“Estou aqui mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia”. E pela última vez pela coluna “No bico do Tuiuiú”, depois de mais alguns desencontros de prazos.
Motivos e desculpas são vários, mas vale a pena a sinceridade, para não ferir a presunção de inocência da jornalista (ou quase) que vos escreve.
Não sou boa com despedidas e assim como o cantor Leonardo “não aprendi dizer adeus”. Principalmente de uma coluna como esta, que realmente foi um marco entre pré-durante-pós Rondon.
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| Contação de história / Foto: Bruno Aranda |
Referências nerds à parte, finalizo com pesar e até um aperto, a coluna mais indígena da cidade.
Então vamos a ela...
A biblioteca de Porto Esperidião tinha apenas dois problemas: o primeiro era o teto, que deixava a água da chuva entrar e molhava todos os livros. E servia também de casa para os morcegos. O segundo e principal é que ninguém sabia que ela existia. Havia um outro fator, que não era bem um problema, mas uma dificuldade: o responsável pela biblioteca tinha a mobilidade de um dos braços reduzida. E os livros estavam um caos.
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| Biblioteca de Porto Esperidião / Foto: Divulgação |
As horas se passaram e eu não vi. Quando me dei conta, eram quase nove da noite e não tínhamos acabado. Mesmo com todo o empenho, precisamos dos reforços de todos alunos da Metodista para conseguir terminar às dez e meia da noite. Mas conseguimos.
Devido ao horário, perdemos a janta, mas para comemorar, seguimos rumo ao “point” do centro de Porto Esperidião: Skinão, famoso por seu lanche “baguncinha”.
Eu não podia deixa de ter essa experiência gastronômica, e pedi o maior e melhor baguncinha já feito. Os ingredientes: pão, salsicha, hambúrguer, queijo, calabresa, tomate, bacon, maionese e o que mais tivesse na chapa dos lanches antecessores.
Após tanto tempo de espera, lancei o bordão fomérico que se tornou um dos momentos mais engraçados da viagem: “Vem ni mim, delicinha”. Abri a bocarra e dei a maior e mais suculenta mordida no lanche já registrada na história. Mas é claro que expectativas geram decepções e a primeira coisa que noto: milho.
Gosto tanto de milho como gosto de apanhar até sangrar com uma réstia de Chamequinho (essa referência é do meu caro amigo Bruno Schneider). E todo sabor e antes fome, se converteram na apoteótica frase: “Eca, tem milho”. Virei a piada da noite, do dia seguinte e do resto da viagem. E acho que ninguém nunca vai esquecer-se da sequência “Vem ni mim delicinha” + “Eca tem milho”. A noite acaba em ritmo de festa.
Quinta-feira eu fui encarregada de seguir novamente à zona rural, rumo a todas comunidades em que passamos antes do material chegar. 180 km de estrada de terra e muita poeira me esperavam, mas a oportunidade de entregar os kits e, principalmente, os livros me motivaram. E lá fui eu, com medo de ter outra crise de labirintite, mas ansiosa pelo retorno. Foi muito legal voltar às regiões mais distantes e finalizar a proposta inicial: facilitar o acesso aos livros, kits odontológicos e todas as doações recebidas. E que faria de novo, com inseto, calor e cansaço, mas com muita boa vontade.
Na volta à cidade, o GEFRON achou um ônibus escolar com dois homens e um pedaço de gente, vulgo eu, muito suspeito. Próximos da fronteira com a Bolívia, local propício para passar com drogas, os “pirriu” da fronteira fizeram-nos uma pequena parada. Fardados e com fuzis maiores que eu, perguntaram o que fazíamos lá e pediram as identidades. Soube depois que alguns dias antes, eles haviam detido traficantes com muitos quilos de droga e por isso, a vista grossa conosco e com todo mundo que passava.
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| Inauguração do escovódromo / Foto: Elsa Villon |
Sexta-feira: o último dia. Eis o dia da chamada “Feira Mix”, na qual Católica e Metodista desenvolveram seus trabalhos. O biodigestor, construído pelo pessoal de Brasília, que produz gás por meio de esterco e água, era a grande atração. O minhocario também, além dos aquecedores de água feitos de garrafa PET.
Mas a minha grande paixão foi ver uma árvore gigante, enorme, cheia de livros pendurados, como se fosse frutos. Sentei com as crianças e li e para mim, foi o bastante. Missão cumprida.
Para encerrar a feira, os chiquitanos fizeram uma apresentação típica, com dança e depois nos “retatuaram” com jenipapo. Uma pena, a minha pintura saiu logo no primeiro banho.
