Por Elsa Villon
Como todos sabem, fiquei duas semanas sem total comunicação com o mundo que não competisse à graça de Porto Esperidião. Justamente por essa razão gostaria de desculpar-me pelo hiato de minha ausência e atraso nas notícias dessa coluna aqui, nas Pastilhas mais Coloridas do planeta (momento de vender o peixe desses gajos).
Estou com o texto abaixo pronto há exatas três semanas, um dia e 10h e só consegui finalmente encaminhá-lo dois dias depois de retorno da viagem.
O lado bom é que estou decantando a experiência para preencher essa coluna com vértebras literárias e jornalistas e até um pouco líricas por um bom tempo. Experiências não faltaram.
Adianto algumas aqui para não estragar todo o final. Eis: calor, militares, jornalistas (primeira contradição), milho, carne, pânico de avião, estradas de terra e muito suor e cansaço.
Deixo essas palavras-chave como pseudo-hashtags para o que se segue. Espero que gostem do que vão ler, porque deu trabalho escrever num computador lerdo que tem a internet mais lenta do solo mato-grossense.
Enjoy.
O Original
Depois de alguns meses de preparo e trabalho e algumas semanas de divulgação (principalmente pelo Pastilhas Coloridas), eis que chegou o grande dia: a viagem em si.
Ao contrário do meu estilo etílico, não bebi uma gota de qualquer líquido sequer para superar a tenebrosa claustrofobia.
Acordando às três da manhã e com o estômago totalmente do avesso, foi quase impossível pensar em qualquer coisa. O vôo saía de Cumbica (Guarulhos) às sete da manhã e ainda precisávamos nos reunir, logo, não pensei em mais nada além do fato de querer estar dormindo naquele momento.
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| Fernando Balthazar, Silvana Oliveira, Juliana Nagy, Elsa Villon e sua notável euforia ao entrar em um avião pela primeira vez. |
Depois de uma hora e vinte até Brasília, seguimos em conexão rumo à Cuiabá, com mais uma hora e vinte de vôo. O final glorioso desse pânico foi uma turbulência na hora de pousar na cidade mais quente do país. Minha cara de espanto, medo, choro e pânico também valeram a aterrissagem. Acho que foi o único momento da viagem em que eu não falei. Grudei no assento como um filhote assustado ou uma criança tímida gruda na mãe e não abria a boca. O medo de piscar e o avião cair era tanto, que lacrimejava o tempo inteiro.
Chegando à Cuiabá, o bando de paulistas deslocados está quase em processo de desidratação. É certo que nos últimos dias São Paulo não esteja tão frio, mas ainda assim, sair de supostos 15º para 37º é uma mudança drástica.
A sorte é que todos os ônibus nos ofereciam ar-condicionado em níveis polares para aliviar-nos. O azar é que todo paulista tem alguma “...ite” que ataca com ar condicionado.
Mais duas horas depois de pousar, seguimos de Cuiabá para Cáceres, a cidade de apoio à operação.
Nossa equipe e todas as demais correspondentes à Operação Tuiuiú ficaram hospedadas no 2º Batalhão de Fronteira (B Fron). Sei que o contexto histórico entre jornalistas e militares não é dos melhores, mas devo ressaltar que todos eles foram deveras prestativos.
Também enfatizo que ¾ da população feminina hétero é atraída por homens de farda. Isso é quase unânime, não tentem refutar. E com mais de 200 mulheres dos quatro cantos do país em um dormitório militar, acho que a estrutura tão rígida de um batalhão se desmontou ao longo das pranchas e secadores nos banheiros, contextualizada pelos altos níveis de estrogênio.
Cerimônias feitas, homenagens idem, seguimos para Porto Esperidião. É o segundo dia de viagem aqui e devido a problemas de logística, nossas doações ainda não chegaram, atrasando nossa partida à zona rural.
Pelo pouco conhecido da cidade, já é possível reparar nas latentes discrepâncias de condição social. Há muitos carros caros e casas de madeirite.
Para a realização das atividades, a Metodista trabalha em conjunto com a Universidade Católica de Brasília. Igrejas e ecumenismo à parte, todo mundo é deveras legal demais da conta e muito comunicativo. E os deuses me ajudaram mandando também uma gaja de relações internacionais para fortalecer o elo de comunicação social em Porto Esperidião. Jornalista é bom argumentador, mas a equipe está repleta de biólogos, psicólogos, biomédicos, engenheiros ambientais e tantos outros profissionais da saúde que eu estava até me sentindo um tanto quanto solitária e carente. Um aluno de direito também veio fortalecer. Valeu Pryscila e Denílson, a tia estava sozinha aqui.
Faz um calor incessante e no momento, são 10h47 (11h47 para vocês) desta terça-feira de sol e um céu de brigadeiro aqui. A expectativa é partir ainda hoje rumo à Fazendinha (momento piada interna com o meu amigo e irmão Gui Martinelli). Estamos no aguardo da transportadora com nossa meia tonelada de doações para seguir rumo à zona rural.
E eu aproveitei o hiato para checar os emails, entrar no twitter e fazer o texto do Pastilhas, porque, se tudo der certo e nada der errado, internet só daqui uma semana.
Por hora é isso e eu desejo muito calor a vocês, de preferência, uma parte do daqui, porque está osso do fêmur superar a fadiga.
Desejem-me sorte, pois daqui a pouco é a vez de trabalhar com nossos amigos chiquitanos (mistura entre índios e bolivianos). Espero voltar viva para a coluna da próxima semana.
Ps: Quem me conhece sabe que eu não suporto milho e acreditem, tem milho em praticamente todos os pratos, até na salada de frutas.
Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
