Das coisas que aproximam Voltaire e Rivaldo e o levante dos bufões tecnocratas da lodopédia nacional

Por Marcelo Mendez

Entre tudo que mais me apetece, sem dúvida, o Iluminismo do grande Voltaire, filósofo dos mais importantes da história da humanidade... Me é muito próximo.

Dentre todas as suas brilhantes obras, consta aí, ÉDIPO, BRUTUS, ZADIG OU O DESTINO (Que até Woody Allen adaptou para o cinema...) e uma que gosto demais e que tem muito haver com o que aconteceu ontem no Engenhão, no empate de 2x2 entre São Paulo x Botafogo.

CANDIDO E O OTIMISMO...

Candido... conta a história de seu jovem personagem, puro, inocente e pueril, que vive num mundo paradisíaco que só existe em sua cabeça, ou melhor; Na cabeça de seu mentor o positivista Dr. Pangloss, um sujeito apaixonado pelas idéias de Leibniz e que impõe ao moço Candido uma espécie de redoma que o protege do mundo todo. Obviamente tudo isso vai à vala quando o jovem rapaz é confrontado com tudo que se apresenta de ruim desse mesmo mundo. As guerras, a maldade das pessoas, a corrupção dos impostos do governo, a censura, a loucura do fanatismo religioso e a tirania da igreja católica... Tudo fez com que a ruptura entre pupilo e mestre se tornasse inevitável... Pois bem.

Ontem no Engenhão tivemos um Candido para decidir o jogo, uma hipnótica partida de futebol. Mas antes do protagonista citado, também devemos falar de um bufão personagem que encarnou lindamente o Dr. Pangloss do banco de reservas do time do São Paulo. Falemos do tipo...

Adilson Batista tinha tudo para ser um rico personagem de nosso futebol. Trata-se de um homem sério, trabalhador, profundo conhecedor do esporte, de idéias muito lúcidas e bastante interessantes. No entanto, estranhamente o amigo insiste em não botar nada disso em prática.

Falei aqui semana passada que Adilson Batista tem uma concepção de futebol que muito me agrada. Seus times são por essência velozes, “agressivos”, que atacam o tempo todo. Assim deu muito certo nos três anos em que esteve dirigindo o Cruzeiro. Depois disso nada mais correu bem e aí, Voltaire ajuda a entender o porquê da coisa toda.

De todos os grandes avanços humanos da história da humanidade, todas as vezes que a sociedade progrediu houve nos episódios uma espontânea equiparidade entre o pensamento e ação. Mas quando o sujeito que detém o Pensamento, tenta usá-lo de maneira burramente empolada, cheia de academicismos idiotas que o afastam daquele fará com esses pensamentos se materializem, aeee a coisa não anda e nem jamais andará. E Adilson vira e mexe recai nesse mesmo erro.

O Dr. Pangloss do Morumbi, comporta-se como sumo pontífice de todas as teses e teorias ludopédicas de uma maneira que faria inveja a Luiz IXV e Maquiavel! Contra tudo e contra todos os fatos se torna inflexível a qualquer coisa que ouse tentar mostrar seus seguidos equívocos. Ontem, novamente escalou a irritante linha de três. Dessa vez, só mudou o local do campo; Ao invés de três zagueiros, entrou com três volantes; Denilson, Wellington, Carlinhos Paraíba. O trio entrou com a incumbência de marcar a frente e ajudar o meia Cícero a abastecer Marlos e Lucas e claro, obviamente que isso tudo deu muito errado. Oras caro leitor...

Quando se arma uma equipe estática, pesada, que não se movimenta, fica muito fácil pra se enfrentar. Caio Jr. Fez o mais básico dos básicos; Abriu em uma ponta o meia Elkinson e na outra, Maicosuel pra bater de frente com os lentos laterais São-paulinos. Tudo isso nas costas dos atabalhoados volantes. Aí era só deixar Loco Abreu lá quietinho, sossegado, que as bolas chegariam como de fato aconteceu. Primeiro com uma arrancada de Maicosuel que terminou em 1x0 e depois, após jogada de Elkison do outro lado do campo, que resultou no pênalti que acabou no 2x0 para o Fogão ainda no primeiro tempo. Um baile de bola. Tranquilamente poderia ter sido 3 ou 4x0 no primeiro tempo e tudo ficaria justo. Então, Adilson, nosso errante Dr. Pangloss olhou para o banco de reservas e finalmente, surge nosso herói!

Rivaldo é por natureza um Candido.

Homem dócil, sertanejo, de trato humilde e muito simples, o homem de pernas arqueadas saiu de Pernambuco para entrar pra história do futebol e tornar-se assim um dos maiores nomes do esporte ludopédico em todos os tempos. Se realizou e foi grande vencedor em todos os lugares que passou; Palmeiras, Barcelona, Olimpiakos e até no Mogi Mirim. Jamais contou com as luzes do estrelato que tem um Ronaldo, um Rooney, um Kaká, um Cristano Ronaldo, um Neymar. Sempre foi quieto, puro e no seu canto. Assim estava, enquanto o São Paulo tomava um vareio de bola e Adilson, passava a ele instruções que se passa a um juvenil. Ele ouvia tudo humildemente. Ouviu o primeiro tempo todo! Para só voltar o segundo tempo.

Quando voltou, eis então a ruptura...

Jogando de maneira incisiva, inteligente, forte e cheia de ímpeto, Rivaldo muda o jeito do time jogar, consegue cavar a jogada para o primeiro gol de Henrique, empata no final do jogo e no ultimo minuto, por pouco não decreta uma daquelas vitórias que os técnicos amam pra hora da coletiva. Se Rivaldo enfiasse o pé na bola como um qualquer, ao invés de tentar uma lúdica cavadinha pra encobrir o goleiro, ele de certo daria ao técnico essa tal vitória. Mas Rivaldo se recusou a ser Candido, portanto... Não quis a burocracia do futebolês, chutou pra longe as teorias de auto ajuda que infestam os técnicos empolados da ludopédia nacional e quem sabe, não faz Adilson ver de uma vez por todas, que o homem deve sair jogando para então resolver os problemas do São Paulo mais cedo e de maneira menos traumática. Enfim...

No livro de Voltaire, em contra ponto ao maldito mantra positivista que Pangloss sempre cita à Candido, aquele diz, "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis" o jovem rompe para adotar outro que afirma que "devemos cultivar nosso jardim." Pensa nisso, Adilson.

Da uma olhadinha melhor para suas flores aí, enquanto elas felizmente não são poucas...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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