O "ALBUNS CLÁSSICOS" traz aqui um caboclo que é o maior enigma de minha vida. Vamos explicar o porquê disso falando do sujeito que fez o tal disco...
CAT STEVENS e seu maravilhoso TEA FOR THE TILLERMAN.
Steve Demetre Georgiou é nome verdadeiro de nosso convidado. Mudou para Cat Stevens porque a probabilidade de você comprar um disco de Steve Demetre puta eu pariu a quatro... Convenhamos que é bem menor...
Nasceu na Inglaterra em 1948, filho de pai cipriota e mãe sueca. O pai tinha um restaurante em Piccadilly Circus e foi no velho piano daquele comércio que Stevens começou sua vida musical. Sensibilizado pela paixão do menino, o velho o coloca para estudar Macklin Street School de onde sai com 16 anos para a renomada HAMMERSMITH ART SCHOOL. Passa a ter contato com músicos, artistas plásticos, videomakers e começa a vislumbrar o que poderia vir a ser sua carreira. Participa de vários festivais colegiais e em um deles é descoberto por Mike Hurst, ex-membro dos Springfields e então, produtor que aposta em Cat, para a sorte de seus tataranetos...
Surge então o primeiro contrato em que, o cidadão da gravadora não fez questão alguma em priorizar. Também não quis pagar nada para o novo contratado. Fez o seguinte; Ofereceu-lhe 50% das vendas e como Stevens queria muito seu trabalho na praça e tramparia até de graça, assinou de pronto. Resultado:
Em abril de 1966 MATTHEW AND SON chega ao Mercado. Em outubro do mesmo ano, chega ao 5º lugar da Billboard e à estupenda marca de 780 mil discos vendidos. Logo na estréia, Stevens enche o cu de grana! Isso viria a ser uma Tônica em sua carreira. Nos álbuns seguintes, NEW MASTERS, MONA BONE JAKON, os números seguem surpreendendo até que chega 1970...
Com o saco cheio de tanta bajulação, grana, após uma tuberculose que quase o leva a morte, Stevens cai fora para o Marrocos e por lá pensa na sua vida, nas coisas que o cercam e em como isso tudo influencia a sua vida. Desperta nele a vontade de falar de coisas simples, de pequenos prazeres que sua vida de mega star não o permitia mais. Nasce desse ensejo o fabuloso disco TEA FOR THE TILLERMAN. Nele, canções como WHERE DO THE CHILDREN PLAY, SAD LISA e o mega hit WILD WORLD emplacam de cara e o plano de ficar na boa, na simplicidade vai pro caraio de cara; O disco chega a marca de 2 milhões de cópias vendidas e o mundo queria Cat Stevens.
Com o passar dos anos, manteve suas marcas absurdas de vendas e a excelência de seu folk simples, sem frescuras, nem mirabolancias. Passa a tentar de todas as formas a ter um pouco de paz e após um quase afogamento em 1976, decidi por vez buscá-la. Era dezembro daquele ano e Stevens, surpreendentemente cancela todos os seus milionários shows de final de ano, incluindo um, na véspera de ano novo na Times Square em Nova Iorque. Ninguém entendeu nada. Até que em fevereiro, dia 17 de fevereiro de 1977, Mike Hurst convoca uma coletiva que entra para história da musica.
Nela, Cat Stevens anuncia que a partir daquele dia abandonaria sua carreira musical para se dedicar a causas filantrópicas, ecológicas e religiosas. Avisa a todos que vai se converter ao Islamismo e que nunca mais subiria ao palco para uma turnê. Atônitos! Um tipo de pânico toma conta da sala de imprensa e a histeria só não é geral porque uma pessoa ali manteve sua serenidade o tempo todo; Cat Stevens.
A partir de então, passa a vender absolutamente tudo que tinha e doar toda a grana para instituições como Anistia Internacional e para as crianças de Bangladesh e do Afeganistão. Em 1978, o total estimado de suas doações chega a 120 milhões de dólares e em junho ele parte para viver em uma aldeia em Dubai. Recebe lá o seu novo nome muçulmano e passa a se chamar YUSUF ISLAM. Some. A sua volta só acontece em 1985 numa aparição triunfal no palco do estádio Wembley no LIVE AID em prol do povo da Etiópia que morria de fome naquela ocasião (ainda hoje morre mas enfim...). Cat é anunciado como Yusuf Islam, mas obviamente é reconhecido pelo povo que o ovaciona de pé e o clima de comoção no estádio é um dos episódios mais lindos do show business. De lá pra cá, pouca coisa se falou de Cat. Até 2006.
Nesse ano ele anunciou sua volta aos palcos para comemorar os 40 anos do lançamento de seu primeiro LP, com um disco cuja renda seria revertida para as crianças do Iraque, vitimadas pela guerra que os assola por lá. Repete o sucesso de vendas, como, aliás, sempre aconteceu. Mesmo afastados dos palcos desde 1976, Stevens fatura por ano, 2 milhões de dólares de royalties e faz questão de doar até o último centavo para as instituições de caridade. Bem...
O caso aqui não é se eu concordo, ou se discordo das escolhas de Cat Stevens. Isso é o que menos importa. O enigma que existe em torno dele na minha vida é que, ao longo do tempo sempre nutri pelo homem, pelo ser humano Cat Stevens, o mais profundo respeito não por nenhum tipo de concordância, mas sim, pela paixão com que o vi se dedicar a causa que ele acreditava e acredita. Com a honestidade, o caráter a hombridade que sempre teve e que é tão raro nesse mundão musical. Portanto, não sei responder se sou fã da obra, mas posso afirmar aqui que o ser humano Cat Stevens eu amo. De minha parte levará mais algum tempo pra decidir isso. Até porque em se tratando dele isso passa a ser uma questão menor.
Ouçam...
Miles From Nowhere
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
