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No bico do Tuiuiú - Tudo tem um Fim

“Estou aqui mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia”. E pela última vez pela coluna “No bico do Tuiuiú”, depois de mais alguns desencontros de prazos. Motivos e desculpas são vários, mas vale a pena a sinceridade, para não ferir a presunção de inocência da jornalista (ou quase) que vos escreve. Não sou boa com despedidas e assim como o cantor Leonardo “não aprendi dizer adeus”. Principalmente de uma coluna como esta, que realmente foi um marco entre pré-durante-pós Rondon.

Contação de história / Foto: Bruno Aranda
 Dizer “tchau”, encerrar um ciclo, são algumas das coisas que me deixam profundamente nostálgica e até um pouco melancólica, mesmo sabendo que isso seria inevitável. Então adiei minha partida do Tuiuiú. Mas chega a hora de dizer “Adeus”, no maior estilo Bilbo Bolseiro. Adeus...

Referências nerds à parte, finalizo com pesar e até um aperto, a coluna mais indígena da cidade.

Então vamos a ela...

A biblioteca de Porto Esperidião tinha apenas dois problemas: o primeiro era o teto, que deixava a água da chuva entrar e molhava todos os livros. E servia também de casa para os morcegos. O segundo e principal é que ninguém sabia que ela existia. Havia um outro fator, que não era bem um problema, mas uma dificuldade: o responsável pela biblioteca tinha a mobilidade de um dos braços reduzida. E os livros estavam um caos.

Biblioteca de Porto Esperidião / Foto: Divulgação
Fechamos assim: a bela biomédica Marina Rangel cadastrava os títulos em um software recém-baixado para evitar o alto consumo de papel com os recibos da biblioteca. E a jornaleira, ficou com a seguinte parte: tirar todos os livros das estantes e recolocá-los organizados por gênero e ordem alfabética. Parece fácil, mas demandou mais tempo que o esperado. Era meio-dia, horário tradicional do almoço e seguimos para a bóia. Uma hora depois, retornamos a missão imposta.

As horas se passaram e eu não vi. Quando me dei conta, eram quase nove da noite e não tínhamos acabado. Mesmo com todo o empenho, precisamos dos reforços de todos alunos da Metodista para conseguir terminar às dez e meia da noite. Mas conseguimos.

Devido ao horário, perdemos a janta, mas para comemorar, seguimos rumo ao “point” do centro de Porto Esperidião: Skinão, famoso por seu lanche “baguncinha”. Eu não podia deixa de ter essa experiência gastronômica, e pedi o maior e melhor baguncinha já feito. Os ingredientes: pão, salsicha, hambúrguer, queijo, calabresa, tomate, bacon, maionese e o que mais tivesse na chapa dos lanches antecessores.

Após tanto tempo de espera, lancei o bordão fomérico que se tornou um dos momentos mais engraçados da viagem: “Vem ni mim, delicinha”. Abri a bocarra e dei a maior e mais suculenta mordida no lanche já registrada na história. Mas é claro que expectativas geram decepções e a primeira coisa que noto: milho. Gosto tanto de milho como gosto de apanhar até sangrar com uma réstia de Chamequinho (essa referência é do meu caro amigo Bruno Schneider). E todo sabor e antes fome, se converteram na apoteótica frase: “Eca, tem milho”. Virei a piada da noite, do dia seguinte e do resto da viagem. E acho que ninguém nunca vai esquecer-se da sequência “Vem ni mim delicinha” + “Eca tem milho”. A noite acaba em ritmo de festa.

Quinta-feira eu fui encarregada de seguir novamente à zona rural, rumo a todas comunidades em que passamos antes do material chegar. 180 km de estrada de terra e muita poeira me esperavam, mas a oportunidade de entregar os kits e, principalmente, os livros me motivaram. E lá fui eu, com medo de ter outra crise de labirintite, mas ansiosa pelo retorno. Foi muito legal voltar às regiões mais distantes e finalizar a proposta inicial: facilitar o acesso aos livros, kits odontológicos e todas as doações recebidas. E que faria de novo, com inseto, calor e cansaço, mas com muita boa vontade.

Na volta à cidade, o GEFRON achou um ônibus escolar com dois homens e um pedaço de gente, vulgo eu, muito suspeito. Próximos da fronteira com a Bolívia, local propício para passar com drogas, os “pirriu” da fronteira fizeram-nos uma pequena parada. Fardados e com fuzis maiores que eu, perguntaram o que fazíamos lá e pediram as identidades. Soube depois que alguns dias antes, eles haviam detido traficantes com muitos quilos de droga e por isso, a vista grossa conosco e com todo mundo que passava.

Inauguração do escovódromo / Foto: Elsa Villon
Cheguei a tempo da inauguração do escovódromo na creche, que contou com a presença da primeira dama da cidade. “Escovódromo Guilherme Laager”, batizado assim graças ao empresário que doou a verba para a transportadora das doações. Valeu Gui.

