Por Marcelo Mendez
Lívia Manini é minha amiga, produtora musical das boas. Há algum tempo ela me chamou pra ajudá-la em um fim de semana de comemoração dos 85 anos de Vanzolini e então me falou qual seria meu primeiro trabalho:
“Marcelo, enquanto eu acerto uns detalhes lá de documentação para levar ao SESC, vou deixar você lá fazendo companhia pro Paulo na casa dele, tá bom?”
“Paulo? Que Paulo, Lívia?”
“Como que Paulo, Marcelo? PAULO VANZOLINI. Enquanto falo com o pessoal dos detalhes do show, você fica lá na sala com ele...”
Bem...
Aquela quinta feira a tarde foi sem duvida um dos melhores dias da minha vida.
Paulo Vanzolini, cientista mundialmente renomado, biólogo, zoólogo, musico, poeta, sem duvida nenhuma é um dos maiores nomes da Cultura Brasileira. Sua importância para São Paulo é gigantesca, porque ao lado de Adoniran Barbosa e Itamar Assunção, trata-se de quem melhor cantou, quem melhor narrou suas ruas, seus amores, suas idiossincrasias, quem melhor entendeu seu povo, suas vidas, sua musica e suas almas. Vanzolini imortalizou-se através de musicas como RONDA, VOLTA POR CIMA, PRAÇA CLÓVIS, CARA LIMPA e, naquela tarde, em meio a milhares de assuntos abordados por aquele homem extremamente culto, falamos de uma dessas musicas, BANDEIRA DE GUERRA, onde o mestre fala da resignação de um amor que embora fadado ao erro e a dor, persiste, insiste e acontece.
É assim:
Foi numa esquina da vida
Uma mulher em hora perdida
Um homem em ponto morto
Nessa base do tropeço e mau começo
Foi nascer contra a vontade este amor torto
Me admira ter vingado, quem diria
Que fosse loucura pra mais do que um dia
Na verdade, quem diria
Que enxergasse a luz do dia
E se Vanzolini que cantou melhor do que ninguém as coisas do povo de São Paulo, porque não haveríamos de enxergar o futebol nosso aqui da Paulicéia através de um de seus hinos máximos? No que pese o mestre não ser nada chegado a futebol como ele mesmo me contou, aqui, esse cronista falará do que aconteceu na rodada desse final de semana com Bandeira de Guerra na cabeça e nas linhas abaixo.
Afinal amigo leitor, essa relação descrita na musica serve demais para as relações de nosso universo ludopédico. Vejam o caso do São Paulo, que bateu o Ceará sábado no Morumbi por 4x0.
Em uma dessas esquinas da vida, o time de Juvenal Juvêncio encontrou Adilson Batista perdido, mais perdido que solteirona encalhada em baile de gafieira. O contratou então para tirar o seu São Paulo do ponto morto que se encontrava e todo mundo da resenha ludopédica (inclusive esse escriba que vos redige essas linhas...) desacreditava que a coisa pudesse vingar.
Eis que entre trancos e barrancos, a coisa foi.
O São Paulo começou o jogo como sempre, de maneira claudicante. Com o Ceará indo para cima dos três zagueiros em linha do time do Morumbi, com Osvaldo e Nicassio deitando e rolando em cima das laterais desprotegidas do tricolor, o primeiro tempo estava um sufoco só. Mas aí, entra o Adilson...
Já disse aqui, se para alguns, futebol é posicionamento, para Adilson Batista é Agressividade. Seus times jogam pra frente de maneira incisiva, às vezes se perde por isso, porque não da para atacar o adversário tal e qual os índios red skins tentava atacar o General Custler... Mas uma coisa ótima que tem por lá é que suas equipes gostam do ataque. E no que pese o fazê-lo vez por outra de maneira atabalhoada, de vez em quando da certo...
Quando a coisa tava mais apertada no primeiro tempo sábado, eis que uma bola é jogada no meio da grande área para o lateral esquerdo Juan, de 1,66 de altura se enfiar no meio da zaga cearense para meter 1x0 no placar. Pouco tempo depois, o outro lateral que não estava marcando ninguém, o bom paraguaio Piris, entrou na diagonal para finalizar e fazer o 2x0. Aeee o jogo já era...
O Ceará a partir de então, tentou atacar do jeito que lhe restava, se abriu demais e então, tomou mais dois golaços, Um de Casemiro, outro de Rivaldo. Final 4x0 e o São Paulo segue nas cabeças da competição. Deduz-se que então o samba de Vanzolini caiu perfeitamente aqui. Já no Pacaembu...
Ali, pra variar, Tite, técnico formado nas “Faculdades Integradas Lair Ribeiro”, com “Doutorado em auto-ajuda de porta de shopping” inventou de novo e se lascou. Armou o time com dois jogadores abertos mais Liedson à frente sob argumento de explorar os flancos do campo. O problema é que Willian e Emerson abriam e ficavam longe demais do centroavante Liedson, tinham recuar para ajudar os dois volantes, Ralf e Paulinho e a bola não chegava à frente de jeito algum. Ainda abriu o placar graças a uma arrancada de Alessandro e uma bola que sobrou para Liedson meter 1x0. E então, o Santos jogou...
Empatou ainda no primeiro tempo com Henrique, para depois virar o caminhão com Borges e Chicão contra; 3x1 na cacunda e de novo a velha história...
Tite na entrevista coletiva tenta explicar o inexplicável. Coloca Jorge Henrique no banco, toma um reio, e volta com Jorge Henrique. Coloca Ramon pra jogar, o time vai mal e ele volta com Wendel. Homem bem educado que é, explica todas essas balelas com muita calma, muita tranqüilidade, da impressão de que o time meteu 9x0! Pois é. Mas o caso pode ser resolvido de uma maneira até prazerosa.
Que tal sentar Tite e Adilson para um café com Vanzolini??
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
