E acabou.
O Campeonato Brasileiro de 2011 chega a sua rodada final em um dia em que as coisas da vida e do futebol começaram para mim no domingo bem cedo, as 06:30 da manhã quando liguei meu radio AM na Radio Bandeirantes como sempre faço. Foi na voz de Silvania Alves que fiquei sabendo do falecimento de um dos maiores Brasileiros que conheci
Sócrates...
Quando eu era menino ali em 1982, tive uma grande tristeza ludopédica. A nossa seleção perdia um jogo improvável no Sarriá, na copa da Espanha, para uma Itália muito boa, mas muito pesada e truculenta. Um 3x2 que ainda me castiga a lembrança desde aquele 5 de julho de 1982. Naquela equipe, Sócrates era o capitão. E me chamava atenção para além do futebol...
Claro que foi um craque. Um homem alto, muito magro, meio desengonçado, que tinha tudo para dar errado no futebol, não tinha porte atlético e não tava nem aí para nada dessas baboseiras. Sócrates via o futebol como uma grande arte, como um enorme espetáculo, que devia ser encarado com leveza, com categoria e classe que nele, sempre foi proeminente. Era inteligente demais...
Sócrates, homem culto, formado em medicina, intelectual, apaixonado por filosofia, literatura, musica, pintura, era um jogador de visão de jogo, que fazia como poucos a leitura do que uma partida pedia a ele. Além disso, tudo, uma coisa me intrigava quando menino de 11 anos; “Que são essas coisas que ele tanto fala??” - Pensava eu. Pois é.
O doutor foi um sujeito que olhava para o mundo, para as coisas do mundo e seus aspectos sociais e pensava “O que eu preciso fazer para mudar isso? Do jeito que está não pode ser”. E concordando ou não, a gente se cativava com o amor que ele se engajava em suas causas. Foi assim, na Seleção de 1982, foi assim durante a Campanha Pelas Eleições Diretas, foi muito assim naquele movimento revolucionário que ele implantou no Corinthians denominado Democracia Corinthians.
E no meio de uma ditadura militar vigente, nascia no clube de futebol mais popular do Brasil, no esporte mais popular do País um movimento que fez valer na prática o maior modelo de Democracia já visto por essas terras de cá. Um grupo de jogadores de futebol, em um meio extremamente conservador, ousou mudar as coisas. E foi tudo ótimo.
Tudo foi muito lindo.
Mas então eu sou cronista. Tenho a comentar aqui uma decisão que aconteceu ontem, no entanto, a lágrima que me escorre a face agora enquanto escrevo essas linhas, me impede de dar importância maior a qualquer outro assunto que não seja Sócrates. Mas os deuses do futebol ajudam àqueles que por ele “cronicam”. E eu não vou precisar fazer isso...
Afinal de contas, o Corinthians é o Campeão Brasileiro de 2011.
E o Corinthians não poderia deixar de ser campeão, mas de jeito nenhum!
Como Palmeirense alucinado que sou bem conheço as coisas desse meu nobre rival. O time de parque São Jorge é a maior representação popular de tudo que tem de mais brasileiro. Um time que agrega naturalmente brancos, pretos, amarelos, judeus, árabes, pobres, ricos, homens, mulheres, crianças, palestinos, azuis, amarelos... Que tem la em sua administração ao longo de sua história, controvérsias, contestações e turbulências como em tudo que temos aqui no Brasil. Uma nação de 30 milhões de pessoas, um sentimento a parte ou, como dizia Sócrates; “Mais que um clube, o Corinthians é um estado de espírito”.
Não seria justo.
No dia que e o Doutor nos deixou, não seria nada legal ver um time como meu Palmeiras, que nada fez em 70% do campeonato todo, resolver fazer naquele domingo em que a bola chorou. Ela, a bola, tão maltratada e tão desdenhada em tempos modernos, em tempos de “Futebol, Propaganda & Marketing”. Ela, a bola que perdia um cara que sempre primou por tratá-la com carinho. Foi bravo o meu verde; Após uma palhaçada de um sujeito pra lá de moleque feito o nota-de-três do Valdivia, o time segurou o Corinthians em 0x0 lá e cá. Um jogo bastante tenso, mas na boa? QUE SE DANE O JOGO!
Hoje, em dia de titulo a coluna Canela de Ferro, não falará de nenhum detalhe técnico ou tático do jogo para falar do sonho, em detrimento ao que manda as tais “Regras”, os tais “Padrões”, porque aqui, nada tenho que me aproxime disso. Porque minha realidade é bem outra...
E sou torto mesmo. Sou o contrário que pode acontecer. Sou o moleque de pé sujo de barro que mela o tapete caro da sua sala de estar. Sou o Tango cheio de drama e paixão, sou o Samba cheio de suingue e malemolência. Sou o encanto de onde menos se espera, Eu sou Romário contra os Suecos; Sou o pequeno homem que mete gol de cabeça no meio dos seus zagueiros gigantes. Sou o triunfo do improvável, a gota d'água, a lagrima que canta, que vibra, que ama, que xinga, que afaga.
Eu sou Latino, porra!
E é essa minha condição que me faz entender exatamente o que é, a importância que tem para o futebol, um título para uma equipe como é o Corinthians e tudo que isso significa. O Corinthians não é um time que se explica, mas sim, um sentimento que se vive. Em toda intensidade necessária para que uma vida seja plena. Nessa hora, não tem que ficar se encasquetando com explicações acadêmicas ou futeboleiras. Tem que parabenizar e isso, nossa Coluna faz aqui ao Corinthians. Parabéns ao time de Parque São Jorge. Quanto ao que sinto?
Sócrates entendia muito bem isso tudo que digo. Para mim, basta...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.