Sexta-feira: o último dia. Eis o dia da chamada “Feira Mix”, na qual Católica e Metodista desenvolveram seus trabalhos. O biodigestor, construído pelo pessoal de Brasília, que produz gás por meio de esterco e água, era a grande atração. O minhocario também, além dos aquecedores de água feitos de garrafa PET. Mas a minha grande paixão foi ver uma árvore gigante, enorme, cheia de livros pendurados, como se fosse frutos. Sentei com as crianças e li e para mim, foi o bastante. Missão cumprida.

Para encerrar a feira, os chiquitanos fizeram uma apresentação típica, com dança e depois nos “retatuaram” com jenipapo. Uma pena, a minha pintura saiu logo no primeiro banho.

Sábado. O primeiro que poderíamos acordar tarde. Descanso. Repouso. Precisava só correr atrás do presente da amiga secreta e curtir o segundo churrasco na casa do Perturba. Presente comprado, segui para o bem merecido descanso, churrasco e cerveja às margens do Rio Jauru. Maricas que sou, ao invés de ir nadar como todos, decidi aprender a pescar com o professor da Católica, Marcos Vinícius – o homem mais calmo e do abraço mais acolhedor do mundo. Pesquei algumas pedras, arrebentei a linha da vara e me aposentei na atividade. Melhor continuar no jornalismo mesmo (ou não). O final da noite reservava o famigerado Rondoscar, no qual cada um foi premiado em uma categoria, seguido da entrega do amigo secreto. Ganhei na categoria “Na Lata”, por ser essa gracinha de pessoa e responder tudo “na lata”.

Mas o melhor estava por vir: a entrega do presente. Eu tirei a biomédica já citada, mas quem me tirou foi muito sagaz. Nosso ilustrador, poeta e futuro advogado em Brasília, o Denilson, fez o discurso mais bonito do mundo, comparando meus olhos ao mar, os cabelos às ondas e a pele à areia, dizendo que minha natureza era toda poética. E finalizou me dando uma calcinha fio-dental de presente, daquelas que não dá nem para usar no cabelo. Mas com todo respeito, afinal, ele é muito bem casado e pai de um jovem fã do Homem de Ferro. Eu, toda desenvolta e agitadora, fiquei mais vermelha que conta de pobre no final do mês.

Afinal, as meninas riram de mim porque pendurei um varal debaixo da mesa para secar “as lingerie”, morrendo de vergonha que alguém visse minhas calcinhas com estampas de vaquinha ou de bolinhas. E no desfecho glorioso, ganhei a calcinha menos ortodoxa da viagem. A vida é uma ironia.

Domingo: todos se despedem rapidamente da creche, porque o ônibus que nos levaria ao Batalhão de Cáceres já nos esperava e porque a diretora iria chegar e ver que não lavamos a louça. Nunca vi 20 pessoas embarcarem tão rápido.

Dali para frente, era só alegria. Batalhão, comida à beça, descanso e homens fardados nos servindo e carregando nossas malas. Tirando a apresentação final, em frente a todos os participantes do Rondon, umas 400 pessoas, à noite nos esperava uma bela festa.

Descanso / Foto: Gleice Pereira
Escrevemos um poema, nos revezamos e o preparador físico Fernando Balthazar fez o que melhor sabia na viagem: imitou o Silvio Santos. Sucesso garantido. Depois disso, era só correr para o banho e ficar o mais bela possível para a merecida festa de despedida.

A festa: junte jovens do país inteiro, isolados de casa há duas semanas e lhes dê algumas cervejas em um calor senegalês. Foi essa a receita. E eu não fiquei de fora, mesmo sem saber dançar, fui tirada para por um engenheiro paranaense que queria mais do que dançar. Mas eu fugi. Depois surgiu um mineiro que tinha acabado de levar dois foras em sequência. Óbvio que aumentei as estatísticas para três. E o final foi um parente de grego me enchendo, mas também dispensado. Esse, aliás, estava atrás de mim no dia seguinte, na fila do aeroporto – com uma enorme aliança de casado. É... Eu sei que teríamos de acordar às cinco da manhã no dia seguinte e voltar para nossos Estados, lares e famílias. Mas dancei como uma idiota até as 3h da matina e quem viu, disse que foi o ápice da festa: Elsa Villon dominando as pistas de dança mato grossenses à lá Silvio Santos.

Antes de ir embora, cheguei num dos rondonistas de outra faculdade de Brasília, que já tinha visto na primeira reunião do Batalhão e chamou minha atenção. Não por ser bonito ou por eu ter interesse nele, longe disso. Mas ele tinha uma trancinha de padauan e eu não podia deixar de dizer o quanto era legal, até porque, era uma oportunidade única. Com toda minha classe, solicitei a licença da retória e lhe disse: “Moço, eu só queria dizer que o seu cabelo é muito legal”. Virei as costas e fui dormir.

Segunda-feira: ressaca, malas prontas e o aperto da despedida. Disse no começo e repito no fim: não aprendi dizer adeus. Nem à cidade, nem às pessoas e nem às sensações. O pessoal da Universidade Católica de Brasília principalmente.

