| Aulas de violino para os chiquitanos. Foto: Bruno Aranda |
Mais uma semana se estende nessa jornada chamada Rondon. Já superadas vacinas, aviões, calor e militares, eis que chega o momento que todos de fato esperaram: a ida para a cidade.
O B-FRON, em Cáceres, fica localizado há pouco mais de 210 km de Cuiabá (o que já é uma distância considerável). Porto Esperidião, por sua vez, fica a mais 100 km de Cáceres. Logo, Porto Esperidião está há quase 310 km de distância da capital mato-grossense.
Era domingo, tomamos café e almoçamos ainda no Batalhão, mas logo seguimos rumo a Porto, o que sempre parece divertido por estar atrelado à Bahia e ao Carnaval. Mas no Mato Grosso, o papo é outro. Uma hora e meia, quase duas depois, chegamos: eis o nosso destino.
Ficamos na zona urbana até quarta-feira da mesma semana, no aguardo da transportadora que ficou responsável pelas doações e material para trabalharmos. As previsões de entrega ficaram perdidas quando as caixas foram parar em Brasília. Nessa hora, Metodista e Universidade Católica de Brasília decidiram partir rumo ao desconhecido.
Porto Esperidião é a típica cidade pequena. O problema é que ela é grande. Sua extensão urbana nem tanto, mas na zona rural é aonde o bicho pega. Saneamento é coisa rara, água potável idem e as moradias são realmente precárias. Os distritos pareciam cenários cinematográficos, montados para séries nordestinas da Globo. Mas eram de verdade.
Seguimos rumo à zona rural, tendo como parada Fazendinha, Vila Picada, São Fabiano, Santa Rita e Postinho. A primeira comunidade que visitamos foi Fazendinha, onde fica a aldeia chiquitana (chiquitana, não chiquititas, que fique claro). Ela é formada por índios e imigrantes que misturam a Bolívia com o Brasil em uma nova etnia e cultura. A comunidade fica há mais ou menos 180 km da zona urbana.
Como segui de carro, juntamente com o Secretário de Cultura do Município, eu e mais dois colegas internacionalizamos a viagem com 30 minutos na Bolívia. Passamos pelo GEFRON, que guarda as fronteiras, tanto do lado brasileiro, quanto do lado boliviano.
O sol na fronteira é de lascar e digamos que não éramos muito bem-quistos no vilarejo boliviano. Os guardas perguntaram o que pretendíamos e, para poder passar, eles pediram uma Coca-Cola como entrada no país. Chegamos ao único comércio local e um dos rondonistas, muito ingenuamente, pediu “coca”. Lição do dia: sempre seja bem específico ao pedir “coca” na Bolívia, para não acabar levando um pacote de folha ao invés do refrigerante almejado.
Comprada a Coca-Cola, seguimos rumo à aldeia. Amparada pela FUNAI, foi de longe o melhor local de hospedagem. As salas de aula não tinham paredes e as construções eram quase artesanais. O contato com a natureza era direto. Mesmo assim, havia pouquíssimos insetos.
Ao falar em índios, as pessoas logo imaginam cocares, ocas, cacique e pagé. Mas quando chegamos, vimos crianças da aldeia tendo uma aula de violino. Coordenada por um professor boliviano que leciona nas comunidades próximas, os chiquitanos têm aula de música pelo menos 3 vezes por semana.
Além disso, o cacique é extremamente novo e articulado, ao contrário do caricato imaginário que usa o “mim” no lugar do “eu”. Temos também Nico, um chiquitano que cursa Psicologia em Cáceres e faz a viagem todos os dias de ida e volta até Fazendinha.
A aldeia conta ainda com um posto de atendimento médico e odontológico para a população. Todos são extremamente educados, atenciosos, interessados e o público para as atividades foi muito grande. Isso prova que quando há vontade, distância e dificuldade não são problemas.
Além de comer um pouco menos, por me dedicar à pintura do escovódromo infantil na aldeia, eu fiz minha primeira tatuagem. Feita de jenipapo cozido, a tinta logo saiu, para minha tristeza, mas a pintura do meu braço representava o masculino e o artesanato chiquitano.
Uma noite e um dia depois, seguimos para Vila Picada, que faz jus ao nome. Vocês conferem o porquê na próxima semana.
Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon