No bico do Tuiuiú - Picadas, Pererecas e Pronto Atendimento

Foto e texto: Elsa Villon
Conforme combinado, cá estou mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia. Brincadeiras a parte, mais uma vez você confere o que a proto-jornalista andou fazendo em terras longínquas.

Partindo novamente da zona rural, é vez de Vila Picada entrar na roda. O nome é auto-explicativo: insetos. Bem distante de Fazendinha, bem distante da zona rural. Essas são as coordenadas de Vila Picada.

No distrito, mais uma vez as atividades continuaram, mas a população sofre com uma grande crise de identidade: eles não se reconhecem como indígenas, ou chiquitanos, ou bolivianos, mas estão longe demais da zona urbana para terem suas demandas atendidas.

Ou seja: mais uma vez, ficam ao Deus dará. A escola que nos hospedou não apresentava condições mínimas, nem de infra-estrutura, nem de higiene. Os banheiros tinham latrinas, ou “bacias francesas” ao invés do famoso trono.

Mas a melhor surpresa foi na hora de dormir: carrapato-estrela. Isso mesmo, aquele que gruda, não sai nem com reza brava, suga nosso sangue e precisa raspar a cabeça para encontrar. E o que as 10 mulheres desesperadas com suas enormes cabeleiras fazem? Vamos dormir no Posto de Saúde. Algumas foram corajosas e dormiram na escola. Eu não fui uma delas. Projeto Rondon 1 X Elsa Villon 0.

Considerando que há material hospitalar no local, posso afirmar que as condições de higiene também não eram das melhores. Baratas e pererecas circulavam no espaço. E esse é o momento de refletir: como é possível estudar em um ambiente infestado de insetos e sem condições de saúde? E como é possível se tratar se o próprio material hospitalar acaba sendo contaminado? Mais um entre os tantos paradoxos dessa viagem.

Enquanto eu pintava um mural no escovódromo (pia com cinco torneiras e espelhos desenvolvida especialmente para escovação dental das crianças) que foi construído na escola, parte dos rondonistas seguiu para outra comunidade: São Fabiano. Não cheguei a conhecer bem o local, mas quando voltei para entregar os materiais, pude afirmar: foi o local mais precário e abandonado que encontramos.


Vila Picada / Foto: Mariana Queiroz
A escola é minúscula e só há uma: crianças e adolescentes dividem o teto de madeira cercado por árvores e mais nada. Entretanto, quem desenvolveu as atividades em São Fabiano afirma que foi o local onde as pessoas mais se emocionaram com a visita e que aproveitaram ao máximo toda informação nova que chegava. Acredito que isso se deva em parte, pela enorme humildade e modéstia da população local, que sabe tanto e até mais que nós, mas não é arrogante e aprende mais. E em parte, pela situação de crítico abandono em que se encontra.

De lá, seguimos para outro Batalhão Militar, apenas para dormir: o de Santa Bárbara. Lá, conforme foi sugerido por nosso sargento, é que vemos o que realmente vivem os militares. Nada de chapinha, nada de xampu ou creminho. Água pouca e fria e instalações precárias foram algumas das cortesias.

Logo cedo, seguimos para Santa Rita. A escola tinha uma estrutura simples, porém suficiente. E o destaque era a diretora, uma mulher com 30 e poucos anos de extrema simpatia e criatividade. Ela promovia desfiles com roupas feitas de material reciclado, trabalhava com brinquedos e oficinas de artesanato e todos os alunos participavam. Foi interessante quebrar a cara ao levar as oficinas de artesanato para a escola e descobrir que o artesanato deles era bem mais complexo. Brincos feitos de latinhas de refrigerante, vestidos feitos de sacolas plásticas, tudo com um acabamento tão perfeito que ninguém diria que é feito daquilo. Zona rural 1 X Projeto Rondon 0.

Seguimos então para Vila Cardoso, a última parte da zona rural. De longe, a melhor escola. Comparada até a zona urbana. Uma quadra ampla, salas recém-reformadas, refeitório limpo, refeições completas. Nota dez para a escola. Descreveria mais as atividades do local, mas foi justamente o dia eu tive uma crise de labirintite e fui parar no posto de atendimento.

O combo calor + andar muito rápido de bicicleta + estresse + ônibus sacolejante = Elsa Villon tomando soro e complexo B. Mas pelo menos o lugar era limpo. Não sei quanto tempo ao certo fiquei lá, mas acabei não fazendo nada no dia. Projeto Rondon 2 X Elsa Villon 0.

Houve uma última vila visitada, mas foi tão rápido e no domingo de manhã, que acabamos saindo de lá antes das 13h e voltando para a zona urbana.

O que fizemos no restante da tarde, vocês conferem na próxima semana, mas já adianto que envolvia rio, churrasco e uma loira gelada.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
Share: