No Bico do Tuiuiú – Zona urbana, materiais e morcegos

Por Elsa Villon

Como puderam perceber, não sigo o calendário gregoriano e o termo “na próxima semana” acaba ganhando uma nova versão. Eu violei as normas do continuum-espaço e pagarei por isso.

Três semanas se passaram desde que postei as minhas últimas impressões sobre terras mato grossenses. Demandas ocuparam meu corpo e minha mente e, entre fazer um texto ruim e não fazê-lo, optei pela segunda opção. Perdoem o hiato.

Vamos lá... Até Deus descansou no sétimo dia. Nós não chegamos nem perto de virar alguma divindade, mas meio descanso é melhor que descanso nenhum.

Partindo da zona rural, seguimos rumo à casa de um dos secretários de Porto Esperidião para um churrasco deveras merecido. Perturba, como é conhecido, mora às margens do Rio Jauru. Um gramado, um deque, uma churrasqueira e algumas cervejas depois e a gente nem lembra mais do cansaço.

O combinado era: bebeu, não entra no rio. Justo. Afinal, ele tem mais de 70 metros de largura e uma correnteza considerável para ninguém colocar defeito. Eu, obviamente, preferi a loira e fiquei repousando na rede após muita carne, mandioca e salada.

Mas o repouso logo acabaria. Voltamos e ficamos hospedados novamente na creche que nos abrigara antes de seguir à zona rural. “Pingo de Gente”, como era conhecida. Nós, meninas, decidimos que dessa vez era nosso tempo de imperar no quarto com ar-condicionado e dominamos o local.

Segunda, dia de labuta. O combinado era ajudar nas atividades do pessoal e tentar desenvolver oficinas de leitura. Segui para auxiliar meus caros Fábio Mariano, Fernando Balthazar e Bruno Aranda na oficina de brinquedos para as crianças. A minha didática com crianças é semelhante à de um orangotango, com a diferença que um orangotango leciona melhor. Pensem em crianças de 1 a 15 anos, correndo e berrando na sala, querendo pegar tintas, tesouras, colas, entrando, saindo, pisando e todos esses gerúndios que só a atividade pueril permite. Pois é.

Crianças hipnotizadas pelo filme
Tentamos acalmar as crianças, mas não teve jeito. Foi quando nossa querida psicóloga Gleice Pereira sugeriu: “Bota um filme para eles assistirem”. Obrigada Gleice. Desde sempre eu quis implementar o Cine Rondon, até fiz uma curadoria de filmes e o único lugar que conseguimos fazer alguma exibição foi na aldeia chiquitana. Mas eles eram muito quietos e mal piscavam durante “Cars”. Foi muito emocionante ver algumas pessoas tão compenetradas diante do telão improvisado.

Mas deu certo. À noite, para os adultos, fizemos outra sessão, dessa vez de “O Auto da Compadecida”. Os presentes adoraram o filme, até porque é difícil não gostar de Ariano Suassuna.

Na terça, as dentistas mais bacanas do mundo, Juliana Nagy e Silvana Oliveira, seguiram para a escovação infantil e aplicação de flúor nos bacuris. Eles adoraram e ganharam, todos, um “kit dentuço” cedido pela Colgate para ninguém mais deixar de escovar os dentes.

Nossa biomédica na operação também ajudou: Marina Rangel ligou seu lado pedagoga e foi mostrar como lavar as mãos direito antes das refeições. Aproveitamos a tinta para agradecer o doador da verba que possibilitou que todo o nosso material chegasse. Valeu Guilherme Laager, sem você, nem os kits, nem as tintas e nem todo o nosso material teria chegado.

[Pausa dramática para a entrega do material: Após quase três semanas, perder-se em Brasília e tomar um “Pelé” da transportadora, nosso material finalmente chegou. Confesso que chorei com o ocorrido. Afinal, foram quase 500 quilos em livros de doações que poderiam estar perdidos para sempre. Fim da pausa dramática para entrega do material].

Quarta eu realmente estava empolgada, porque iria concretizar um dos meus objetivos: montar a biblioteca de Porto Esperidião. O que eu não sabia é que eles já tinham uma.

Porém, estava toda desorganizada. O responsável pelo espaço era um senhor muito gentil, mas que sofria de paralisia de um dos braços, o que reduzia a sua mobilidade para organizar os livros. O segundo problema é não ter suas demandas atendidas, uma vez que havia solicitado duas prateleiras à Prefeitura há tempos e não fora atendido. Mas com o Projeto Rondon lá, parece que eles conseguiram atender à solicitação.

Os materiais chegando da transportadora
Como diria meu querido professor, Paulo Ramos, “a situação estava periclitante”. Ao começar a organizar a biblioteca, jogamos no lixo três caixas grandes de livros, por estarem mofados, molhados e sem condições de uso. O teto do lugar estava cedendo e nas épocas de chuvas, a biblioteca alagava. Além disso, ela tinha pequenos hóspedes: morcegos no forro. Eu e Marina nos dedicamos totalmente a organizar o espaço e ficamos o dia inteiro acompanhadas dos primos do Batman.

O desfecho dessa biblioteca, assim como a Feira Mix e a festa de despedida, você confere na última coluna no “Bico do Tuiuiú”, que já está no forno.

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
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