Ficamos próximos até o último minuto, no aeroporto, quando voltamos para São Paulo. E a fina garoa paulista e o trânsito de quase três horas, após duas semanas e dois dias foras foram a recepção calorosa da paulista que foi chiquitana, boliviana e mato grossense, ainda que por um breve período.

E foi tudo isso que eu trouxe, no bico do Tuiuiú.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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No Bico do Tuiuiú – Zona urbana, materiais e morcegos

Por Elsa Villon

Como puderam perceber, não sigo o calendário gregoriano e o termo “na próxima semana” acaba ganhando uma nova versão. Eu violei as normas do continuum-espaço e pagarei por isso.

Três semanas se passaram desde que postei as minhas últimas impressões sobre terras mato grossenses. Demandas ocuparam meu corpo e minha mente e, entre fazer um texto ruim e não fazê-lo, optei pela segunda opção. Perdoem o hiato.

Vamos lá... Até Deus descansou no sétimo dia. Nós não chegamos nem perto de virar alguma divindade, mas meio descanso é melhor que descanso nenhum.

Partindo da zona rural, seguimos rumo à casa de um dos secretários de Porto Esperidião para um churrasco deveras merecido. Perturba, como é conhecido, mora às margens do Rio Jauru. Um gramado, um deque, uma churrasqueira e algumas cervejas depois e a gente nem lembra mais do cansaço.

O combinado era: bebeu, não entra no rio. Justo. Afinal, ele tem mais de 70 metros de largura e uma correnteza considerável para ninguém colocar defeito. Eu, obviamente, preferi a loira e fiquei repousando na rede após muita carne, mandioca e salada.

Mas o repouso logo acabaria. Voltamos e ficamos hospedados novamente na creche que nos abrigara antes de seguir à zona rural. “Pingo de Gente”, como era conhecida. Nós, meninas, decidimos que dessa vez era nosso tempo de imperar no quarto com ar-condicionado e dominamos o local.

Segunda, dia de labuta. O combinado era ajudar nas atividades do pessoal e tentar desenvolver oficinas de leitura. Segui para auxiliar meus caros Fábio Mariano, Fernando Balthazar e Bruno Aranda na oficina de brinquedos para as crianças. A minha didática com crianças é semelhante à de um orangotango, com a diferença que um orangotango leciona melhor. Pensem em crianças de 1 a 15 anos, correndo e berrando na sala, querendo pegar tintas, tesouras, colas, entrando, saindo, pisando e todos esses gerúndios que só a atividade pueril permite. Pois é.

Crianças hipnotizadas pelo filme
Tentamos acalmar as crianças, mas não teve jeito. Foi quando nossa querida psicóloga Gleice Pereira sugeriu: “Bota um filme para eles assistirem”. Obrigada Gleice. Desde sempre eu quis implementar o Cine Rondon, até fiz uma curadoria de filmes e o único lugar que conseguimos fazer alguma exibição foi na aldeia chiquitana. Mas eles eram muito quietos e mal piscavam durante “Cars”. Foi muito emocionante ver algumas pessoas tão compenetradas diante do telão improvisado.

Mas deu certo. À noite, para os adultos, fizemos outra sessão, dessa vez de “O Auto da Compadecida”. Os presentes adoraram o filme, até porque é difícil não gostar de Ariano Suassuna.

Na terça, as dentistas mais bacanas do mundo, Juliana Nagy e Silvana Oliveira, seguiram para a escovação infantil e aplicação de flúor nos bacuris. Eles adoraram e ganharam, todos, um “kit dentuço” cedido pela Colgate para ninguém mais deixar de escovar os dentes.

Nossa biomédica na operação também ajudou: Marina Rangel ligou seu lado pedagoga e foi mostrar como lavar as mãos direito antes das refeições. Aproveitamos a tinta para agradecer o doador da verba que possibilitou que todo o nosso material chegasse. Valeu Guilherme Laager, sem você, nem os kits, nem as tintas e nem todo o nosso material teria chegado.

[Pausa dramática para a entrega do material: Após quase três semanas, perder-se em Brasília e tomar um “Pelé” da transportadora, nosso material finalmente chegou. Confesso que chorei com o ocorrido. Afinal, foram quase 500 quilos em livros de doações que poderiam estar perdidos para sempre. Fim da pausa dramática para entrega do material].

Quarta eu realmente estava empolgada, porque iria concretizar um dos meus objetivos: montar a biblioteca de Porto Esperidião. O que eu não sabia é que eles já tinham uma.

Porém, estava toda desorganizada. O responsável pelo espaço era um senhor muito gentil, mas que sofria de paralisia de um dos braços, o que reduzia a sua mobilidade para organizar os livros. O segundo problema é não ter suas demandas atendidas, uma vez que havia solicitado duas prateleiras à Prefeitura há tempos e não fora atendido. Mas com o Projeto Rondon lá, parece que eles conseguiram atender à solicitação.