Sábado. O primeiro que poderíamos acordar tarde. Descanso. Repouso. Precisava só correr atrás do presente da amiga secreta e curtir o segundo churrasco na casa do Perturba. Presente comprado, segui para o bem merecido descanso, churrasco e cerveja às margens do Rio Jauru. Maricas que sou, ao invés de ir nadar como todos, decidi aprender a pescar com o professor da Católica, Marcos Vinícius – o homem mais calmo e do abraço mais acolhedor do mundo. Pesquei algumas pedras, arrebentei a linha da vara e me aposentei na atividade. Melhor continuar no jornalismo mesmo (ou não).
O final da noite reservava o famigerado Rondoscar, no qual cada um foi premiado em uma categoria, seguido da entrega do amigo secreto. Ganhei na categoria “Na Lata”, por ser essa gracinha de pessoa e responder tudo “na lata”.
Mas o melhor estava por vir: a entrega do presente. Eu tirei a biomédica já citada, mas quem me tirou foi muito sagaz. Nosso ilustrador, poeta e futuro advogado em Brasília, o Denilson, fez o discurso mais bonito do mundo, comparando meus olhos ao mar, os cabelos às ondas e a pele à areia, dizendo que minha natureza era toda poética. E finalizou me dando uma calcinha fio-dental de presente, daquelas que não dá nem para usar no cabelo. Mas com todo respeito, afinal, ele é muito bem casado e pai de um jovem fã do Homem de Ferro. Eu, toda desenvolta e agitadora, fiquei mais vermelha que conta de pobre no final do mês.
Afinal, as meninas riram de mim porque pendurei um varal debaixo da mesa para secar “as lingerie”, morrendo de vergonha que alguém visse minhas calcinhas com estampas de vaquinha ou de bolinhas. E no desfecho glorioso, ganhei a calcinha menos ortodoxa da viagem. A vida é uma ironia.
Domingo: todos se despedem rapidamente da creche, porque o ônibus que nos levaria ao Batalhão de Cáceres já nos esperava e porque a diretora iria chegar e ver que não lavamos a louça. Nunca vi 20 pessoas embarcarem tão rápido.
Dali para frente, era só alegria. Batalhão, comida à beça, descanso e homens fardados nos servindo e carregando nossas malas. Tirando a apresentação final, em frente a todos os participantes do Rondon, umas 400 pessoas, à noite nos esperava uma bela festa.
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| Descanso / Foto: Gleice Pereira |
Escrevemos um poema, nos revezamos e o preparador físico Fernando Balthazar fez o que melhor sabia na viagem: imitou o Silvio Santos. Sucesso garantido. Depois disso, era só correr para o banho e ficar o mais bela possível para a merecida festa de despedida.
A festa: junte jovens do país inteiro, isolados de casa há duas semanas e lhes dê algumas cervejas em um calor senegalês. Foi essa a receita. E eu não fiquei de fora, mesmo sem saber dançar, fui tirada para por um engenheiro paranaense que queria mais do que dançar. Mas eu fugi. Depois surgiu um mineiro que tinha acabado de levar dois foras em sequência. Óbvio que aumentei as estatísticas para três. E o final foi um parente de grego me enchendo, mas também dispensado. Esse, aliás, estava atrás de mim no dia seguinte, na fila do aeroporto – com uma enorme aliança de casado. É...
Eu sei que teríamos de acordar às cinco da manhã no dia seguinte e voltar para nossos Estados, lares e famílias. Mas dancei como uma idiota até as 3h da matina e quem viu, disse que foi o ápice da festa: Elsa Villon dominando as pistas de dança mato grossenses à lá Silvio Santos.
Antes de ir embora, cheguei num dos rondonistas de outra faculdade de Brasília, que já tinha visto na primeira reunião do Batalhão e chamou minha atenção. Não por ser bonito ou por eu ter interesse nele, longe disso. Mas ele tinha uma trancinha de padauan e eu não podia deixar de dizer o quanto era legal, até porque, era uma oportunidade única. Com toda minha classe, solicitei a licença da retória e lhe disse: “Moço, eu só queria dizer que o seu cabelo é muito legal”. Virei as costas e fui dormir.
Segunda-feira: ressaca, malas prontas e o aperto da despedida. Disse no começo e repito no fim: não aprendi dizer adeus. Nem à cidade, nem às pessoas e nem às sensações. O pessoal da Universidade Católica de Brasília principalmente.
Ficamos próximos até o último minuto, no aeroporto, quando voltamos para São Paulo. E a fina garoa paulista e o trânsito de quase três horas, após duas semanas e dois dias foras foram a recepção calorosa da paulista que foi chiquitana, boliviana e mato grossense, ainda que por um breve período.
E foi tudo isso que eu trouxe, no bico do Tuiuiú.
Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon



