De olho na moda - Os Cavalheiros de Bacongo


Por Carolina Vitorino e Priscila Tâmara | 

Sapé é uma gíria francesa usada para se referir a um homem bem vestido. O termo "Sapeur" foi incorporado ao vocabulário africano quando, no início do século passado, quando um dos primeiros congoleses voltava da França ao seu país com ternos e roupas refinadas. A partir daí surge a SAPE “Société des Ambianceurs ET Persons Élegants” (Sociedade de Animadores e Pessoas Elegantes). São homens que vivem em países da região de Congo, na África Central, que se vestem no estilo “Dandy”.

O movimento ganhou força nas décadas de 60 e 70, quando o músico Papa Wemba aderiu ao visual. Na década de 80 o movimento se fortaleceu ainda mais, quando ele volta a Congo, após um longo período em Paris. Numa de suas músicas ele cantava: "Não desista da roupa. É a nossa religião”. O movimento se deu através da situação caótica em que se encontrava Zaire, atual República Democrática do Congo, onde o ditador Mobutu permaneceu de 1960 a 1990.

Papa Wemba
Com inúmeras guerras civis, revoltas populares, fome e pobreza, os Sapeurs começaram a se dedicar às roupas pra se sentirem bem. Essa busca do diferencial na maneira de se vestir era também uma rebelião contra um decreto ditatorial de Mobutu, no qual dizia que seu povo deveria se vestir de uma forma tradicional, usando o traje padrão africano, o abacost.

Os Sapeurs teriam motivo suficiente para se revoltarem, pois viviam em condições subumanas, onde não havia água encanada, esgoto ou mesmo comida. Ao contrário disso tudo, eles se preocupavam em se destacar na sociedade através das roupas extravagantes e diziam até, que quem pertencia a SAPE, não lutava e nem envolviam em brigas, pois era “deselegante”. Seu lema era “Vamos largar as armas, vamos trabalhar e se vestir com elegância”.

Um dos Sapeurs, adepto da Société des Ambianceurs et Person Élegants (SAPE)
Os que não fazem parte da SAPE, os admiram e os respeitam, porque fazem culto ao estilo e a moda como religião, são eles que quando caminham pelas ruas mais pobres de Bacongo ou Kinshasa trazem um ar de esperança para os lugares abandonados. Muitos vivem em extrema pobreza, mas com guarda roupa com muitas peças que valem milhares de dólares. A forma como conseguem essas peças de grife até hoje ninguém sabe, só deduzem que não é de maneira lícita.

As Sapes possuem uma hierarquia, havendo rivalidade entre eles como os de Bruxelas com os de Paris, os de Kinshasa com os de Brazzaville ou os de Bacongo com os de Mungali. Cada um tem seu estilo e seguem regras, como os de Brazziville seguem a “lei das três cores” na qual misturam cores em seus respectivos looks.

É inevitável que uma cultura tão distinta, colorida e até lúdica, podemos dizer, inspire muita gente. O fotógrafo italiano Daniele Tamagni publicou um livro em 2009, “Gentleman of Bacongo”, com imagens capturadas durante dois anos de estudo, assim como Francesco Giusti publicou um ensaio chamado Sapologie.

Tudo é extremamente contrastante nesse movimento, não só as cores fortes de suas roupas e o cenário onde tudo isso acontece. Muitos desses caras poderiam juntar essa grana toda que gastam com roupas de marcas como Galliano, McQueen, Yamamoto, e comprar uma casa, por exemplo, você pode pensar. Mas eles iriam te dizer: “Eu sou um Sapeur”, e ser um sapeur é fazer parte de uma ideologia, é como seguir uma religião.

O estilista Paul Smith também se inspirou no tema em sua coleção primavera/verão 2010 focando-se no vestuário masculino adaptado ao feminino, explorando bem as cores, forte característica da marca.

Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.
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