Os materiais chegando da transportadora
Como diria meu querido professor, Paulo Ramos, “a situação estava periclitante”. Ao começar a organizar a biblioteca, jogamos no lixo três caixas grandes de livros, por estarem mofados, molhados e sem condições de uso. O teto do lugar estava cedendo e nas épocas de chuvas, a biblioteca alagava. Além disso, ela tinha pequenos hóspedes: morcegos no forro. Eu e Marina nos dedicamos totalmente a organizar o espaço e ficamos o dia inteiro acompanhadas dos primos do Batman.

O desfecho dessa biblioteca, assim como a Feira Mix e a festa de despedida, você confere na última coluna no “Bico do Tuiuiú”, que já está no forno.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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No bico do Tuiuiú - Picadas, Pererecas e Pronto Atendimento

Foto e texto: Elsa Villon
Conforme combinado, cá estou mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia. Brincadeiras a parte, mais uma vez você confere o que a proto-jornalista andou fazendo em terras longínquas.

Partindo novamente da zona rural, é vez de Vila Picada entrar na roda. O nome é auto-explicativo: insetos. Bem distante de Fazendinha, bem distante da zona rural. Essas são as coordenadas de Vila Picada.

No distrito, mais uma vez as atividades continuaram, mas a população sofre com uma grande crise de identidade: eles não se reconhecem como indígenas, ou chiquitanos, ou bolivianos, mas estão longe demais da zona urbana para terem suas demandas atendidas.

Ou seja: mais uma vez, ficam ao Deus dará. A escola que nos hospedou não apresentava condições mínimas, nem de infra-estrutura, nem de higiene. Os banheiros tinham latrinas, ou “bacias francesas” ao invés do famoso trono.

Mas a melhor surpresa foi na hora de dormir: carrapato-estrela. Isso mesmo, aquele que gruda, não sai nem com reza brava, suga nosso sangue e precisa raspar a cabeça para encontrar. E o que as 10 mulheres desesperadas com suas enormes cabeleiras fazem? Vamos dormir no Posto de Saúde. Algumas foram corajosas e dormiram na escola. Eu não fui uma delas. Projeto Rondon 1 X Elsa Villon 0.

Considerando que há material hospitalar no local, posso afirmar que as condições de higiene também não eram das melhores. Baratas e pererecas circulavam no espaço. E esse é o momento de refletir: como é possível estudar em um ambiente infestado de insetos e sem condições de saúde? E como é possível se tratar se o próprio material hospitalar acaba sendo contaminado? Mais um entre os tantos paradoxos dessa viagem.

Enquanto eu pintava um mural no escovódromo (pia com cinco torneiras e espelhos desenvolvida especialmente para escovação dental das crianças) que foi construído na escola, parte dos rondonistas seguiu para outra comunidade: São Fabiano. Não cheguei a conhecer bem o local, mas quando voltei para entregar os materiais, pude afirmar: foi o local mais precário e abandonado que encontramos.


Vila Picada / Foto: Mariana Queiroz
A escola é minúscula e só há uma: crianças e adolescentes dividem o teto de madeira cercado por árvores e mais nada. Entretanto, quem desenvolveu as atividades em São Fabiano afirma que foi o local onde as pessoas mais se emocionaram com a visita e que aproveitaram ao máximo toda informação nova que chegava. Acredito que isso se deva em parte, pela enorme humildade e modéstia da população local, que sabe tanto e até mais que nós, mas não é arrogante e aprende mais. E em parte, pela situação de crítico abandono em que se encontra.

De lá, seguimos para outro Batalhão Militar, apenas para dormir: o de Santa Bárbara. Lá, conforme foi sugerido por nosso sargento, é que vemos o que realmente vivem os militares. Nada de chapinha, nada de xampu ou creminho. Água pouca e fria e instalações precárias foram algumas das cortesias.

Logo cedo, seguimos para Santa Rita. A escola tinha uma estrutura simples, porém suficiente. E o destaque era a diretora, uma mulher com 30 e poucos anos de extrema simpatia e criatividade. Ela promovia desfiles com roupas feitas de material reciclado, trabalhava com brinquedos e oficinas de artesanato e todos os alunos participavam. Foi interessante quebrar a cara ao levar as oficinas de artesanato para a escola e descobrir que o artesanato deles era bem mais complexo. Brincos feitos de latinhas de refrigerante, vestidos feitos de sacolas plásticas, tudo com um acabamento tão perfeito que ninguém diria que é feito daquilo. Zona rural 1 X Projeto Rondon 0.

Seguimos então para Vila Cardoso, a última parte da zona rural. De longe, a melhor escola. Comparada até a zona urbana. Uma quadra ampla, salas recém-reformadas, refeitório limpo, refeições completas. Nota dez para a escola. Descreveria mais as atividades do local, mas foi justamente o dia eu tive uma crise de labirintite e fui parar no posto de atendimento.

O combo calor + andar muito rápido de bicicleta + estresse + ônibus sacolejante = Elsa Villon tomando soro e complexo B. Mas pelo menos o lugar era limpo. Não sei quanto tempo ao certo fiquei lá, mas acabei não fazendo nada no dia. Projeto Rondon 2 X Elsa Villon 0.

Houve uma última vila visitada, mas foi tão rápido e no domingo de manhã, que acabamos saindo de lá antes das 13h e voltando para a zona urbana.

O que fizemos no restante da tarde, vocês conferem na próxima semana, mas já adianto que envolvia rio, churrasco e uma loira gelada.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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No bico do tuiuiú: Porto Esperidião, Bolívia e Chiquitanos

Por Elsa Villon

Aulas de violino para os chiquitanos. Foto: Bruno Aranda
Mais uma semana se estende nessa jornada chamada Rondon. Já superadas vacinas, aviões, calor e militares, eis que chega o momento que todos de fato esperaram: a ida para a cidade.

O B-FRON, em Cáceres, fica localizado há pouco mais de 210 km de Cuiabá (o que já é uma distância considerável). Porto Esperidião, por sua vez, fica a mais 100 km de Cáceres. Logo, Porto Esperidião está há quase 310 km de distância da capital mato-grossense.

Era domingo, tomamos café e almoçamos ainda no Batalhão, mas logo seguimos rumo a Porto, o que sempre parece divertido por estar atrelado à Bahia e ao Carnaval. Mas no Mato Grosso, o papo é outro. Uma hora e meia, quase duas depois, chegamos: eis o nosso destino.

Ficamos na zona urbana até quarta-feira da mesma semana, no aguardo da transportadora que ficou responsável pelas doações e material para trabalharmos. As previsões de entrega ficaram perdidas quando as caixas foram parar em Brasília. Nessa hora, Metodista e Universidade Católica de Brasília decidiram partir rumo ao desconhecido.

Porto Esperidião é a típica cidade pequena. O problema é que ela é grande. Sua extensão urbana nem tanto, mas na zona rural é aonde o bicho pega. Saneamento é coisa rara, água potável idem e as moradias são realmente precárias. Os distritos pareciam cenários cinematográficos, montados para séries nordestinas da Globo. Mas eram de verdade.

Seguimos rumo à zona rural, tendo como parada Fazendinha, Vila Picada, São Fabiano, Santa Rita e Postinho. A primeira comunidade que visitamos foi Fazendinha, onde fica a aldeia chiquitana (chiquitana, não chiquititas, que fique claro). Ela é formada por índios e imigrantes que misturam a Bolívia com o Brasil em uma nova etnia e cultura. A comunidade fica há mais ou menos 180 km da zona urbana.

Como segui de carro, juntamente com o Secretário de Cultura do Município, eu e mais dois colegas internacionalizamos a viagem com 30 minutos na Bolívia. Passamos pelo GEFRON, que guarda as fronteiras, tanto do lado brasileiro, quanto do lado boliviano.

O sol na fronteira é de lascar e digamos que não éramos muito bem-quistos no vilarejo boliviano. Os guardas perguntaram o que pretendíamos e, para poder passar, eles pediram uma Coca-Cola como entrada no país. Chegamos ao único comércio local e um dos rondonistas, muito ingenuamente, pediu “coca”. Lição do dia: sempre seja bem específico ao pedir “coca” na Bolívia, para não acabar levando um pacote de folha ao invés do refrigerante almejado.

Comprada a Coca-Cola, seguimos rumo à aldeia. Amparada pela FUNAI, foi de longe o melhor local de hospedagem. As salas de aula não tinham paredes e as construções eram quase artesanais. O contato com a natureza era direto. Mesmo assim, havia pouquíssimos insetos.

Ao falar em índios, as pessoas logo imaginam cocares, ocas, cacique e pagé. Mas quando chegamos, vimos crianças da aldeia tendo uma aula de violino. Coordenada por um professor boliviano que leciona nas comunidades próximas, os chiquitanos têm aula de música pelo menos 3 vezes por semana.

Além disso, o cacique é extremamente novo e articulado, ao contrário do caricato imaginário que usa o “mim” no lugar do “eu”. Temos também Nico, um chiquitano que cursa Psicologia em Cáceres e faz a viagem todos os dias de ida e volta até Fazendinha.

A aldeia conta ainda com um posto de atendimento médico e odontológico para a população. Todos são extremamente educados, atenciosos, interessados e o público para as atividades foi muito grande. Isso prova que quando há vontade, distância e dificuldade não são problemas.

Além de comer um pouco menos, por me dedicar à pintura do escovódromo infantil na aldeia, eu fiz minha primeira tatuagem. Feita de jenipapo cozido, a tinta logo saiu, para minha tristeza, mas a pintura do meu braço representava o masculino e o artesanato chiquitano.

Uma noite e um dia depois, seguimos para Vila Picada, que faz jus ao nome. Vocês conferem o porquê na próxima semana.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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No bico do Tuiuiú - Eis que chega o grande dia...

Por Elsa Villon

Como todos sabem, fiquei duas semanas sem total comunicação com o mundo que não competisse à graça de Porto Esperidião. Justamente por essa razão gostaria de desculpar-me pelo hiato de minha ausência e atraso nas notícias dessa coluna aqui, nas Pastilhas mais Coloridas do planeta (momento de vender o peixe desses gajos).

Estou com o texto abaixo pronto há exatas três semanas, um dia e 10h e só consegui finalmente encaminhá-lo dois dias depois de retorno da viagem.

O lado bom é que estou decantando a experiência para preencher essa coluna com vértebras literárias e jornalistas e até um pouco líricas por um bom tempo. Experiências não faltaram.

Adianto algumas aqui para não estragar todo o final. Eis: calor, militares, jornalistas (primeira contradição), milho, carne, pânico de avião, estradas de terra e muito suor e cansaço.

Deixo essas palavras-chave como pseudo-hashtags para o que se segue. Espero que gostem do que vão ler, porque deu trabalho escrever num computador lerdo que tem a internet mais lenta do solo mato-grossense.
Enjoy.

O Original

Depois de alguns meses de preparo e trabalho e algumas semanas de divulgação (principalmente pelo Pastilhas Coloridas), eis que chegou o grande dia: a viagem em si.

Ao contrário do meu estilo etílico, não bebi uma gota de qualquer líquido sequer para superar a tenebrosa claustrofobia.

Acordando às três da manhã e com o estômago totalmente do avesso, foi quase impossível pensar em qualquer coisa. O vôo saía de Cumbica (Guarulhos) às sete da manhã e ainda precisávamos nos reunir, logo, não pensei em mais nada além do fato de querer estar dormindo naquele momento.

Fernando Balthazar, Silvana Oliveira, Juliana Nagy, Elsa Villon e sua notável
 euforia ao entrar em um avião pela primeira vez.
 
Depois de uma hora e vinte até Brasília, seguimos em conexão rumo à Cuiabá, com mais uma hora e vinte de vôo. O final glorioso desse pânico foi uma turbulência na hora de pousar na cidade mais quente do país. Minha cara de espanto, medo, choro e pânico também valeram a aterrissagem. Acho que foi o único momento da viagem em que eu não falei. Grudei no assento como um filhote assustado ou uma criança tímida gruda na mãe e não abria a boca. O medo de piscar e o avião cair era tanto, que lacrimejava o tempo inteiro.

Chegando à Cuiabá, o bando de paulistas deslocados está quase em processo de desidratação. É certo que nos últimos dias São Paulo não esteja tão frio, mas ainda assim, sair de supostos 15º para 37º é uma mudança drástica.

A sorte é que todos os ônibus nos ofereciam ar-condicionado em níveis polares para aliviar-nos. O azar é que todo paulista tem alguma “...ite” que ataca com ar condicionado.

Mais duas horas depois de pousar, seguimos de Cuiabá para Cáceres, a cidade de apoio à operação.
Nossa equipe e todas as demais correspondentes à Operação Tuiuiú ficaram hospedadas no 2º Batalhão de Fronteira (B Fron). Sei que o contexto histórico entre jornalistas e militares não é dos melhores, mas devo ressaltar que todos eles foram deveras prestativos.

Também enfatizo que ¾ da população feminina hétero é atraída por homens de farda. Isso é quase unânime, não tentem refutar. E com mais de 200 mulheres dos quatro cantos do país em um dormitório militar, acho que a estrutura tão rígida de um batalhão se desmontou ao longo das pranchas e secadores nos banheiros, contextualizada pelos altos níveis de estrogênio.

Cerimônias feitas, homenagens idem, seguimos para Porto Esperidião. É o segundo dia de viagem aqui e devido a problemas de logística, nossas doações ainda não chegaram, atrasando nossa partida à zona rural.
Pelo pouco conhecido da cidade, já é possível reparar nas latentes discrepâncias de condição social. Há muitos carros caros e casas de madeirite.

Para a realização das atividades, a Metodista trabalha em conjunto com a Universidade Católica de Brasília. Igrejas e ecumenismo à parte, todo mundo é deveras legal demais da conta e muito comunicativo. E os deuses me ajudaram mandando também uma gaja de relações internacionais para fortalecer o elo de comunicação social em Porto Esperidião. Jornalista é bom argumentador, mas a equipe está repleta de biólogos, psicólogos, biomédicos, engenheiros ambientais e tantos outros profissionais da saúde que eu estava até me sentindo um tanto quanto solitária e carente. Um aluno de direito também veio fortalecer. Valeu Pryscila e Denílson, a tia estava sozinha aqui.

Faz um calor incessante e no momento, são 10h47 (11h47 para vocês) desta terça-feira de sol e um céu de brigadeiro aqui. A expectativa é partir ainda hoje rumo à Fazendinha (momento piada interna com o meu amigo e irmão Gui Martinelli). Estamos no aguardo da transportadora com nossa meia tonelada de doações para seguir rumo à zona rural.

