro de pensar quando assisto uma peleja de bola, nem tampouco tenho minha intelectualidade frágil, ou seja; Eu não vou ficar burro se decidir um dia ver um capítulo de novela, enfim...

É claro que sei de todas as mazelas que envolvem o nosso esporte maior e combato todas elas. No entanto precisamos separar as coisas muito bem para que não haja um conflito aqui. Quero dizer o seguinte:
Sempre que temos uma competição desse nível vem o maldito clichê ludopédico, “Ahh, mas na Europa num é assim...” Claro que não é. Nem poderia ser.

A Copa América de Seleções tem o que há mais latente em nossa identidade, em nossa cultura. Tem todo o impulso, toda a passionalidade, toda a santa capenguice de nosso jeito latino de ser. Não da para termos uma competição como a Eurocopa aqui. Imaginem os nossos amigos uruguaios sem o histórico estádio centenário? Pensem na Argentina sem o drama contido em ter a sua equipe com o maior jogador do mundo tendo que correr e suar sangue para empatar em 1x1 com a Bolívia? Imaginem só se o cachorrinho que entrou ontem no modorrento jogo de empate virginal de 0x0 entre Brasil x Venezuela fosse disputado na Alienz Arena de Munique?!? Oras...

Não quero dizer aqui que o correto é ser zoneado. Eu não sou idiota! Apenas ressalto que temos que assumir nossas idiossincrasias e nada melhor que o futebol para deixar isso às claras, as vísceras mesmo. Que se organize uma competição de acordo com o que pensamos acerca do esporte e de nosso jeito de ser. Isso não quer dizer que deva ser feito nas coxas como tem sido feito a nossa copa de 2014 ma isso é outra história pra outro texto. De 2014, aqui abordaremos apenas o que aconteceu em campo ontem no Estádio De La Plata.

Empatamos em 0x0 com a Venezuela. O porquê disso pode ser explicado de acordo com o que o nosso técnico Mano Menezes tem como entendimento da montagem de um time de futebol. Vejam...

Nosso time joga com dois jogadores abertos, que são Neymar e Robinho, mais Alexandre Pato como centroavante. Até aí beleza, os holandeses jogam com dois pontas abertos desde que Mauricio de Nassau invadiu Recife aqui no século XVI, quando descobriu as cabrochas de lá e deu um bico na gelada Amsterdã e na cara feia do genial Rembrandt. A diferença, no entanto é na maneira que se coloca as coisas dentro dessa questão tática dos posicionamentos.

A Holanda tem Kuity de um lado e Roebben do outro. Mas estes fazem à diagonal, batem em gol, trocam de posição com os laterais, recuam para as meias abrindo espaço para os meias atacarem, são dinâmicos. Os nossos, que são muito mais técnicos que os amigos laranjas, ficam lá.. Estáticos, abertos e parados sem fazer nada. Claroooo que dessa forma o time pára! Óbvio que o atacante fica sozinho, isolado no meio dos zagueiros adversários ouvindo um som do Tina Brooks. É evidente que o seu meio campo, que ficará com um homem a menos, terá o volante adversário batendo de frente com seu primeiro zagueiro. Isso aconteceu ontem pelo menos por quatro vezes. Sorte que o time Venezuelano sabe de futebol o mesmo que eu sei de física quântica. Então não corremos perigo. Ma daí...

Aquele 0x0 modorrento, casto, chato e pudico.

Jogaremos agora contra a Muralha Guarany que é a zaga do Paraguai. Espero que tudo corra bem. Para isso é simples a coisa, fácil mesmo de consertar.

Basta que joguemos a Copa América, como Latinos de fato...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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