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| O Divino Ademir da Guia |
Quando o amigo Pedrinho me chamou para ir ver um jogo de Masters no Aramaçã, estranhei. Então ele disse a frase mágica:
“O jogo é do Masters do Palmeiras e ele vai.”
“Ele...”
Para o palmeirense, Ademir Da Guia, “Ele”, é algo para além da sagração.
Homem de futebol, fino, refinado, dono de uma elegância capaz de sensibilizar o grande João Cabral de Melo Neto que lhe dedicou um dos seus mais belos poemas, mais de 900 jogos com a lendária camisa 10 do Palmeiras, Ademir Da Guia é muito mais que o maior jogador do Palmeiras em todos os tempos. Tal e qual a alcunha que o fez imortal, Ademir Da Guia é Divino.
“O Divino”.
Assim é chamado o mestre. Um homem que deveria jogar futebol de smoking, ou fraque. Um meia esquerda que jogava futebol como um primeiro violino de uma orquestra sinfônica. Ademir Da Guia é um Semi-Deus. E “semi”, apenas por uma questão de classe...
Afinal de contas a santidade plena faria com que ele se tornasse inatingível a nós, reles mortais ludopédicos. Mas Ademir é próximo. Tão próximo que me deixou perto dele no sábado ultimo.
Em um corredor de acesso ao campo do Aramaçã, vi aquele homem, uma lenda, uma divindade, caminhando com a fleuma e leveza dos sábios. Um grande homem que vinha em minha direção e que deu a esse pobre escriba ludopédico a honra de ouvir:
“Olá garoto, como vai?”
“Como vou...” - Fui!
Fui resoluto em sua direção, olhos cheios de água, olhos de menino que ama um esporte, que tem um ídolo que é imortal e que realiza sonhos... Não teve como dizer outra coisa diferente da frase que saiu da minha boca:
“Eu te amo, mestre!”
Sorrindo então ele me respondeu:
“Que bom...”
Ainda caminhando a seu lado, antes que chegassem todos os outros, eu consegui perguntar:
“Mestre, o que o senhor acha do Valdívia”
Com olhos ternos de quem faz acalanto a um coração em pulos, me disse com a voz suave e pausada:
“Acho bom jogador. Com paciência a torcida vai conseguir ver isso.”
E foi para o campo. Com os olhos cheios de lágrimas, emocionado, vi aquele homem e seus 69 anos entrarem no gramado para mais um recital. Classe, elegância, categoria e arte. Vi tudo aquilo durar pouco mais de 20 minutos para, mais tarde, na boca da noite, ser trucidado pela realidade que sempre aparece para nos acordar dos mais belos desvairios.
O Palmeiras enfrentaria o Grêmio pelo Campeonato Brasileiro de 2011.
Em meio a uma correria desesperada do limitado time atual do Palmeiras contra uma retranca calhorda montada pelo Grêmio de Celso Roth, tudo disputado num mar de faltas, trombadas e carrinhos, não vale a lauda uma explicação para o virginal e cretino 0x0 final entre as duas equipes. Acho que é até o que menos importa. Mas um personagem me cobrou o uso da paciência recomendada pelo mestre:
Valdívia.
Quando o chileno chegou ao Palmeiras, foi protagonista de alguns bons absurdos. Primeiro havia quem pensasse que o figura era craque. Em seguida tentaram fazer dele um ídolo, como se isso fosse possível assim, da noite pro dia no notebook transado de um hypado escritório de marketing. Então veio a enganação que confirma o factóide; Valdívia foi o melhor em campo contra adversários como Paulista de Jundiaí, o Oeste de Itápolis, Guaratinguetá... Mas não mantinha suas atuações no Campeonato Paulista, contra São Paulo, Corinthians ou Santos. Então veio uma proposta e o tal “ídolo” foi ser pop star no Catar, Emirados Árabes, jogando por clubes que ele nem sabia o nome. Na época eu disse que ele não tinha condições de jogar por ligas como a inglesa, espanhola ou italiana e tanto estava certo, que em 2010, o moço voltou para o Palmeiras. E o que aconteceu de lá até aqui, fora as contusões do jogador?
Nada. E nem vai acontecer...
Quando se enfrenta um ferrolho defensivo, em dias em que o time não ta conseguindo jogar, se espera de um camisa 10 que ele faça jus a sua estirpe e seja o que foi contratado para ser: diferenciado.
Que se acerte um passe, que se crie algo, de onde os outros não esperam, que ele cale a boca do cronista ma não... Não vai rolar isso por uma simples razão.
Valdívia é um comum.
No sábado ultimo quando Kleber clamava por uma... uma única bolinha tal e qual Knut Hansun implorava por comida em seu clássico A Fome, Valdívia sumiu do jogo. Se relegou ao ostracismo como faz todo sujeito comum, omisso, sem magia, ou encanto. Burocraticamente, Valdívia foi mal. Do primeiro ao ultimo minuto, jogou mal e não quis nada diferente disso. O Palmeiras empatou com o Grêmio por 0x0 por pura resignação óbvia, portanto. Caro leitor, óbvio que não sonho mais com um “novo” Ademir Da Guia, nem nada do tipo, muito menos quero que Valdívia jogue como tal, mesmo porque é impossível que o chileno jogue 0,001% do que jogou o Divino. Peço menos.
Quero apenas que sejam honestos os homens ludopédicos de nosso Brasil. Não tentem enganar seus apaixonados torcedores, disfarçando a falta de técnica, de arte, de encanto, com esquemas táticos estapafúrdios e vossos dublês de craques. Amigo técnico vos digo: uma hora a máscara cai e o barro onde se funde suas teorias absurdas se derrete. E quando isso acontecer, cuidado:
A alegria vai acabar conseguindo voltar aos campos, apesar de vocês...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