E eu aproveitei o hiato para checar os emails, entrar no twitter e fazer o texto do Pastilhas, porque, se tudo der certo e nada der errado, internet só daqui uma semana.

Por hora é isso e eu desejo muito calor a vocês, de preferência, uma parte do daqui, porque está osso do fêmur superar a fadiga.

Desejem-me sorte, pois daqui a pouco é a vez de trabalhar com nossos amigos chiquitanos (mistura entre índios e bolivianos). Espero voltar viva para a coluna da próxima semana.

Ps: Quem me conhece sabe que eu não suporto milho e acreditem, tem milho em praticamente todos os pratos, até na salada de frutas.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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No bico do Tuiuiú - A revolta da vacina

Por Elsa Villon

Eis que está se aproximando: o embate entre Elsa Villon e sua fobia se aproxima. Daqui menos de seis dias estarei aonde Adriana nenhuma jamais Esteves (#TuDumTss). Piadas ruins à parte, antes de mais nada queria enfatizar a “Semana do Cão” que foi essa para a colunista que vos fala. Entendam a minha “Revolta da Vacina”.

Fora o medo de locais fechados, tenho um sério problema com agulhas. Mas essa não foi a motivação para não tomar a minha vacina contra febre amarela e precisar ir às pressas nessa quinta-feira. O que provocou um adiamento extremo foi:

A) O falho sistema público de saúde em São Bernardo do Campo, que só disponibiliza a vacina em duas UBS e em horários completamente improváveis para quem não mora do lado;

B) Uma rinite alergia à proteína do ovo, presente em vacinas de febre amarela, gripe e gripe suína;

C) A síndrome brasileira de deixar tudo para a última hora;

D) Todas as anteriores.

Se você respondeu D, ganhou o seu peso em barras de ouro, que valem mais que dinheiro. Procurei a diaba da vacina em vários lugares e quando finalmente consegui dar um Pelé no trabalho para domar minha covardia e tomá-la, pergunto a enfermeira se uma alergia a ovo poderia causar alguma reação à vacina.

Com o ápice de seu mau-humor, ela respondeu que sim, disse que se eu fosse alérgica, não poderia tomar e terei que passar por uma alergista. Disse que eu fiz tratamento quando tinha seis anos e que comia ovo normalmente. Não adiantou. Ela confabulou com a outra enfermeira e a alergista do local e se recusaram a aplicar a vacina. Mesmo comigo me responsabilizando por toda e qualquer reação, assinando termos de compromissos e tal.

Sistema Público de Saúde: 1 x Elsa Villon: 0.

Dia de trabalho praticamente perdido, decidi ir atrás de coisas para o Rondon. Acredito que muitas pessoas no ABC não lêem o Diário do Grande ABC. Ou se leram, não deram importância ao projeto. Mais um insucesso.

Lamúrias à parte, fui à outra da cidade, no Ferrazópolis, que só atende até as 18h e fica na ladeira mais íngreme da história desse país. Minha sorte é que o pessoal é mais bem-humorado e permitiu que eu tomasse a famigerada vacina.

Estava receosa, com medo de ter um treco por conta de alguma reação, mas no final, o tratamento de antígeno que picava duas vezes minhas pueris nádegas quando tinha 6 anos surtiu efeito e eu estou viva. Por enquanto.

Nossa equipe passou as duas últimas semanas atrás de doações: matérias escolares, de construção, da área de saúde ou qualquer outra coisa que pudesse ser utilizado em nosso cronograma de atividades.

Os bons budas tem nos ajudado e conseguimos muitas doações nessa última semana. Graças a eles e aos esforços principalmente de Bruno Aranda, Fábio Mariano, Fernando Balthazar, Gleice Pereira, Marina Rangel, Juliana Nagy e Silvana Oliveira, nossos projetos não vão ficar só na tela do computador.

Por conta de umas questões paralelas, tenho trabalhado bastante e não compareci às últimas reuniões, portanto, não sei em que pé estamos, direito, nesta reta final antes da viagem. Mas já agradeço de antemão por todo mundo que contribuiu de alguma forma com a operação.

Um agradecimento especial ao meu grande amigo Nuno Jr, o publicitário responsável pela maior parte da arte utilizada em nossas operações. O Nuno é o típico publicitário que tarda, mas não falha. Nunca me desaponta com sua criatividade e o máximo que eu preciso fazer é vez ou outra corrigir seus trabalhos ou escrever textos para suas campanhas. Escambo é a alma do negócio.

E para finalizar, peço ajuda aos leitores para ajudarem a compor uma playlist para o Tuiuiú: o que levar para ouvir? Sofro desse mal de ter 30 Gb para ouvir músicas e não saber o que ouvir? O que sugerem para o meu pânico pré-avião?

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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No bico do Tuiuiú - Despachando a bagagem

Por Elsa Villon

Vocês já foram apresentados a mim, minha coluna e meus planos. Agora é hora de fazer as malas e começar a pensar em como vou resolver minha claustrofobia no avião.

