Abrindo uma revista especializada em costura, me deparei com essa entrevista* do Jum Nakao.
Não tive como deixar passar, porque ele é sem dúvida um grande mestre. Um artista com uma criatividade que assusta, de uma técnica espetacular e de uma visão peculiar sobre a moda. Trocou o grande sucesso que havia conquistado nas passarelas pelo ato de educar.
Artista plástico, já foi diretor de estilo na Zoomp, assinou grandes trabalhos para a Nike e encerrou sua carreira nas passarelas com um desfile altamente simbólico, em 2004, que com certeza já faz parte da história da moda no Brasil.
Pessoas como ele surgem de vez em quando em meio ao furacão do comércio que é a moda para pensá-la de outra forma, para despertar sentidos que esse mercado não nos oferece. E para fazer refletir sobre uma questão que ele levanta aqui, a importância da educação no país como fonte transformadora.
Não adianta protestar na Oscar Freire contra o trabalho escravo e desumano nos quais, pessoas se submetem a ganhar um mísero salário, enquanto as grandes redes enchem a lata de grana. Todas as questões sociais têm forte ligação com as questões culturais, e num país em que não se preocupa com a educação não há como ser diferente, é onde se cultiva a cultura da exploração.
Então, que venham mais educadores como ele, para ajudar a preparar o terreno, para que lá na frente, mais adiante, tenhamos no mercado pessoas com uma mente diferente, realmente a fim de transformar e quebrar certos conceitos, mas profissionalmente, no dia-a-dia, enxergando o valor humano no trabalho.
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| Algumas das criações de Jum Nakao, no SPFW 2004. |
*Entrevista retirada da Revista Costura Perfeita
Depois do reconhecimento internacional como estilista você resolveu trabalhar a moda na educação. Por que essa mudança?
A ferramenta mais poderosa para a transformação das pessoas é a educação, porque somente ela nos liberta ao desenvolver nosso pensamento. Se eu só produzir roupas, serei apenas mais um. Já na esfera educacional, posso ajudar inúmeras pessoas a formar e solidificar a cultura da moda no país.
Como você avalia hoje as principais semanas de moda do país, como a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio?
A visibilidade das semanas é imprescindível para estabelecer a cultura de moda no Brasil, principalmente porque o conhecimento sobre a área é bastante recente por aqui. Foi a partir desses eventos que conseguimos valorizar mais o segmento. No entanto, há uma preocupação excessiva com a forma em detrimento do conteúdo, o que gera uma espetacularização do meio. Já notei mudanças positivas, mas ainda percebo isso. Entretanto, o problema não são as semanas de moda e sim a imaturidade do mercado. Ainda não há consistência suficiente para termos um ponto de vista analítico.
Há dois anos, você declarou que o mercado estava em declínio e não em crescimento, como a falsa glamourização fazia parecer. Essa realidade permanece?
O declínio que apontei fazia referência à entrada descabida de produtos importados. Houve uma euforia grande nesse sentido e isso era pouco mostrado. Hoje, no entanto, o segmento têxtil e confeccionista está mais preparado para lidar com isso. Embora vários pontos precisem ser solucionados, algumas regiões já conseguem vencer a concorrência graças ao investimento contínuo em conhecimento e tecnologia. Criar produtos originais que se diferenciem pela qualidade de matérias-primas, aviamentos, modelagem, entre outros elementos, é o caminho para superarmos essa dificuldade.
Profissionais que atuam nos bastidores dessa indústria, como fabricantes de máquinas, costureiras, reclamam do distanciamento que existe entre a área produtiva e a de estilo. Como promover mudanças nesse sentido?
Isso só ocorre por causa da precariedade educacional e cultural do Brasil. Um país não deve crescer somente para inserir as pessoas na economia. Não se pode limitar tudo ao poder aquisitivo. Precisamos nos tornar produtores também de cultura e de tecnologia. Infelizmente no Brasil os resultados imediatos e a questão financeira predominam, enquanto outros aspectos fundamentais para a evolução humana ficam em segundo plano. Qualquer nação que respeite sua cultura sabe que é necessário alimentar outros valores, além do bem material. A falta de valorização de diversos profissionais desse e de outros setores decorre dessa pobreza intelectual. A única solução é investir na educação e na cultura. A arte, por exemplo, estabelece uma nova relação das pessoas com a realidade, conseguindo despertar a sensibilidade de cada um. Isso é essencial ao desenvolvimento humano.
Como você trabalha a cultura dentro da profissionalização dos estudantes?
Tiro os alunos da sala de aula para colocá-los em contato com a realidade. Busco estimular a pesquisa cultural e também tecnológica, buscando novos processos e matérias-primas. Na área cultural, em 2010, por exemplo, desenhei figurinos para o espetáculo Os Duplos, da São Paulo Companhia de Dança. O coreógrafo, Maurício de Oliveira, planejava reproduzir o universo das abelhas. Com essa idéia, começamos a estudar as estruturas de insetos transformadas em extensões volumétricas do corpo dos bailarinos que flutuariam no espaço. Utilizo experiências artísticas como essa para aprimorar a percepção e a sensibilidade dos meus alunos. Assim, todo o processo de criação é enriquecido.
Quais são seus próximos projetos e suas expectativas para este ano?
Continuo no foco da educação, atuando como formador de moda. Há também projetos de arte, arquitetura e design distribuídos ao longo do ano. Espero que este ano, e cada vez mais, haja esforços e formas de produção que aprimorem a qualidade da moda. Torço para que a legislação seja mais favorável para o setor e, sobretudo, para que exista uma difusão do conhecimento e dos valores humanos. Somente pessoas conectadas com essa sabedoria fazem a diferença no mundo.
Jum Nakao também faz parte do Creators Project, que é um projeto dedicado a celebrar a criatividade, cultura e tecnologia. Aqui você pode conhecer um pouco melhor o trabalho de Nakao...
Nos vídeos abaixo você confere um dos desfile e logo a seguir Nakao explicando em que se inspirou para realizá-lo.
Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.

