De olho na moda - A criatividade nasce da necessidade

Por Carolina Vitorino e Priscila Tâmara | 

 O território da Quênia já era habitado há cerca de 20 milhões de ano, mas assim como a maioria dos países colonizados, a sua história passou a ser escrita a partir do momento em que “seres estranhos” pisaram suas terras. Os britânicos chegaram no ano de 1890, quando então, iniciaram sua colonização de exploração.

 Os europeus desde então, monopolizaram as melhores terras cultiváveis. Isto perdurou até o início da década de 1950, quando surgiram movimentos de libertação do povo queniano, sendo o principal um movimento da tribo Gikuyu (de etnia Kikuyu) denominado Mau Mau (Burning Spears). Em 1963, os britânicos foram expulsos das terras quenianas, e finalmente no dia 12 de dezembro de 1963, a Inglaterra reconheceu a independência do Quênia.

 O país viveu um período de ditadura violentíssimo até 2002. As condições da população somali, que já estavam deterioradas por 20 anos de conflitos, foram agravadas ainda mais pela seca que prejudicou as colheitas, causou a morte do gado e elevou o preço dos alimentos. Em busca de alimentos e assistência médica, os somalis andam por dias até chegar aos campos de refugiados de Dadaab, no Quênia, o maior do mundo. A maioria dos recém-chegados acaba se instalando no entorno do campo onde não recebem assistência adequada.

Vista aérea do campo de refugiados de Dadaab.
 Hoje, cerca de 400 mil pessoas vivem nesse campo de refugiados, praticamente a população de Florianópolis (SC). Até 1990, Dadaab era um pequeno lugarejo às margens da estrada, quando começou a guerra na Somália e começaram a chegar os refugiados. Hoje essa vila se transformou numa grande cidade. Cerca de 70 mil pessoas moram e trabalham em Dadaab. A situação hoje é de crise humanitária.

 O principal problema econômico do Quênia hoje é o alto índice de desemprego, sendo que metade da população economicamente ativa se encontra desempregada, enquanto que mais da metade dos quenianos empregados recebe salários baixíssimos (de oitenta a cem dólares, ou quase duzentos e setenta reais).

 É nesse universo, que a costura e as roupas surgem no Dadaab como uma alternativa de emprego para alguns. Mas não são as mulheres que pilotam as máquinas nas tendas de costura, são os homens. E são eles que entendem de modelos e cores da moda, fazendo peças simples num prazo de até 5 minutos. Os caras tiram suas medidas, fazem o molde e entregam no prazo estipulado, que se for um vestido mais elaborado pode demorar de uma a três horas.

O queniano Siyat Noor aprendeu a costurar num curso profissionalizante.
 Os mercados do campo estão lotados de tendas-ateliês, porque em Dadaab não há muitas roupas fabricadas para vender. É difícil e caro achar uma calça jeans, por exemplo. Eles fazem roupas para homens e mulheres, mas só moda somali, já que os somali são 98% da população do campo e, portanto dominam a cultura local.

 Legalmente os refugiados de Dadaab não podem trabalhar, já que não são reconhecidos como cidadãos pelo governo do Quênia. Mas, como o campo existe há 20 anos, uma economia já se formou no complexo, e os mercados são a principal fonte de dinheiro para essa população, o que ainda é muito pouco.

Vivienne Westwood lançou a Ethical Fashion 
Africa Collection, linha de bolsas com fundo
social.
 Vivienne Westwood viajou pro Quênia e encabeçou um projeto social muito válido. Em parceria com a International Trade Centre, uma das agências da ONU, o projeto tem como principal objetivo a geração de empregos pra população de Nairóbi, a capital do país.

 Ela criou uma nova linha de acessórios, a Ethical Fashion Africa Collection. Tudo que levar essa etiqueta será produzido com matérias-primas que vão de chinelos a restos de tecidos reciclados, transformados em produtos pra consumidores do mundo todo, pelas mãos de mulheres que até então, não tinham nenhuma outra fonte de renda.

 O resultado desse novo projeto foi lançado na feira Pitti Uomo, em Florença, e já está à venda no site oficial da estilista e no Yoox.com. Vivienne, que sabe bem o valor de sua marca nesse mercado deixa claro sua intenção: “O que eu faço, produzindo bolsas, pode fazer a diferença. Esse projeto dá às pessoas o controle de suas próprias vidas – caridade não dá poder, faz o oposto, faz com que elas se tornem dependentes.”

 E não há glamour nenhum em nada disso. A moda como geradora de fonte de renda é uma opção que nasce em meio a uma necessidade surgida por questões sociais muito maiores do que qualquer modismo.

Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.
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