Descobrimos que o vôo não será pela FAB, mas sim vôo comercial. A vantagem é que temos 5 quilos a mais por pessoa para lotar a bagagem. A desvantagem é que o material utilizado nas atividades terá que ser enviado antes. Há pouco mais de 15 dias para a viagem, nossa maior preocupação é despachar as doações de livros.

Passei dois meses arrecadando livros para montar uma biblioteca em Porto Esperidião. Cartazes, campanhas pelas redes sociais e graças a alguns amigos (os nomes: Nuno Junior, Juliana Claro, Aila Regina e Bárbara Trevisan), consegui boas doações para o projeto.

O ponto agora é conseguir levar isso para lá. Aliás, eu e toda equipe estamos correndo atrás de apoio, patrocínio e qualquer tipo de ajuda para desenvolver nossas ações. Propostas encaminhadas, mas por enquanto, apenas recusas. Conseguimos 1000 kits de higiene bucal e isso já uma vitória.

Mandamos emails solicitando doações de materiais para grandes organizações e redes, mas a resposta automática é: “Lamentamos informar, mas toda a verba destinada ao terceiro setor já foram destinadas a outros projetos”. E isso é bem triste.

Acho que vivemos num mundo brutalmente capitalista hoje, onde a troca de favores, um escambo, por assim dizer, cai cada vez mais em desuso. Ou as coisas funcionam pelo capital, ou pela misericórdia de pessoas que passam por cima disso.

Se saíssemos desse conceito de físico, de posse, do ter, a sustentabilidade que tanto falam seria sim tangível, e não essa utopia que estão tentando implementar a nossa vida. Porque é contraditório um festival “sustentável” cobrar até pela água consumida, depois do valor exorbitante dos ingressos. E sim, isso foi uma alfinetada.

Ouço gerações mais velhas reclamarem que os jovens não lutam por mais nada, são apegados aos seus interesses e vontades sem pensar no mundo como algo que vai permanecer depois que nós já não mais estivermos aqui. Mas quando surgem os que querem fazer algo por ele e recorrem ao auxílio, ouvimos recusas, somos ignorados ou apenas a clássica: “Não temos dinheiro”.

Com o perdão do romantismo que possa conter, mas dinheiro não é tudo. Não pedimos um centavo a ninguém, apenas doações. E nada estipulado, doa o que e quanto puder. Em troca: uma divulgação ampla de um projeto em nível federal. Não é um favor, é uma troca de favores.

E é pensando nisso que eu acho que o estilo Don Corleone é mais próximo do ideal que poderíamos ter (não que eu vá saindo matando meus inimigos políticos). Troca de favores. Hoje você está por cima, amanhã, pode estar na lama. E é o que você faz quando está no topo que vai definir se vão te ajudar a sair ou afundar sua cabeça na poça.

Tenho certeza de que essa experiência em Porto Esperidião vai mudar muita coisa. Tanto para os índios, os bolivianos, os líderes locais, quanto para mim. E todo mundo que de alguma forma apoiou, vai sentir isso.
Ladainhas à parte, quem souber de transportadora que consiga despachar nossas coisas para lá, por favor, entre em contato. Serve tanto como doação, quanto para orçamento.

E agora estamos hierarquizados em um blog: umespoperacaotuiuiu.tumblr.com. Confira o que está rolando. Saí domingo, também, no jornal Diário do Grande ABC falando do projeto, embora o repórter estivesse com sono e tenha digitado Tuiutí ao invés de Tuiuiú.

Agora com a vossa licença, preciso ir fazer rolinhos de camisetas. Até semana que vem.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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As aventuras de Elsa Villon no bico do Tuiuiú

Por Elsa Villon

Tuiuiú, também conhecido como tuim, é o apelido para o jaburu – ou jaburi no sul do Brasil. É também o nome da operação que vai levar a proto-jornalista que vos escreve para Porto Esperidião, no Mato Grosso pelo Projeto Rondon.

Desde a década de 70, o Rondon auxilia cidades menos desenvolvidas no norte e nordeste do país. Em parceria com universidades, é hoje menos assistencialista para tomar o caráter social. Mais do que óculos ou próteses dentárias, o projeto quer levar os princípios de sustentabilidade e desenvolvimento para onde, às vezes, não há água e saneamento. E aprender como cafuzos, caboclos, brancos e mestiços se viram no meio disso tudo.

Pego carona no vôo da FAB para trazer essa coluna sobre a cultura que não é digital, não é virtual, é de cipó, de pau a pique, de palafita. Que é milenar, é regional e é universal.

Viver no meio dos indígenas e/ou bolivianos durante uma semana, tomar banho gelado no inverno, comer partes do boi jamais antes comidas e saber o que afinal tem em Porto Esperidião são algumas vértebras dessa coluna.

As outras, eu conto nas próximas semanas antes de partir e depois quando chegar lá. Se sobreviver ao vôo, pois sou claustrofóbica.


...com certeza sobreviverá, pois o Pastilhas deseja toda sorte e sucesso a nossa primeira correspondente e mais nova colaboradora.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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