Álbuns Clássicos - Farinha do Desprezo (Jards Macalé)

Por Marcelo Mendez

Da série "Minhas Love Stories", houve uma vez no ano de 2002...

 Eu tava meio de saco cheio de tudo e talvez por isso me animei a aceitar o convite de um amigo meu para fazer algo que eu jamais havia imaginado fazer... Gerenciar uma casa de danças na Rua Rêgo Freitas, o afamado “Escadinha Clube”. Por lá conheci Greiciane...

 Menina, uns 20 anos, baixinha, morena clara, cabelos pretos escorridos costas afora, boca carnuda, rostinho de Madeleine Stone, um escândalo de gostosura. Era garçonete e ganhava de todas as outras nas gorjetas e bem... O motivo, acabei de descrever acima. Fiquei besta!

 Aí, conversa vai, forró vem, dia clareia, dia escurece, eu consegui! Um belo dia a moça me chamou para ir até a casa dela ouvir um som. Morava sozinha, numa casinha num lugar que só uma grande paixão, ou uma bela anca, ou os dois... É capaz de levar um homem:

 Tal de Morro Doce. E lá fui eu então até o Sugar Mountain, Anhanguera afora. Chegando à casinha, coisa simples, três cômodos, cortina de plástico como porta de quarto, cheiro de Bom-Ar borrifado na casa e um bom café forte pra começar o dia. No fundo do quintal uma horta, onde tinha por lá umas abobrinhas que pegamos para o almoço. Enquanto ela descascava a coisa, decidi então fuçar nas coisas dela e encontrei um belo de um disco que botei pra tocar para esperar o rango. Ao som dele, posso dizer aos senhores que comi a melhor... abobrinha refogada da minha vida. E agora os convido para conhecerem o autor dessa bolacha e sua obra aqui em Álbuns Clássicos.

 E com vocês, Jards Macalé e seu seminal FARINHA DO DESPREZO de 1972.

 Jards Anet Da Silva, nascido na Tijuca no pé do Morro Da Formiga no rio De Janeiro, desde muito cedo se acostumou com musica. Ainda menino vai para Ipanema onde as coisas começam acontecer na sua vida.

 Por lá, após uma partida de futebol na praia onde ficou muito clara sua pouca habilidade junto ao esporte ludopédico, ganha o apelido de um caneludo lateral esquerdo do Botafogo, “Macalé” e o adota para começar seus estudos musicais com nomes como Guerra Peixe, Peter Dauelsberg, Turíbio Santos e a mestra da análise musical Ester Scliar. 

 Sentindo-se pronto, Macalé começa sua carreira em 1965, como violonista, no Grupo Opinião. Por lá foi diretor de gente como Maria Bethania, Elisete Cardoso, Nara Leão, Gal Costa e outros. Mas foi em 1969, após o sucesso de sua musica Gothan City no 4º Festival Internacional da Canção que o povo passa a prestar atenção naquele moço erudito e muito talentoso. E os próximos dois anos são proeminentes pra ele... Grava em 1970, uma sapatada musical de tão boa, que é o EP Burning Night, faz alguns shows e parte para Londres, de onde retorna em 1971 cheio de idéias que resultarão nesse baitaaaa discão que falamos hoje...

 FARINHA DO DESPREZO, disco de estréia de Macalé, revoluciona a música brasileira do começo dos anos 70, sem a menor duvida.

 Contando com Lanny Gordin no Baixo, Tuti Moreno na Bateria e Jards Macalé no Violão, o disco marca a chegada de Jards ao mundão pop da época com uma postura totalmente inusitada para os padrões carolas da época. Mesclando rock, com samba, jazz, bossa nova, tropicalismo, macumbas e outras chanchadas, tudo com um fino eruditismo, recheado de letras melancólicas e satíricas, o disco mete um ponto de interrogação no meio da testa da critica.

Já de cara abre com o que Jards provocava dizendo ser um “Anti Rock”, a música Farinha do Desprezo, uma mistura esperta de samba com jazz e tiradas geniais como essa:

"Só vou comer agora da farinha do desejo/ alimentar minha fome para que nunca mais me esqueça/ como é forte o gosto da farinha do desprezo"

 Passa pela vinheta de VAPOR BARATO, discorre um lamento divino em MAL SECRETO ("massacro meu medo, mascaro minha dor, já sei sofrer") pela desolação de MOVIMENTO DOS BARCOS e o existencialismo do hino LET'S PLAY THAT. Tudo numa suinguera irresistível. Mas o amigo leitor há de entender, o álbum foi lançado no Brasil de 1972 em meio a todo sangue da ditadura militar e o decreto assassino do AI-5, quer dizer; As cabeças por mais que fossem esforçadas não estavam prontas para tanta vanguarda...

 FARINHA DO DESPREZO não teve uma boa vendagem. Sendo então um daqueles casos em que o público não entende a obra e a tal da critica “especializada” antipatiza a "cousa" por ter medo de dizer que não a entendeu, o disco foi rapidamente tirado de catálogo para depois virar uma raridade disputada a tapas e beliscões em sebos e lojas descoladas.

E o presentinho tá lá na capa, é só clicar...
 Em 1995 um selo muito bacana e carudo, o Rock Company, lançou na larga umas cópias piratonas, das quais uma, tenho comigo ainda hoje. Para os senhores tomarem contato com a "cousa", deixo aqui a seminal FARINHA DO DESPREZO e aí já sabem...

 Taca o play aí embaixo...

Jards Macalé - Farinha do Desprezo


Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor  e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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